Sem voto e sem acampada, São Bento encheu-se pela habitação

Numa das intervenções da Assembleia Popular, uma das manifestantes afirmou: “Isto não é um lugar mal frequentado, isto é um país”. Não foi a única a contestar o estereótipo que alguns responsáveis políticos e comentadores têm tentado associar aos manifestantes que lutam pelo direito à habitação. A expressão “arruaceiros”, usada pelo democrata-cristão Paulo Núncio, foi recordada até à exaustão durante o protesto, com os manifestantes a garantir que “não interessa o que fumam, vestem ou de que cor têm o cabelo pintado”, mas sim a causa que têm defendido nas últimas semanas.
Vaias à PSP de meia em meia hora, tendas no ar e uma emigrante que voltou a São Bento antes de voar de regresso à Suíça
Aos 15 anos, viver perto da rua de São Bento significava, muitas vezes, ficar irritada por não ter autocarro para andar “porque a malta se vinha manifestar”. “Hoje, com 24 anos, faço parte da malta que se anda a manifestar”, contou a manifestante ao microfone montado no pequeno palco em frente à Assembleia da República que diz ter “o tempo contado”.
A noite “aterrorizante” no Rossio, que acabou com carga policial, barricadas e vários feridos
Daqui a duas semanas terá um voo de volta para a Suíça, para onde emigrou há três anos “exatamente” por não conseguir pagar uma casa. Embora admita recordar um “Portugal diferente”, em que o vizinho ainda era quem emprestava açúcar quando faltava. Ainda assim, não esconde a vontade de regressar de vez. “Este foi o país que me criou e é para aqui que eu quero voltar”, vincou.
Antes, as intervenções tinham arrancado com uma atuação de Marisa Liz e Vasco Duarte, anunciada pelo comentador e ativista Nuno Ramos de Almeida, do movimento Vida Justa. Lá em cima, viam-se janelas do edifício do Parlamento abertas. No interior, várias pessoas acompanhavam o que se passava na rua. Durante a atuação de Marisa Liz, viram-se pessoas nas janelas dos gabinetes do Chega a bater palmas ao ritmo das canções, enquanto nas janelas da Iniciativa Liberal os presentes se limitavam a assistir. Depois de começar com “A Morte Saiu à Rua”, de Zeca Afonso, a artista apelou logo de seguida aos agentes da PSP presentes para que se juntassem ao protesto.
Mas a mensagem de Marisa Liz contrastava com os intervalos pontuais para assobiar a polícia. De meia em meia hora, quem estivesse a falar ao microfone tinha de parar a intervenção para dar lugar à troca de agentes da PSP. Os mesmos manifestantes que começavam por vaiar e assobiar a chegada do novo contingente acabavam, segundos depois, a cantar em coro “Juntem-se a nós”. Os olhares entre a multidão procuravam uma reação nos rostos dos agentes — mas que nunca chegou. A PSP foi gerindo a presença no protesto: além dos seis elementos em permanência, a meio da escadaria, várias equipas da Unidade Especial de Polícia ficaram horas estacionadas junto ao Palácio de São Bento, uns metros acima do protesto.
Pela rua de São Bento viram-se tochas a arder, tendas a passar de mão em mão por cima da multidão em “crowd surfing” e até um saco de palha que acabou despejado para lá das grades de proteção da escadaria. E além das intervenções da Interjovem, da CGTP, assim como de outros grupos, a própria organização da Acampada de Lisboa falou.
“O Governo tirou-nos as tendas porque tem medo do movimento que estamos a construir”, acusou um dos porta-vozes, exigindo a retirada da nova lei do arrendamento e a fixação de tetos de renda acessíveis. João Veloso, outro dos porta-vozes, atirou que “este também vai ser o Governo que vamos ver cair”, garantindo que “às bastonadas deles respondemos a voltar a montar as tendas”. Priscilla Valadão, mediadora de todas as assembleias populares no Rossio, deixou uma pergunta: “Quem tem medo do poder popular?”
A desmobilização de quem luta por ter casa e o regresso de um grupo de amigos a uma “boa casa”
Perto da meia-noite, quando a maioria dos manifestantes respondia ao apelo da organização da Acampada e já começava a abandonar a rua de São Bento, um grupo de quatro amigos entre os 50 e 60 anos debatia a crise de habitação. “Isto não tem só freaks e loucos”, garantiu ao Observador Caetano.
PSP publica vídeo nas redes sociais onde mostra agressões de manifestantes
Nuno admitiu que vivem perto, bem no coração de Lisboa, e que por estarem “solidários com esta situação” fizeram questão de estar presentes no protesto. “Vivo no centro da cidade há muito tempo e pago 750 euros [de renda], mas tive de pagar por fora ao meu senhorio para estar numas condições acordadas”, admite Natcho, gestor cultural. O apartamento, que chama de uma “boa casa”, é um T4, mas só está nas condições atuais porque à entrada, há 15 anos, foi ele próprio, como arrendatário, quem renovou a casa. “Eu é que a reparei, quando entrei estava completamente destruída”, garante.
O contrato de arrendamento nas condições em que existe neste momento vai vigorar até ter 67 anos. O amigo Nuno vive no mesmo prédio e paga 1.100 euros de renda. “São senhorios fixes, que há poucos”, diz um deles.
“Isto aqui é apartidário. Não tem política aqui, aqui tem direitos do cidadão e deveres do Estado”, garante Caetano. O quarto amigo do grupo chama-se Valério e é o único que não vive em Lisboa. Chegou de Itália há alguns anos para trabalhar em Portugal e teve que ir embora de Lisboa por não conseguir pagar uma renda. “Voltou para a terra dele”, diz um dos amigos em tom de brincadeira.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.