Trair a pátria na pastelaria

O português só sabe fazer negócios fora de Portugal. Não percebo nada de negócios e talvez não perceba tanto de portugueses como julgo, mas sinto esta verdade dentro de mim confirmada em cada uma das circunstâncias anedóticas que vou acumulando. Em vez de partilhar dados considerados e analisados, com o especialismo e a certeza que não me foram atribuídos, prefiro mesmo uma historieta vivida nas últimas semanas.
Aqui há perto de um mês escolhi durante três quartas-feiras seguidas tomar um café e um doce a seguir ao almoço numa pastelaria de um centro comercial antigo de Oeiras. A atender estava uma senhora nos seus cinquentas avançados, elegante, entre a sofisticação e o prestável, com uma disponibilidade para o desabafo até. Enquanto me servia a bica cheia e um alsaciano, abriu o canto inferior do seu coração.
Antes disso, eu tinha chegado ao balcão pronto para despachar o assunto com MBWay. Interrompeu-me no meu gesto, com aquele pequeno excesso de certeza tecnológica que pode ser irritante, reconheço, para me dizer que pagamentos só em dinheiro. Ocorreu-me procurar outro estabelecimento mas o seu sorriso a meio caminho da tristeza fez-me encarar a segunda milha. Fui levantar dinheiro e voltei.
Ao regressar, a senhora ao balcão terá reconhecido o meu investimento pessoal naquela relação transaccional e, lá está, abriu o tal canto inferior do seu coração. Explicou-me que para o lucro que fazia não compensava ter o multibanco a funcionar. Já todos ouvimos esta conversa. Em menos de nada, eu assentia com cada pequena lamentação como se fosse o irmão mais novo que estaria ali para lhe lavar alguns pratos até, se a oportunidade surgisse.
Nas duas quartas-feiras seguintes a dificuldade da senhora daquele café fidelizou-me. Afinal, só no Verão o negócio arrebitava um bocadinho, não valia a pena ter muita diversidade de bolos porque no fim estragavam-se com a procura tímida, etc. etc. E encontrei-me numa circunstância irónica muito nossa, muito portuguesa: a falta de negócio era o vínculo para o negócio que a senhora daquela pastelaria suscitou em mim.
À quarta quarta-feira algo mudou. Por alguma razão, na hora de escolher a minha bica cheia com um doce depois do almoço, irritou-me essa trôpega equação comercial lusitana de “a falta de negócio pode gerar pelo menos um pouco de negócio”. Notei no mesmo centro comercial uma pastelaria diferente no andar de cima. Em vez de simplicidade sombria tinha vitrines descaradamente iluminadas. Aproximei-me.
Em vez de uma senhora de coração aberto para o pequeno lamento, encontrei outra reservada mas rápida, acolhendo imediatamente o nervosismo do meu MBWay. A fatia de salame também me pareceu ágil na boca. Não tive ali a conversa mais demorada pelo reconhecimento partilhado das vicissitudes da existência e isso, de alguma maneira, aliviou-me. Não sou contra a empatia no sofrimento mas, de facto, no momento a prioridade era a bica cheia e o doce.
À quinta quarta-feira adivinhem onde acabei? Admito: na pastelaria do andar de cima. Carrego agora o peso de abandonar a senhora do andar de baixo. Existe, ainda por cima, outro facto que torna mais dolorosa a minha escolha: a senhora da pastelaria iluminada do andar de cima é brasileira. Sinto que deixei a minha pátria para trás. O que me leva à primeira afirmação categórica com que iniciei este texto.
Talvez num gesto de racionalização convenci-me de que, bem vistas as coisas, a responsabilidade da minha decisão também passava pela sombria e sofisticada senhora portuguesa da pastelaria do andar de baixo: afinal, que cena é esta de uma pessoa fazer negócio enquanto explica que o negócio está mau? Andei com o tema na cabeça e fui à inteligência artificial e perguntei: é possível aferir se um português gera mais riqueza fora de Portugal do que em Portugal?
Com aquela mistura de parcimónia, almanaque estatístico e timidez intelectual de que só uma máquina é capaz, recebi outra pergunta: “quanto da riqueza que Portugal não produz internamente resulta não da falta de capacidade dos portugueses, mas da incapacidade da economia portuguesa para aproveitar essa capacidade?” Como quem diz, o problema não é dos portugueses, é de Portugal.
Compreendo. Farei por aceitar o que é aceitável. De facto, Portugal é uma treta para fazer dinheiro, está-nos no sangue esta culpa católica (mas hoje não vos quero martelar com o meu protestantismo). Ainda assim, na hora H, sinceramente, é mais provável que acabe a escolher a brasileira tecnológica do que a portuguesa emotiva. O meu patriotismo é querer dar dinheiro a ganhar a quem dinheiro quer fazer. Será que me torno um filho desnaturado por isso?
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