Colonos levam até nossas árvores com proteção de Israel, diz brasileira que mora na Cisjordânia
Incentivados pelo governo mais à direita da história de Israel, pela aprovação de novos assentamentos ilegais e pela atenção da comunidade internacional concentrada na guerra do Irã, colonos israelenses intensificaram ataques contra palestinos que vivem na Cisjordânia nos últimos meses, segundo dados compilados pela ONU.
Pelo menos 15 palestinos, incluindo duas crianças, foram mortos por colonos em 2026, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para Coordenação Humanitária (Ocha). Para efeito de comparação, o ano com o maior número de mortes causadas por civis israelenses na Cisjordânia foi 2023, quando 16 pessoas foram assassinadas.
Diante desse cenário, a ONG israelense B'Tselem divulgou, na última semana, que o governo de Israel trabalha para eliminar, de forma sistemática, as condições para a vida coletiva palestina na região.
Para a brasileira Mariam, cujo nome foi alterado para protegê-la de represálias, a intensificação da violência por parte dos colonos é inédita em todos os 30 anos em que mora no território ocupado.
"Aqui na Cisjordânia, acontece um outro tipo de guerra", diz ela, que mora em Ramallah, capital administrativa da Autoridade Palestina. "Um dia, você acorda e vê uma tenda perto da sua casa. No dia seguinte, são duas, três tendas. Então, eles começam a te aterrorizar, queimam carros, roubam ovelhas, até que você saia de casa e eles se apossem da sua terra."
Mariam nasceu no Brasil na década de 1970. Filha de palestinos, morou no país até a metade dos anos 1990, quando resolveu migrar para a Palestina, motivada pelo anúncio dos acordos de Oslo. "Queria ajudar na construção do Estado palestino. Muitas famílias vieram nessa época", diz à Folha em entrevista por telefone.
Apesar da decepção com o fracasso dos acordos, incapazes de resolver questões como o futuro das centenas de milhares de colonos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, Mariam resolveu ficar. Ela se casou e teve dois filhos, que também têm a cidadania brasileira.
Segundo ela, as condições para os palestinos pioraram muito depois do 7 de Outubro, quando o Hamas fez o ataque terrorista contra Israel que deu início à guerra na Faixa de Gaza —que, para Mariam, é um genocídio.
Em uma ocasião em 2025, Mariam disse ter presenciado uma invasão de colonos em um vilarejo onde moram alguns de seus familiares. "Mais de 40 colonos começaram a queimar as casas mais afastadas do centro e mataram quatro pessoas que tentaram impedir. Tudo isso com proteção do Exército [de Israel]."
Segundo ela, quando os soldados israelenses chegaram ao local, não agiram contra os colonos: simplesmente impuseram um toque de recolher aos moradores palestinos e interditaram o acesso ao vilarejo "até que as coisas se acalmassem".
Outros palestinos ouvidos sob condição de anonimato reforçaram a percepção de que a situação tornou-se mais grave recentemente. Um deles afirmou que uma casa de sua família, em uma zona rural no norte da Cisjordânia, foi tomada por colonos armados que se recusam a sair e que contam com a proteção do Exército israelense.
Em resposta à reportagem, as Forças Armadas de Israel disseram que trabalham para conter o terrorismo na Cisjordânia, território ao qual se referem pelos nomes bíblicos Judeia e Samaria, e afirmaram rejeitar "qualquer insinuação" de que agem para "importunar ou tomar como alvo a população palestina".
Mariam diz ainda que famílias que possuíam terras nos arredores dos seus vilarejos não conseguem mais acessá-las para, por exemplo, realizar a colheita de azeitonas, fonte de renda essencial para boa parte da população da Cisjordânia.
"Os colonos impedem, ameaçam, atiram. Quem tem uma chácara ou um sítio não tem mais, ninguém consegue chegar perto", diz.
