Do «terramoto» aos Santos: a herança de 1755 na nossa língua

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Vamos a mais um "Português Suave", edição de domingo, como sempre, com Marco Neves. Marco, bem-vindo, como estás?
Olá, Filipa. Está tudo bem.
Está tudo. E hoje é dia 1 de novembro, primeiro dia do mês.
É o primeiro dia do mês, deste mês, como já falamos aqui várias vezes, é um dos meses com o nome errado, ou seja, nove. Já falamos. Acho que foi na semana passada, já não lembro em que episódio. Estamos em novembro e é também um dia sempre de recordar alguma coisa que aconteceu no dia 1 de novembro, que é o terramoto de Lisboa.
Exato.
Nós estamos em Lisboa, mas mesmo não estando em Lisboa, acho que todos nós, em Portugal, lembramos deste terramoto. Este terramoto também tem alguma tradição aqui no "Português Suave", porque nós já várias vezes falamos deste tema.
É verdade. É recorrente este tema.
Logo no início. Lembras-te dos primeiros episódios?
Perfeitamente.
Porque quem não nos acompanha desde o início, se calhar, não sabe que a Filipa estava no início do "Português Suave".
Fiz o comeback.
Sim, exatamente. A Filipa voltou ao "Português Suave".
Sim, exatamente. Foi pra matar saudades.
Exato. E nesses primeiros episódios nós falamos logo do terramoto. Depois voltamos a falar no ano a seguir. E eu gostava de voltar a isso. Portanto, na língua das-- ai, a minha língua está-
Hoje estamos a fazer beatbox, a língua está a travar.
Exatamente. Mas vamos à língua nas notícias em que vamos falar do terramoto. Depois vamos falar outra vez no mapa da língua e também no resto do programa. Vai ser um episódio do terramoto.
Vamos a isso. Vamos começar com a língua. Olha, outra. Hoje estamos encravados, Marco. Língua nas notícias. E vamos então falar do nome Santos? É isso? Ou vamos começar primeiro ao terramoto? O que é que preferes?
Mas tem que ver com o terramoto, porque tem que ver com o dia. É o Dia de Todos os Santos, 1 de novembro. E há também o nome tradicional do Hospital Lisboeta de Todos os Santos. Ou seja, tem a ver com o terramoto no sentido em que foi um dia, e isto foi algo que chocou as pessoas na altura, além do próprio terramoto ser um dia sagrado, um dia santo, e mesmo assim-
Acontece uma coisa dessa
...para as pessoas, para a mentalidade da época, muito mais religiosa do que na atualidade, num dia destes, Deus dar-nos isto, dar este terramoto, era algo impensável e foi um dos fatores que levou a este choque. Eu só queria lembrar aqui no que toca ao Dia de Todos os Santos, que é a origem, presume-se, embora seja difícil por vezes saber a origem de todos os apelidos, do apelido Santos. Portanto, as pessoas que se chamam Santos, que é um apelido muito comum, este nome terá vindo do Dia de Todos os Santos. Alguém terá nascido neste dia, algumas gerações atrás, e depois foi ficando na família o nome Santos. Quanto ao terramoto, algo que quem acompanha este programa desde o início, primeiro, sabe que a Filipa já cá estava, que faz parte da nossa tradição, e também sabe, porque já falei disto várias vezes, que terramoto e terremoto são duas formas da palavra, e terramoto é muito mais usada em Portugal. Terremoto, com a pronúncia diferente, é muito mais usada no Brasil, mas na verdade, a forma mais antiga e mais tradicional em português, e a forma que era usada na época, no século XVIII, era mesmo terremoto.
Então nós é que fomos fazendo aqui umas adaptações. O que aconteceu aqui?
Exatamente. Uma malfeitoria à língua. O que aconteceu foi uma analogia com terra. A origem latina levaria, normalmente, àquela forma latina levaria a terremoto, mas com a analogia com terra, como é a terra que treme, os falantes cá em Portugal começaram a deslizar a palavra para esta forma que tem hoje, e que é a forma mais comum, embora nos dicionários também lá esteja terremoto, e ainda há pessoas que usam terremoto. Minoria, mas há.
Muito bem.
A língua nas notícias. Está feito.
Viste, agora não encravamos. Língua nas notícias. Vamos passar para o Mapa da Língua. Vamos lá, Mapa da Língua. Marco, o que nos trazes neste episódio?
Aqui eu pensei no Mapa da Língua, mais uma vez, este é um episódio quase de recordação de outros temas que já falamos aqui. Eu pensei, mais uma vez, no terramoto, e pensei no mapa mais temporal do que espacial. Porque se nós quisermos saber como é que se usa a língua portuguesa no Algarve, em Trás-os-Montes, no Alentejo ou noutros países, no Brasil, em Angola, podemos lá ir. Pode ser difícil, mas podemos ir. É mais difícil fazer o mapa da língua no tempo. Ou seja, nós não podemos pegar numa máquina do tempo, ir ao passado e ver como é que se falava. Era giro, mas não acontece.
