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Thursday, October 1, 2026

‘As Dores do Mundo’ apresenta Hyldon para quem só conhece ‘Na Rua, na Chuva, na Fazenda’

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Filme de Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues revela a trajetória de um dos maiores compositores da soul music brasileira

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

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'As Dores do Mundo' apresenta Hyldon para quem só conhece 'Na Rua, na Chuva, na Fazenda' (Divulgação)

“Na rua, na chuva, na fazenda… “ Bastam esses versos para que a maioria dos brasileiros complete automaticamente a melodia e cantarole “tchu tchu ru tchu“. Poucas canções atravessaram gerações com tanta naturalidade quanto esse clássico de Hyldon, uma das músicas mais populares da história da música brasileira. Mas talvez muita gente sequer saiba quem escreveu esses versos, por isso, As Dores do Mundo, chega com tamanha importância aos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, 1º de outubro.

O documentário foi exibido em diversos festivais, incluindo a 21ª Cine OP — onde a Rolling Stone Brasil o conferiu —, e parte de uma canção conhecida por praticamente todo mundo para revelar o artista por trás dela — e lembra uma das maiores virtudes do cinema documental: apresentar personagens que julgávamos conhecer, apenas para mostrar que conhecíamos muito pouco.

Dirigido por Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues, o filme celebra os 50 anos do álbum Na Rua, na Chuva, na Fazenda enquanto reconstrói a trajetória do menino baiano que ajudou a moldar a soul music brasileira ao lado de nomes como Tim Maia e Cassiano.

A narrativa não transforma Hyldon em um herói, pelo contrário, o próprio documentário reconhece seu temperamento difícil, sua resistência às turnês e uma personalidade pouco inclinada aos mecanismos da indústria musical. Talvez estejam aí algumas das razões pelas quais seu nome nunca alcançou a projeção de tantos contemporâneos, mesmo sendo autor de uma obra que envelheceu com impressionante elegância.

Entre depoimentos e lembranças do próprio cantor, surgem histórias que ajudam a compreender essa relação ambígua com o sucesso. Hyldon recorda que seu disco de estreia rendeu seis grandes sucessos, mas nem isso foi suficiente para que recebesse o respaldo esperado da gravadora. Um episódio emblemático envolve sua participação no Globo de Ouro, tradicional programa musical da TV Globo que, durante décadas, reuniu os principais artistas das paradas de sucesso do país.

Mesmo presente naquele palco, ele sentia que ainda não era tratado como alguém que realmente havia chegado. Essa sensação de estar sempre à espera de um reconhecimento definitivo parece atravessar toda a sua carreira e ajuda a explicar por que, apesar da relevância de sua obra, permaneceu durante tanto tempo à margem das grandes narrativas da música brasileira.

Sem recorrer ao tom de reparação histórica forçada, o documentário prefere deixar que as canções falem por si. Também há espaço para conhecer o homem por trás das letras, suas paixões, as mulheres que inspiraram muitas de suas composições e esse romantismo quase fora de época que ainda define sua produção.

Ao final, As Dores do Mundo desperta uma vontade simples, mas poderosa: voltar a ouvir Hyldon. Não apenas revisitar “Na Rua, na Chuva, na Fazenda” ou a canção que dá título ao longa, mas descobrir o álbum inteiro e perceber que ali existem diversas composições que poderiam ter se tornado clássicos absolutos e entender por que tantos músicos o reverenciam até hoje.

Talvez Hyldon seja mesmo um dos últimos grandes românticos ainda em atividade. E, se o documentário cumpre uma missão, é a de lembrar que nunca é tarde para descobrir um artista que, na verdade, sempre esteve tocando ao nosso redor. Fica o exercício ao fim da sessão — ou desta crítica: coloque Na Rua, na Chuva, na Fazenda para tocar do começo ao fim. Há grandes chances de encontrar ali muito mais do que uma única música inesquecível.

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Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)

Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.

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