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Thursday, October 15, 2026

Nunca mais teremos Paris (nem Londres)?

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Sem os eventos de 1940, Charles de Gaulle talvez fosse lembrado só como um pensador militar interessante. E Winston Churchill como um combo de dom Quixote e Sancho Pança, com fiascos retumbantes. A II Guerra transfigurou-os em colossos, uniu-os e separou-os. Churchill autorizou que um obscuro general de brigada falasse na BBC como líder da França Livre. Quando a parceria azedou, o inglês ironizou: “De Gaulle pensa que é Joana d’Arc, e não consigo que o raio dos meus bispos o queimem na fogueira”.

Churchill, feérico e mundano, amava prazeres opulentos. De Gaulle, taciturno e austero, marimbava-se para o luxo – Presidente da República, instalou um medidor de eletricidade nos seus aposentos particulares no Palácio do Eliseu para pagar as despesas do próprio bolso. E resmungou: “Como é possível governar um país que tem 246 tipos de queijos?”

Churchill professou-se um mamute vitoriano: “Com tristeza assisto ao fim do Império Britânico e suas glórias”. De Gaulle duvidava que a França absorvesse os muçulmanos da integração da Argélia. Gracejou que seu lar espiritual, Colombey-les-Deux-Églises, já era  “Colombey-les-deux-Mosquées”. Mas engoliu o sapo: “É natural sentir nostalgia do Império, da luz suave das lamparinas a óleo, do esplendor dos navios à vela…Mas um político tem que ser realista”. A extrema-direita não o perdoou por “abandonar a Argélia”, porém falhou os atentados contra aquele alvo de 2 metros de altura.

No fim, competiram pela posteridade literária: a prosa exuberante dos 6 volumes de “The Second World War” (Churchill),  contra a sobriedade clássica dos 3 tomos de “Mémoires de Guerre” (de Gaulle). O britânico contou com uma equipa, e encheu o chouriço com copiosos documentos. O francês esfalfou-se sozinho, para “criar uma obra de arte”. E grunhiu: “Churchill jamais escreveu um livro propriamente dito”. Quando Churchill recebeu o Nobel de Literatura em 1953, de Gaulle reagiu com a mesma alegria de Lobo Antunes em 1998 ao saber das notícias de Estocolmo sobre Saramago.

De Gaulle saiu à francesa em 1969. “La Bataille de Gaulle”, um biopic de  Antonin Baudry, foi a maior bilheteira do cinema francês no Verão de 2026, incluindo a libertação de Paris e os amuos com Churchill . Mas a revolta estudantil de hoje é igual a de 58 anos atrás? Nem por isso. Em 1968, a França surfava 30 anos de prosperidade desde o pós-guerra (Les Trente Glorieuses), com um poder de compra e consumo inéditos – e dez vezes mais universitários do que em 1939. Nascia o conflito geracional, e os meninos maus das boas famílias desatavam a chorar de barriguinha cheia.

Nem Mao explica Maio: o estopim foi exigência dos alunos da Universidade de Nanterre de irem aos quartos das alunas, e vice-versa.  A pílula anticoncepcional fora legalizada no dia 27 de dezembro de 1967- e as restrições à sexualidade já pareciam opressivas: é proibido proibir. Os soixante-huitards acabaram por baixar a bolinha, mas vivemos no corolário deles. Hoje a noção de restringir o acesso de jovens aos dormitórios do sexo oposto soa digna de um brontossauro – e há quem já não faça a mínima ideia do que é um sexo oposto, ou sequer se isso existe.

A recente visita de Leão XIV à França matizou um bocadinho as coisas: 80 mil jovens a rezarem no Stade de France, apoteose na Notre Dame, 800 mil fiéis na Place de la Concorde. Reparação pela abertura das Olímpiadas de Paris de 2024, que incluiu uma paródia da Última Ceia com drag queens? Embora 58% dos franceses entre 18 e 59  anos declarem não ter religião, os batismos de adolescentes e jovens adultos em 2026 aumentaram dez vezes desde 2019. Mas assim que o Papa virou as costas, o país voltou à vaca fria (ou a la vache qui rit), com as fraturas nacionais já refletidas na legalização da eutanásia.