Era bom, exato.
O que nós temos em substituição? Temos a escrita. Uma pessoa escrevia no século XVIII e nós conseguimos ver mais ou menos como é que aquela pessoa falava, embora não seja direto, porque nós não escrevemos da mesma maneira que falamos. E de vez em quando aparece um livro ou o teatro. O gênero teatral é um daqueles gêneros onde as formas populares da língua aparecem, nós conseguimos quase que ouvir a maneira como as pessoas falavam. Apesar que também, mesmo aí, o teatro é sempre um pouco artificial, tem de ser. Ou seja, também não é ouvir as pessoas, mas já nos ajuda. E depois, de vez em quando, há um livro, como aconteceu com um livro que já falei aqui muitas vezes, que se chama "Enfermidades da Língua", que foi um livro publicado em 1759, muito pouco tempo depois do terramoto, que regista muitas expressões populares, porque o autor diz Que não gosta delas, quer eliminá-las. Então registra uma lista de expressões populares, 4 mil palavras e expressões, e algumas delas são muito engraçadas. Como também já aqui tinha dito, há quem defenda que ele estava a ser irônico e ele queria defendê-las e mostrá-las. Não sabemos.
Pois, exato.
Mas a verdade é que temos aqui alguns exemplos, alguns deles eu já tinha dado aqui, outros talvez sejam novos. Vou dar aqui, não sei se conheces alguns deles.
Força.
"Mamolhe o dinheiro". É a expressão do século 18, do terremoto. Alguém na altura do terremoto dizia isto. É muito mais antigo do que pensamos.
Exatamente.
Tem "bicho carpinteiro".
Esta é claro.
E é antiga. A primeira vez que apareceu foi neste livro. A primeira vez que apareceu na escrita, ela já existiria. Um dos meus insultos favoritos, que não é bem um insulto, é uma maldição: "Deus te pregue os miolos numa parede". Se não gostares de alguém, já sabes.
Nunca tinha ouvido esta. Sou sincera. "Deus te pregue os miolos numa parede".
Nem tu, nem provavelmente ninguém da atualidade. Agora já ouvimos, eu defendo um regresso desta expressão, num contexto sempre amigável. Entre amigos, pode começar a desejar que Deus pregue os miolos numa parede. Depois, "afinco-lhe quatro lambadas".
Uau!
De facto, é extraordinário.
As lambadas, conheço. Agora, o "afinco-lhe quatro lambadas" especificamente.
É que aqui temos esta mistura entre coisas que são muito estranhas e coisas que quase que parecem de agora. Depois, "migolhe os focinhos".
Uau!
Esta aqui é estranhíssima, que é: "Fiquei muito besta". Parece que saiu diretamente de uma telenovela.
Meu Deus!
E "bumba catumba", que é uma expressão muito boa.
"Bumba catumba".
As pessoas que acompanham o "Português Suave" já ouviram estas expressões, que eu já aqui falei delas anteriormente, mas são expressões que eu gostava de trazer aqui outra vez no dia 1 de novembro, dia do terremoto, porque são expressões que eram usadas popularmente nessa altura. Nesse dia, houve pessoas que usaram estas expressões, nem que fosse para amaldiçoar aquele dia tremendo em que a cidade caiu.
Exatamente. Acho que devíamos todos os anos, no dia um, pelo menos usar uma destas expressões, Marco. Acho que devia ser.
Sim, em recordação desse dia.
Exatamente.
Vamos então aos "Mitos e Origens".
Exatamente. Mais um segmento do "Português Suave": "Mitos e Origens". E vamos lá, "Mitos e Origens", Marco. Vamos a isso. O que é que nos trazes?
Trago três expressões que estão associadas tradicionalmente ao terremoto, mas nós não temos a certeza absoluta de todas elas. "Cair do Carmo e Trindade" é habitualmente associada ao terremoto no sentido em que o Carmo e Trindade caem no terremoto, embora nós saibamos que o convento do Carmo ainda lá está. É uma associação. Nós não temos registros escritos que nos permitam dizer que foi naquela época que apareceu a expressão, mas tudo indica que sim, e faz sentido. É uma expressão associada com o terremoto. Depois temos "é meter o Rossio na Betesga", que é uma expressão que aparece naquele livro que eu acabei de referir, o "Enfermidades da Língua", de Manuel José de Paiva, pela primeira vez, na escrita, e que aparece nessa altura. E tendo em conta que a Betesga foi uma rua que se tornou mais pequena por causa do terremoto, é possível que seja mesmo a expressão que surgiu naqueles anos. E depois temos a famosíssima "rés-vés Campo de Ourique".
Claro.
