Quer destacar o seu perfil no LinkedIn? Faça esta pergunta a si mesmo, diz executiva global
New York, Estados Unidos* - Em um mercado de trabalho cada vez mais influenciado pela inteligência artificial e pelas redes sociais, construir uma reputação profissional se tornou tão importante quanto desenvolver competências técnicas. Mas será que é necessário publicar conteúdo constantemente, acumular seguidores e se tornar influenciador para crescer na carreira?
Para a Tyrona Heath, executiva global do LinkedIn, a resposta é não. Mais importante do que a visibilidade é demonstrar conhecimento, construir relações de confiança e deixar claro o valor que se pode oferecer às empresas.
Em entrevista exclusiva à EXAME, a executiva, que construiu uma trajetória internacional com passagens por Google, IBM e Nestlé, fala direto da sede do LinkedIn, em New York, sobre o futuro das carreiras, o impacto da inteligência artificial e como destacar o perfil na maior plataforma de emprego do mundo. A conversa aconteceu durante a cobertura do Programa Salto + Alto, evento de imersão nos Estados Unidos idealizado por Tatiana Marzullo para mulheres líderes.
Veja a entrevista completa com a executiva global do LinkedIn:
O LinkedIn se tornou uma das principais plataformas de visibilidade profissional do mundo. O que realmente faz um profissional se destacar hoje?
Clareza, utilidade e evidências. Quando alguém conhece seu trabalho, consegue entender o que você sabe, quais problemas pode resolver e por que deveria confiar em você?
A pergunta que incentivo as pessoas a fazer é: “Pelo que quero ser reconhecido?” Se você diz que entende de liderança, mostre como enfrentou uma decisão difícil. Se entende de marketing, compartilhe conhecimentos que ajudem outras pessoas.
Pense no seu perfil como uma apresentação e nas suas contribuições como oportunidades de demonstrar sua capacidade de julgamento. Seu cargo pode apresentar você, mas é seu trabalho que faz as pessoas se lembrarem de você.
Com o avanço da inteligência artificial, quais habilidades serão mais valorizadas nos próximos cinco anos?
Acredito que o domínio da inteligência artificial, a capacidade de julgamento, a curiosidade e a comunicação serão especialmente valorizados.
A IA pode organizar informações e produzir boas explicações, mas ainda precisamos decidir quais problemas realmente importam e avaliar a confiabilidade das respostas. Um texto muito bem escrito ainda pode estar respondendo à pergunta errada.
O conhecimento especializado permite avaliar o que a tecnologia entrega. A comunicação torna as ideias úteis, e a curiosidade é fundamental porque as ferramentas continuarão mudando.
Quais são os maiores erros que os profissionais cometem ao usar o LinkedIn para buscar oportunidades de carreira?
Listar responsabilidades mostra onde você dedicou seu tempo. Já apresentar problemas que resolveu, decisões que influenciou e resultados que ajudou a alcançar torna sua experiência mais clara.
Também incentivo os profissionais a desenvolver relacionamentos ao longo de toda a carreira. Fazer boas perguntas, compartilhar informações úteis e demonstrar interesse pelo trabalho de outras pessoas amplia as oportunidades de contribuição.
Você trabalha com The B2B Institute, que pertence ao LinkedIn? Qual é a principal missão do instituto?
O The B2B Institute é o centro de estudos do LinkedIn dedicado a pesquisar novas abordagens para o crescimento de negócios entre empresas.
Ajudei a construir o instituto, e meu trabalho tem sido tornar suas pesquisas acessíveis e aplicáveis por meio de palestras, educação e colaboração com profissionais de marketing.
Mais recentemente, passei a estudar como marcas, funcionários, clientes e criadores de conteúdo contribuem para construir credibilidade nas decisões empresariais.
Todo profissional precisa construir uma marca pessoal?
Todo profissional tem uma reputação. As pessoas formam impressões a partir da qualidade do seu trabalho, da maneira como você trata os colegas e de como reage quando algo dá errado.
Uma pergunta importante é: “Em que eu quero que as pessoas possam confiar em mim?”
É possível construir essa reputação intencionalmente sem transformar sua vida em uma campanha de produção de conteúdo. Sua reputação profissional é apenas uma parte da sua vida, e seu valor vai muito além de um cargo.

EXAME visita a sede do LinkedIn, em New York, a convite do Programa Salto + Alto. Evento leva mulheres líderes para conhecer de perto como grandes marcas trabalham a liderança nos Estados Unidos (Dione Lopes/Divulgação)
É possível construir uma carreira de sucesso sem se tornar influenciador?
