'É ano de fazer o feijão com arroz': BrasilAgro reduz milho após margem cair a 2%
RESUMO +
A companhia agrícola BrasilAgro quase triplicou as vendas de milho no primeiro trimestre da safra 2026/27, encerrado em setembro, mas viu a margem bruta cair de 20% para 2%. Diante de preços menores e custos maiores, a empresa reduziu a área do grão. O lucro da BrasilAgro somou R$ 81,3 milhões, impulsionado pela venda de parte de uma fazenda na Bahia.
A BrasilAgro vendeu quase três vezes mais milho no primeiro trimestre da safra 2026/27, mas viu a margem bruta da cultura despencar de 20% para apenas 2%. A combinação de preços menores e custos mais altos levou a companhia a reduzir a área destinada ao grão, mesmo diante da perspectiva de uma produção maior que a anterior.
“A gente prefere ter um milho com mais produtividade do que ter um aumento da área de plantio”, afirmou André Guillaumon, CEO da BrasilAgro, durante coletiva de resultados realizada nesta terça-feira, 3.
A decisão expõe um contraste nos resultados da companhia. Enquanto a rentabilidade agrícola perdeu força, a BrasilAgro registrou lucro líquido de R$ 81,3 milhões no primeiro trimestre do ano-safra, encerrado em setembro, revertendo um prejuízo de R$ 64,3 milhões registrado um ano antes. A virada foi impulsionada pela venda de parte de uma fazenda na Bahia, que gerou ganho de R$ 50,8 milhões.
Na operação agrícola, porém, o cenário foi diferente. O EBITDA ajustado operacional caiu 32%, de R$ 64,3 milhões para R$ 43,8 milhões, pressionado pelo resultado negativo de derivativos e pela menor contribuição de soja e milho.
O desempenho do milho ajuda a explicar a decisão da companhia. A receita líquida da cultura saltou de R$ 19,5 milhões para R$ 55,2 milhões, acompanhando o aumento do volume comercializado, que passou de 23.777 para 69.923 toneladas.
O crescimento das vendas, no entanto, não se traduziu em maior rentabilidade. O preço médio de comercialização caiu 4%, para R$ 790 por tonelada, enquanto o custo unitário avançou 17%, chegando a R$ 771.
Com isso, o resultado bruto por tonelada despencou de R$ 161 para R$ 19, uma redução de 88%. Na prática, a BrasilAgro quase triplicou o volume vendido de milho, mas viu o resultado bruto da cultura recuar 65%, para R$ 1,35 milhão.
Além da pressão sobre preços e custos, a empresa enfrentou um problema no campo: cerca de 45% do milho comercializado foi impactado pelo aumento das despesas de colheita, decorrente de perdas relacionadas ao ataque de porcos.
A deterioração das margens levou a companhia a rever o planejamento da safra 2026/27. A área prevista para o milho primeira safra foi reduzida em 15% em relação à estimativa inicial. No milho de inverno, conhecido como safrinha ou segunda safra, o corte foi de 5%.
A revisão se concentrou principalmente em Mato Grosso, onde áreas menos favoráveis ao cultivo foram destinadas ao pousio ou ao plantio de cobertura. Em outras propriedades, a melhora dos preços da soja tornou a oleaginosa mais atrativa que o milho.
Com as mudanças, a produção projetada para o milho primeira safra passou de 85.319 para 73.123 toneladas, queda de 14%. Na segunda safra, a estimativa recuou 4%, para 92.582 toneladas. Mesmo com os cortes, a empresa ainda espera colher mais milho do que na temporada anterior.
Guillaumon afirma que a decisão considera o custo do capital e a necessidade de concentrar os investimentos nas áreas com maior potencial produtivo.
Mesmo com o avanço do plantio de soja em Mato Grosso, que favorece a janela da segunda safra, a companhia optou por não ampliar a área de milho safrinha.
“É ano de a gente fazer o feijão com arroz bem feito e colher uma produtividade boa na segunda safra”, disse.
A pressão sobre as margens não ficou restrita ao milho. Na soja, o preço médio de venda subiu 7%, mas o custo unitário avançou 13%. A margem bruta recuou de 30% para 27%, enquanto o resultado bruto caiu 18%, para R$ 29,8 milhões.