Que também já falamos aqui. Há uma ideia de que o Campo de Ourique teria sido os limites da destruição do terremoto, que o maremoto chegou até ali e que portanto foi ali rés-vés Campo de Ourique, mas devo dizer que esta é uma teoria aparecida no século XX. Não há nenhum registro da época, isto não corresponde exatamente ao que aconteceu. Portanto, é uma expressão que, na verdade, lembra-nos que, por vezes ou muitas vezes, nós não temos certezas absolutas, vamos dizendo aquilo que é possível. E, neste caso, temos mesmo muito poucos dados. As expressões populares, por vezes, surgem em brincadeiras.
Sabe, era precisamente isso que eu ia perguntar, porque eu sempre achei muito curioso como é que surgem estas expressões, os provérbios, quem é que um dia acordou e disse uma frase e do nada virou um fato comum?
É difícil. São muitos mecanismos ao mesmo tempo, mas um deles é: imagina um grupo de amigos que começa a fazer aquelas brincadeiras e começam a dizer uma coisa que não é bem como se dizia. Até pode ter acontecido, eu estou agora a inventar, atenção. Até pode ter acontecido que o rés-vés Campo de Ourique fosse um grupo de pessoas que tinha lá um amigo que vivia em Campo de Ourique e houve pessoas que foram até lá, mas não conseguiram lá chegar por algum motivo e disseram: "Isto ficou ali rés-vés Campo de Ourique". E de repente, aquele grupo de amigos, por algum motivo, gosta daquela expressão, começa a repeti-la, torna-se uma parte do seu, para usar uma expressão inventada por mim, "amigolét". Não é do seu dialeto, mas é do seu amigolét, só aquele grupo de amigos é que usa, mas por algum motivo começam a usar.
Começa a se expandir.
Começa a se espalhar, mas só algumas das expressões é que espalham. Nós estamos sempre a criar pequenas diferenças. De certeza também tens essa experiência, todos nós temos, de que há ali uma expressão ou uma palavra que só aquele grupo de pessoas é que sabe exatamente o que quer dizer naquele contexto, mas depois às vezes começa a se espalhar. E este processo não é registrado. Nós não tínhamos gravadores ao longo da história para registrar. Muito da criação linguística, ou muita história da língua, fica perdida no ar, nas conversas que os falantes foram tendo ao longo dos séculos. E por isso nós temos muito menos informações do que gostaríamos, e é mesmo assim. E algumas expressões nós conseguimos identificar Algumas ideias mais sólidas sobre a sua origem, outras expressões não. E esta é uma delas. Não sabemos. Que grupo de amigos terá inventado rés-ves-cambalhotas.
Quando é que isto surgiu, quem é que foi a alma que um dia acordou e decidiu inventar esta frase, por exemplo, e depois começar a usar com os amigos e pronto, olha, e é isso. Depois espalhou-se.
E as pessoas gostariam de ter mais certezas e às vezes inventam-se histórias para preencher o vazio da informação, mas temos, às vezes, de admitir que não sabemos.
É isso, temos de ficar na dúvida.
Ainda temos o livro da semana.
É isso mesmo. Temos tempo para o nosso livro da semana. Vamos a isso. Livro da semana, Marco Neves. Também tem a ver com o terramoto?
Sou um homem automático hoje. O nosso programa hoje está um pouco... Mas é um livro que já tem alguns anos, mas que me parece um excelente livro sobre o terramoto, um livro que eu lembro-me de ler na época em que saiu e ficar muito interessado e entusiasmado, que é "O Pequeno Livro do Grande Terramoto" de Rui Tavares, da Tinta da China. É um livro que depois acabou por ser traduzido para francês, para inglês, um livro que acaba por ser quase o livro de que se fala quando alguém quer ter uma introdução à história do terramoto e a tudo o que o terramoto implicou em Portugal e na Europa. E por isso fica aqui a minha recomendação, "O Pequeno Livro do Grande Terramoto" de Rui Tavares.
Muito bem, uma ótima sugestão e dentro do tema, Marco.
Claro, às vezes há episódios em que nós disparamos em várias direções. Hoje estivemos aqui muito bem comportados.
Exato. Fecha-se por sentido. Como sempre, Marco, os nossos ouvintes podem mandar um e-mail para...
portuguesuava@observador.pt e também podem telefonar.
Exatamente, agora o número deixe comigo.
Pois, se soubesses.
Eu tenho aqui a minha cábula. É isso, os nossos ouvintes podem sempre mandar um e-mail com dúvidas para o Marco. Também mensagens de voz para o WhatsApp 910024185. É mandar mensagem, mandar e-mail e nós depois damos uma olhada e o Marco esclarece então esta dúvida.
Respondemos ao que for possível.
Exatamente.
Na quarta-feira cá estaremos.
É isso mesmo, temos encontro marcado na quarta-feira. Até lá.
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