Sim. Existem muitas maneiras de tornar sua contribuição visível: realizar um excelente trabalho, orientar colegas, compartilhar aprendizados, construir relacionamentos ou participar de eventos do setor.
O nível de exposição pública necessário depende dos objetivos de cada profissional.
Gosto de criar conteúdo, mas sei quanto trabalho acontece antes de qualquer publicação. Aprender, ouvir e realizar o trabalho são o que dão a você algo que vale a pena compartilhar. Um calendário de conteúdo vazio pode parecer muito exigente, mas ele não pode decidir o que você faz com a sua vida.
O que é mais importante para crescer na carreira: networking, reputação ou habilidades técnicas?
Vejo esses elementos como interligados. As habilidades ajudam você a contribuir, a reputação gera confiança e os relacionamentos permitem que outras pessoas conheçam seu trabalho.
No início da carreira, desenvolver competências pode ser a prioridade. Mais adiante, talvez seja necessário comunicar melhor suas contribuições e ampliar sua rede de relacionamentos.
Nenhum desses fatores garante uma promoção. O acesso às oportunidades e avaliações justas também são importantes.
O CEO do futuro também precisará se tornar um criador de conteúdo?
Acredito que os CEOs precisarão ser comunicadores estratégicos. Funcionários, clientes e parceiros precisam compreender como um líder enxerga o futuro, quais decisões considera importantes e quais valores orientam suas escolhas.
Criar conteúdo é uma maneira de tornar esse pensamento acessível, mas a credibilidade depende da conexão entre o discurso e as ações da organização. A voz do CEO é apenas uma parte da reputação de uma empresa, que também é construída por funcionários, clientes e especialistas.
Você já precisou se reinventar profissionalmente trocando o esporte pelo marketing. O que aprendeu?
Fiz uma transição importante de deixar o esporte competitivo para construir uma carreira em tecnologia e marketing. Consegui me classificar duas vezes para as seletivas olímpicas dos Estados Unidos nos 800 metros.
O esporte me ensinou disciplina, estratégia, consistência e como superar fracassos. Uma corrida de 800 metros dura cerca de dois minutos, mas a preparação leva anos. Aprendi a valorizar o trabalho que acontece muito antes de um resultado se tornar visível.
Reinventar-se significa aprender novas habilidades, mas também reconhecer as competências que você já possui.
Quais são os maiores desafios das mulheres para alcançar posições de liderança?
O acesso às oportunidades, o apoio de líderes que defendam seu crescimento e avaliações justas estão entre os principais desafios.
As mulheres também enfrentam expectativas contraditórias: podem ser consideradas assertivas demais ou excessivamente conciliadoras. Por isso, dizer apenas que precisam “ter mais confiança” é insuficiente.
Como mulher negra no setor de tecnologia, me importo profundamente com quem tem seu conhecimento reconhecido. As empresas precisam estabelecer critérios de avaliação mais claros e garantir oportunidades equitativas de desenvolvimento.
Existe uma pressão para parecer bem-sucedido no LinkedIn, mesmo quando a realidade é diferente?
Sim. Os perfis públicos costumam mostrar conquistas: um novo cargo, um prêmio ou uma participação em uma conferência. Mas representam apenas uma parte da vida.
Como atleta, aprendi quanto trabalho, fracassos e tentativas existem por trás de um resultado.
Quando comparamos toda a nossa experiência com as conquistas que outras pessoas compartilham, podemos chegar a conclusões injustas sobre nós mesmos. Um cargo pode mudar. Sua humanidade e seu valor permanecem.
Ter milhares de seguidores no LinkedIn pode ajudar alguém a conseguir emprego ou ser promovido?
Ter uma audiência amplia o número de pessoas que conhecem seu trabalho. Mas o que elas compreendem sobre você importa muito mais do que a quantidade de seguidores.
Eu perguntaria quem compõe essa audiência, a que essas pessoas associam seu nome e se suas contribuições demonstram conhecimentos relevantes para a oportunidade desejada.
Seguidores são uma medida de alcance. Eles dizem muito menos sobre aquilo que as pessoas acreditam que você é capaz de oferecer.
Que conselho daria a um jovem profissional que sonha em alcançar uma posição de liderança global?
Torne-se um estudioso das pessoas e dos problemas que deseja ajudar a resolver. Desenvolva conhecimento especializado e aprenda a aplicá-lo em diferentes contextos.
A liderança global exige saber ouvir. Uma ideia que funciona em um mercado pode precisar ser reconsiderada em outro.
Também incentivaria os jovens a encontrar uma questão que valha a pena explorar ao longo da carreira. O cargo pode ser a ambição, mas a contribuição é algo que você pode começar a desenvolver hoje.
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