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Sunday, September 13, 2026

O blockchain pode estar seguro e seu dinheiro ainda assim ser roubado

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Durante anos, segurança e blockchain caminharam quase como sinônimos. Criptografia, descentralização e mecanismos de consenso criaram redes extremamente difíceis de manipular. Mas uma blockchain segura não significa, necessariamente, um patrimônio seguro. Entre os ativos e a rede existe uma cadeia de vulnerabilidades que envolve carteiras, dispositivos, credenciais, integrações, processos e pessoas.

A boa notícia é que parte relevante desse problema já pode ser enfrentada. Para pessoas físicas, mecanismos como múltiplas camadas de autenticação, recuperação segura de acesso, segregação de permissões e monitoramento ajudam a reduzir riscos sem abrir mão da autocustódia.

Para empresas, estruturas de governança, múltiplas assinaturas, políticas de aprovação, limites de movimentação e segregação de acessos permitem distribuir responsabilidades e reduzir a dependência de uma única credencial ou pessoa. O desafio agora é fazer com que essa proteção evolua na mesma velocidade da adoção da blockchain e se torne acessível para mais gente.

Isso é importante porque não é preciso quebrar uma blockchain para roubar os ativos que circulam nela. Uma chave comprometida, um dispositivo infectado, uma integração vulnerável ou uma autorização obtida por engenharia social podem ser suficientes. Para a rede, inclusive, a transação pode parecer perfeitamente legítima.

Desigualdade na proteção de patrimônio

É justamente nessa diferença entre a segurança da rede e a segurança de quem a utiliza que surge uma questão maior. Grandes detentores e empresas conseguem recorrer a estruturas sofisticadas de proteção, enquanto, para muitos usuários, um patrimônio inteiro ainda pode depender de um dispositivo e algumas credenciais.

Temos, então, uma tecnologia descentralizada, mas uma capacidade de proteção ainda desigual. E isso pode abrir espaço para uma espécie de “plutocracia digital”. Em sua definição mais simples, plutocracia é a concentração de poder nas mãos de quem concentra riqueza. No universo dos ativos digitais, o risco é que quem possui mais recursos também tenha acesso às melhores estruturas de segurança, infraestrutura e proteção, enquanto os demais assumem proporcionalmente mais riscos para exercer a mesma autonomia.

Isso não significa que descentralizar absolutamente tudo seja a resposta. Plutocracia e centralização não são sinônimos. Empresas, desenvolvedores e estruturas centralizadas podem oferecer eficiência, suporte, segurança e capacidade de evolução. O problema começa quando o poder sobre aquilo que deveria pertencer ao usuário também fica concentrado em poucas mãos. Mais importante do que perguntar se algo é centralizado ou descentralizado é entender quem controla o quê e quais mecanismos limitam esse poder.

É por isso que autocustódia continua sendo uma peça importante dessa evolução. Seu princípio é justamente reduzir a dependência de terceiros e devolver às pessoas o controle sobre seus ativos. Mas autonomia não deveria significar que cada usuário precise se tornar especialista em criptografia, gestão de chaves e segurança digital. O caminho é tornar simples aquilo que hoje ainda é complexo.

Os cuidados na governança da custódia

Para o usuário, isso também exige olhar além do discurso de marketing. Estou realmente utilizando uma infraestrutura descentralizada ou apenas uma solução que se apresenta dessa maneira? Uma carteira não se torna soberana apenas porque é chamada de “fria”, assim como uma aplicação não se torna descentralizada simplesmente porque utiliza blockchain.

É preciso observar onde estão as chaves, quem controla as regras, quem pode impedir uma movimentação e se as decisões dependem de uma única autoridade ou de consenso entre diferentes participantes.

Para as empresas, a lógica é semelhante. Segurança de ativos digitais precisa fazer parte da governança: quem pode movimentar, quem autoriza, quais são os limites, como os acessos são segregados e como uma operação suspeita pode ser identificada antes de se tornar irreversível. Nesse contexto, a segurança começa muito antes de a transação chegar à blockchain.

Esse movimento já está acontecendo. Protocolos amadurecem, modelos de governança são testados e mecanismos de proteção antes restritos a estruturas profissionais começam a se tornar mais acessíveis. Se blockchain pretende se consolidar como infraestrutura financeira, o próximo passo é fazer com que segurança deixe de ser um privilégio de quem consegue pagar pela complexidade e passe a estar incorporada aos produtos desde a origem.

A blockchain amadureceu. Agora, tudo aquilo que construímos ao redor dela precisa amadurecer também. O futuro do dinheiro não será realmente descentralizado apenas quando qualquer pessoa puder controlar seus próprios ativos, mas quando puder fazer isso com segurança.

Caso contrário, corremos o risco de descentralizar a tecnologia enquanto permitimos que a velha divisão plutocrática de poder encontre uma nova forma de se reproduzir. Mas esse resultado não está definido. As ferramentas já existem; o desafio agora é fazê-las evoluir e chegar a mais pessoas.

*Leonardo Maximiliano é CEO da DSEC Labs

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