'A busca da beleza me trouxe muita felicidade', diz fotógrafa Mirella Ricciardi, que inspirou Sebastião Salgado
Essa é uma história famosa entre os conhecedores da biografia de Sebastião Salgado, um dos fotógrafos brasileiros mais importantes e reconhecidos internacionalmente, morto em 2025, aos 81 anos. Ele era um jovem economista, casado com a arquiteta e designer Lélia Wanick Salgado, quando ganhou dela um presente que mudaria seu destino. Era o livro "Vanishing Africa".
Publicado em 1971, o livro reunia fotografias que Mirella Ricciardi havia feito principalmente entre 1967 e 1968 no leste da África. Salgado ficou tão impressionado com aquelas imagens que decidiu abandonar a carreira de economista e se tornar fotógrafo. O episódio é contado até hoje como uma espécie de mito de origem da fotografia de Salgado.
Naquele momento, Mirella começava a despontar como um nome relevante da fotografia. Nascida no Quênia, em 1931, ela havia aprendido fotografia em Paris, como assistente do fotógrafo de moda Harry Meerson. De volta à África, passou a fotografar os povos que conhecia desde a infância.
Como fala suaíli, tinha acesso direto, sem tradutores, e procurava se entrosar com os povos até se tornar praticamente invisível. Aí, então, começava a fazer suas fotos, sem dirigir as pessoas nem indicar para onde deveriam olhar. "Nada nunca foi posado", diz ela na entrevista.
Aos 95 anos, vivendo em Londres, onde mora sua filha, Amina, e seus dois netos, Mirella conta suas histórias com uma simplicidade desconcertante. Ela nem se lembra de quando soube que seu livro havia mudado a vida de Salgado. "Foi há tanto tempo", diz. Ficou feliz, claro. E mais ainda quando, décadas depois, os dois finalmente se conheceram.
"Ele era um homem muito agradável e estava tão em sintonia com o que eu estava fazendo." Tornaram-se amigos. Mirella diz que os dois tinham uma ideia em comum: "Tentar melhorar o mundo. E fazer isso por meio da fotografia é uma nova maneira de chegar a isso."
Os trabalhos dos dois estão agora lado a lado em São Paulo, na exposição "A Elegância do Olhar", na Galeria Mario Cohen. A mostra aproxima imagens de "Vanishing Africa" das fotografias do livro "Amazônia", de Salgado, de 2021.
"Você gostou da exposição?", me pergunta Mirella, que já não ouve tão bem e tem oscilações de memória, mas não de humor nem de energia vital. Muito menos de projetos.
Ela passa o dia editando seu arquivo no computador para o que deve vir a ser um novo livro, publicado no primeiro semestre do próximo ano. Mas nem sempre foi assim. Ela conta que suas fotografias são como são por puro instinto. "Eu estava procurando a beleza, era como uma caçadora de belas imagens", diz.
A fotografia, para ela, começou quase como uma continuação da sensibilidade artística de sua mãe, a francesa Giselle Bunau-Varilla, uma pintora que estudou escultura com Auguste Rodin. Quando ficou velha demais para viajar, Giselle passou a levar fotografias para casa e desenhar por cima delas. Mirella ainda guarda pastéis feitos por sua mãe há 100 anos.
"É uma espécie de DNA", diz a fotógrafa.
Mirella trabalhou também como atriz de cinema em Roma e fez parte do elenco do filme "Eclipse", de Michelangelo Antonioni, em 1962. O diretor havia visto uma fotografia dela, do rosto dela, não tirada por ela, e a achou interessante. Convidou-a para fazer um pequeno papel como atriz. Mirella aceitou e acabou fazendo amizade com o diretor, mas não gostou nada da experiência, muito menos de se ver na tela. A fotografia era mesmo seu destino.