Segundo a BrasilAgro, aproximadamente dois terços da redução do EBITDA ajustado operacional decorreram da piora no resultado de derivativos, que passou de um ganho de R$ 9,6 milhões para uma perda de R$ 3,4 milhões. O restante refletiu principalmente a menor rentabilidade de soja e milho e outras despesas operacionais.
A receita líquida operacional ficou praticamente estável, em R$ 300,9 milhões, queda de 1% na comparação anual.
Lucro BrasilAgro
Se a operação agrícola perdeu rentabilidade, o negócio imobiliário ajudou a sustentar os resultados da BrasilAgro.
Em setembro, a companhia vendeu 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, localizada em Correntina, na Bahia. A transação teve valor nominal de R$ 94,2 milhões e gerou ganho de R$ 50,8 milhões, após ajustes contábeis e dedução do custo da área.
O preço negociado correspondeu a aproximadamente 2,9 vezes o valor contábil da propriedade. A operação reforça uma das principais estratégias da BrasilAgro: comprar terras, desenvolver seu potencial produtivo e vendê-las após a valorização.
Com a contribuição imobiliária, o EBITDA ajustado total chegou a R$ 94,6 milhões, crescimento de 47% em relação ao primeiro trimestre do ano anterior. A receita líquida de vendas somou R$ 351,7 milhões, alta de 16%, incluindo o ganho com a comercialização da fazenda.
A transação também ajudou a melhorar a posição financeira da companhia. A dívida líquida ajustada pelos recebíveis de fazendas caiu 51% no trimestre, de R$ 280,5 milhões para R$ 136,3 milhões.
A dívida bruta, por outro lado, cresceu 5%, alcançando R$ 1,07 bilhão. A BrasilAgro tem ainda R$ 626 milhões a receber por vendas de propriedades, dos quais R$ 218 milhões devem entrar no caixa nos próximos 12 meses.
'Perguntas frequentes'
Por que a margem do milho da BrasilAgro caiu de 20% para 2%? +
A margem caiu porque o preço médio do milho recuou 4%, para R$ 790 por tonelada, enquanto o custo unitário avançou 17%, para R$ 771. O resultado bruto por tonelada diminuiu 88%, de R$ 161 para R$ 19.
Quanto milho a BrasilAgro vendeu no primeiro trimestre da safra 2026/27? +
A BrasilAgro vendeu 69.923 toneladas de milho, ante 23.777 toneladas no mesmo período anterior. A receita líquida da cultura subiu de R$ 19,5 milhões para R$ 55,2 milhões, mas o resultado bruto caiu 65%, para R$ 1,35 milhão.
Quanto a BrasilAgro reduziu a área destinada ao milho? +
A BrasilAgro reduziu em 15% a área prevista para o milho primeira safra e em 5% a destinada à segunda safra. A produção projetada passou para 73.123 toneladas na primeira safra e 92.582 toneladas na safrinha, embora a empresa ainda espere superar o volume da temporada anterior.
Como o ataque de porcos afetou a produção de milho? +
O ataque de porcos elevou as despesas de colheita de cerca de 45% do milho comercializado pela BrasilAgro. O problema contribuiu para a pressão sobre os custos e para a queda da rentabilidade da cultura.
Como a BrasilAgro teve lucro mesmo com a perda de rentabilidade agrícola? +
O lucro líquido de R$ 81,3 milhões foi impulsionado pela venda de 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, na Bahia, que gerou ganho de R$ 50,8 milhões. No mesmo trimestre do ano anterior, a BrasilAgro havia registrado prejuízo de R$ 64,3 milhões.
Como ficaram o EBITDA e a dívida da BrasilAgro? +
O EBITDA ajustado operacional caiu 32%, para R$ 43,8 milhões, principalmente pela piora dos derivativos e pela menor rentabilidade de soja e milho, segundo a BrasilAgro. Com o ganho imobiliário, o EBITDA ajustado total cresceu 47%, para R$ 94,6 milhões, e a dívida líquida ajustada pelos recebíveis de fazendas recuou 51%, para R$ 136,3 milhões.
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