A família de Mariam possuía uma plantação de oliveiras em um terreno de cerca de três hectares, ou 30 mil m², área pouco maior do que a praça da República, em São Paulo. Em agosto de 2025, o Exército de Israel removeu milhares de oliveiras nos arredores de Ramallah, citando questões de segurança. Mariam diz que a sua família perdeu todas as 50 árvores do terreno.
"Elas são centenárias, não foram plantadas ontem. Algumas têm 150 anos, estão vivas há mais tempo do que existe o Estado de Israel", afirma a brasileira. "Essas oliveiras foram replantadas em territórios confiscados [por colonos]. Você pensa: aqui eles não vão chegar, é muito perto das casas. Mas eles chegam. São marginais", diz.
Em outra ocasião, ocorrida nas últimas semanas, as Forças Armadas de Israel fizeram uma operação no vilarejo onde mora sua família. Mais de 50 casas foram invadidas e vandalizadas, afirma Mariam. "Quebraram banheiros, destruíram móveis. Parentes meus tiveram dinheiro, joias e celulares roubados", diz. "Vivemos sufocados, sem direito de ir e vir, sem direito de viver em liberdade e segurança."
O Exército israelense afirmou ter removido as árvores como parte de uma operação para evitar ataques terroristas e proteger motoristas de uma estrada próxima. Também disse que soldados estão proibidos de se apoderar de pertences de palestinos e que, quando essa ordem é descumprida, os acusados são investigados e punidos.
Lá Fora
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Apesar dos casos de violência, Mariam, que elogia a equipe do Itamaraty que atua em prol dos brasileiros na Cisjordânia —"fazem o que podem, mas Israel está acima da lei"—, descarta voltar ao seu país natal.
"Todo dia a gente discute isso, mas é isso que eles querem. Esse é o objetivo desse governo racista e extremista do [primeiro-ministro de Israel, Binyamin] Netanyahu. É o que queriam fazer em Gaza. Lá não tem mais saneamento, alimento, água potável, nada. Mas o povo resiste."
"Eu tenho condições de começar a vida novamente no Brasil", continua Mariam. "Mas estou aqui há 30 anos. Presenciei a Segunda Intifada [revolta palestina de 2000 a 2005 contra as políticas de Israel]. Vi muita gente inocente ser morta, e continuamos. Somos 5 milhões de palestinos [na Cisjordânia e na Faixa de Gaza]. Se todos forem sair... Eu não quero ser uma das que saem."
Segundo a ONG Human Rights Watch, pelo menos 107 comunidades palestinas foram expulsas de suas terras por colonos israelenses desde outubro de 2023.
Os colonos que vivem em assentamentos ilegais na região, se acusados de crimes, são julgados pela lei civil israelense. Já palestinos acusados de crimes relacionados à segurança nacional de Israel passam pelo crivo da lei militar daquele país. Esse fato é o cerne da acusação de entidades como a Anistia Internacional de que Israel comete o crime de apartheid na Cisjordânia.
Tel Aviv nega as acusações, dizendo que as diferenças de tratamento e direitos entre israelenses e palestinos se dão por preocupações legítimas de segurança e por uma questão de nacionalidade, não de raça —sem componente racial, não se pode falar em apartheid, de acordo com o direito internacional.
Os assentamentos, por sua vez, são ilegais perante o direito internacional porque a Convenção de Genebra proíbe um país que ocupa um território de transferir sua população para a região ocupada.
Israel se defende dizendo não estimular ou financiar o movimento inicial de colonos que criam assentamentos na Cisjordânia, embora forneça proteção militar, incentivos fiscais, respaldo jurídico e infraestrutura após o estabelecimento de um.
Hoje, cerca de 500 mil israelenses vivem em assentamentos na Cisjordânia, e 250 mil, em Jerusalém Oriental ocupada. Os assentamentos são conectados por estradas que, em geral, não podem ser acessadas por palestinos —estes também sujeitos a controles militares e a outras restrições de movimento no território ocupado.
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