No dia 21 de setembro, fervilharam os protestos contra a escassez de professores e a precariedade de escolas. Barricadas para impedir qualquer entrada nos liceus, labaredas de lixo incendiado nas ruas, manifestantes com máscaras, 100 estabelecimentos de ensino vandalizados, dezenas de funcionários, estudantes e polícias feridos, 500 escolas fechadas por segurança. Em Nantes, o liceu Nelson Mandela, novinho em folha, foi reduzido a cinzas, e uma tenente da polícia atacada no chão sob os urros de “Matem a cabra!”. 6.000 pessoas foram presas.

Jean-Luc Mélenchon, candidato às presidenciais de 18 de abril de 2027 por La France Insoumise (LFI), deita lenha à fogueira através de aliados como o Extinction Rebellion, o RED Jeunes, os Étudiants Musulmans de France e a Urgence Palestine, ligados à Irmandade Muçulmana. Cada escola secundária tem o seu representante eleito pela LFI. O maire de Saint-Denis, Bally Bagayoko, inflama a malta; o deputado Louis Boyard filma a si próprio como líder de recreio; Aymeric Caron arenga miúdos envoltos em bandeiras palestinianas, argelinas, sírias, marroquinas (não se percebe bem o que elas têm a ver com a educação nacional, mas faz de conta). Bandeiras da França, nem vê-las.  A LFI saliva pelos eleitores que votarão pela primeira vez em 2027. Clémence Guetté lembrou que em 2022 faltaram “ridículos 400 mil votos, ou 1%, para Mélenchon estar na segunda volta – mas agora a juventude irá levar-nos à vitória”.

Não que os sarilhos franceses se reduzam à radicalização imberbe. Trabalhadores entraram em greve e marinheiros bloquearam portos contra o aumento dos combustíveis. A dívida da França é de 120% do valor de tudo o que o país arrecada num ano, encarquilhando o magnânimo estado de bem-estar social, apanágio da identidade nacional. Por décadas, impostos elevados, déficits e juros baixos permitiram que se empurrasse a miragem com a barriga. Esse tempo acabou – mas a tentativa de passar a idade de reforma de 62 para 64 anos já incendiara o país.

Do outro lado da Mancha, há uma Grã-Bretanha  com mais berbicachos. A elite é tão woke como a dos EUA (e a do Brasil). Segundo o censo de 2021, 2,5% da população britânica é negra, mas mais da metade de todos os anúncios de TV apresentam pessoas negras. (Essa disparidade é ainda maior do que a representação negra nas estatísticas de homicídios, em que os britânicos de cor são 26% de todos os assassinos condenados.) Ninguém diria que a Grã-Bretanha foi a primeira nação do planeta a abolir a escravidão e, em seguida, usou a marinha mais poderosa do mundo para acabar com o tráfico global de escravos – as vidas negras importavam para os britânicos muito antes de George Floyd. Ao custo de milhares de vidas de marinheiros e milhões de libras, navios britânicos patrulharam a costa africana durante 50 anos, interceptando mais de mil navios negreiros e libertando 150 mil pessoas. Os contribuintes britânicos finalmente terminaram de pagar essa conta em 2015. Pelos vistos, a Grã-Bretanha ainda tem imenso a expiar.

Para aumentar a “diversidade”, asiáticos (indianos, paquistaneses, afegãos), que representam 9,3% da população, protagonizam 28% dos anúncios (paquistaneses também são sobrerrepresentados nos gangues de tráfico de adolescentes para fins de abuso sexual). 81,7% dos britânicos identificaram seu grupo étnico como “branco” – mas só 12% dos anúncios de TV mostram pessoas brancas. Agora até Anna Bolena e Macbeth foram interpretados no cinema por atores negros, e há elfos negros nas novas versões de Tolkien. Vilões? Sorry, mas só brancos, héteros e cristãos (já não precisamos dos mordomos dos policiais para nada).