Foi em Roma, no entanto, nessa mesma época, que começou a fazer um uso da luz que acabou se tornando uma de suas marcas. Gostava de ver suas imagens contra a luz, o que ressalta o que está em primeiro plano, mas deixa o fundo quase branco, ou pelo menos pálido, sem detalhes visíveis. O efeito dava às imagens uma aparência que, curiosamente, podia lembrar um estúdio de moda.
Mirella conta que nunca saiu pela África com a ideia de documentar uma cultura ou um estilo de vida que estava fadado a desaparecer. Essa interpretação, que inclusive deu nome ao seu livro mais famoso, "Vanishing Africa", ou África desaparecendo, em tradução livre, veio depois. Na época, ela apenas fotografava o que tinha diante dos olhos. E, sempre, em busca do que achava belo.
"Passei minha vida procurando a beleza. Sou como uma caçadora, que fica à espreita, pacientemente esperando a imagem perfeita", me diz. Pergunto se a busca da beleza lhe trouxe felicidade, quase como uma provocação. Sem perder um segundo com isso, ela responde: "Sim, muita. E não só felicidade como o sentido da vida".
Se via alguma coisa bonita, precisava fotografá-la. "Eu tinha esse mesmo instinto do caçador. Se via uma imagem linda, tinha que capturá-la com minha câmera. Ia atrás até conseguir. Era um troféu."
Essa mesma maneira de olhar a acompanha até hoje. Mirella também trabalhou como fotógrafa de moda, fez retratos de crianças e de sua própria família. Conta que registrou filhos e netos da mesma maneira que fotografava as pessoas que encontrava em suas viagens: procurando alguma coisa que fosse absolutamente delas.
"Eu só vejo a beleza. Se não houver beleza, não tenho interesse."
A ligação de Mirella com o Brasil começou muito antes de seu encontro com Salgado. Em 1990, conheceu o líder indígena Ailton Krenak em Londres. Ele a convidou para conhecer a Amazônia e organizou uma expedição. Mirella veio e acabou passando muito tempo fotografando povos indígenas da Amazônia, entre eles os Ashaninka, os Marubo e os Yanomami. O trabalho deu origem ao livro "Vanishing Amazon", publicado em 1991.
Mais de três décadas depois, já com mais de 90 anos, Mirella se surpreendeu ao perceber que muitas das ameaças que havia encontrado na Amazônia continuavam presentes. A crise provocada pelo garimpo entre os Yanomami e as mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips, no Vale do Javari, fizeram com que voltasse às imagens daquela viagem. Decidiu então "devolver" as fotografias às comunidades que havia fotografado.
Na exposição atual, parte desse projeto ganha forma. As fotografias de Mirella voltam a circular no Brasil, ao mesmo tempo em que ela reencontra pessoas e histórias daquela viagem tão marcante. Um dos encontros que guarda com muito carinho foi com outro líder indígena, Beto Marubo, que chegou a visitá-la em Londres. Ela ainda usa um colar que ganhou de seu amigo.
Hoje, porém, a fotógrafa trocou sua câmera por um laptop, e a vida ao ar livre por uma rotina dentro de casa, em seu apartamento em Londres, de onde sai muito pouco. Trabalha há quase cinco anos organizando imagens de uma vida inteira. E não chama isso de trabalho. "É uma criação artística. Para mim, não é trabalho."
E afirma que foi sua arte, sua busca pela beleza, que a fez chegar tão bem à idade em que chegou. "É a razão de eu estar viva. Se eu não tivesse isso, provavelmente teria uma velhice menos boa. Salvou minha vida e minha velhice. Eu amo fazer isso mais do que qualquer outra coisa."
Mirella ainda gostaria de voltar ao Brasil. E tem um destino específico em mente: Salvador, na Bahia. Diz ter percebido que os baianos parecem mais conectados às suas raízes africanas do que os paulistas e os cariocas.
"Adoraria mostrar meu trabalho numa galeria na Bahia. Se isso acontecer por causa desta entrevista, prometo que pego um avião e vou à abertura."
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