Quando em 2014 Michael Brown foi morto pela polícia em Ferguson, Missouri (ação justificada pelo júri e pelo Departamento de Justiça de Obama), manifestantes britânicos marcharam por Londres, a gritar “Mãos ao alto, não atirem!” – o que foi um bocadinho pateta, pois os policiais londrinos não andam armados.

Desde 2021, tudo mudou alucinadamente. No ano passado, o “crescimento natural” entre os povos nativos das ilhas britânicas adicionou 19.000 pessoas à população. Mas a imigração em massa somou o recorde de 816.500 almas em apenas 11 meses. Durante gerações, a população cresceu porque nasciam mais britânicos do que morriam – uma evolução administrável, que preservava valores e cultura. Na nova era demográfica, comunidades inteiras (cidades, vilas e aldeias) estão irreconhecíveis.  Em 2025,130 áreas de conselhos na Inglaterra e no País de Gales viram as populações locais aumentarem em no mínimo 1.000 pessoas -, 15 delas com uma adição de 3.000. Em 11, a imigração foi mais de 100% de todo o crescimento populacional. Como, mais de 100%? Porque, sem ela, as populações dessas áreas tinham diminuído. No UK já há mais muçulmanos do que galeses.

Os moradores da liliputiana aldeia de Piddington realizaram um referendo simbólico no qual 285 dos 312 eleitores votaram a favor da independência do Reino Unido. Eles estão aterrorizados com os planos do governo de abrigar 1.250 homens solteiros solicitantes de asilo numa instalação militar contígua, de onde poderão entrar e sair quando quiserem. O primeiro-ministro Andy Burnham ralhou-lhes: “O povo de Piddington precisa de fazer a sua parte!” Cruzes canhoto.

Vá lá: o governo distribuiu a candidatos à imigração um folheto a explicar que a violação de menores de idade não é um costume britânico. Mas, no mundo paralelo do multiculturalismo, gosto não se discute.

O  chanceler alemão Friedrich Merz evocou uma Europa “satisfeita com a exportação de produtos caros, a proteção dos EUA e a importação barata de produtos da China e do petróleo russo”. Mas essa divisão de tarefas foi chão que já deu uvas. As fricções globais proliferam e a Europa precisa de gastar mais com defesa e energia, enquanto os EUA se distanciam do Velho Continente em produtividade e inovação.

A geração Baby Boomer nasceu após a II Guerra Mundial de Churchill e de Gaulle. A ideia de que o conflito foi causado por um distúrbio psicológico em massa de medo e ódio cristalizou-se num consenso. E a respectiva panaceia: tolerância incondicional, mas com repressão automática à veleidades “fascistas”.

Os boomers cresceram numa cultura confiante, centrada na família e na religião: se um cidadão fizesse as escolhas certas podia contar com uma vida boa. Outro slogan do Maio de 68: “Debaixo da calçada, a praia”. Enfim: trabalhar, só se fosse para o bronze. Tão boa era a vidinha que na década de 1960 aquelas augustas premissas foram mandadas à fava – um truque que só podia ser usado uma vez. O que se sedimentou foi a convicção de boa parte da elite de que era necessário suportar qualquer custo para impedir patologias como as dos satânicos anos 1930, com aqueles nazis todos (contra os quais, aliás,  Churchill e de Gaulle nunca desistiram de lutar). Fora a xenofobia, viva a xenofilia.

“Wir schaffen das!” (“Nós aguentamos!”) ronronou Angela Merkel em 2015, ao escancarar de par em par as fronteiras da Alemanha para mais de um milhão de pedidos de asilo e imigrantes ilegais, semeando pressões demográficas e culturais, e instabilizando a política em boa parte da Europa. Traduzindo para o Espanhol de Pedro Sanchez: “Mi casa es su casa!” Afinal, os europeus são ricos e sortudos,  e tudo acaba por correr bem.

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