Mais carros, menos crédito: o paradoxo que desafia o mercado automotivo
ARTIGO: Com 10,8 milhões de veículos comercializados no ano e a inadimplência em alta, setor busca modelos mais sofisticados de análise de risco para financiar um consumidor que continua disposto a comprar

Publicado em 20 de setembro de 2026 às 07:00.
RESUMO | O mercado de veículos usados superou 10,8 milhões de unidades comercializadas neste ano, alta de 7,7% ante o mesmo período de 2025, segundo a Fenauto. Com juros elevados e inadimplência maior, o financiamento de veículos exige análises que considerem a capacidade de pagamento, a atividade profissional e a finalidade do automóvel.
O mercado automotivo brasileiro vive um momento de aparente contradição. De um lado, a demanda por veículos segue aquecida, especialmente no segmento de usados, que representa uma parcela relevante das transações no país. Só neste ano, o setor ultrapassou a marca de 10,8 milhões de veículos comercializados no Brasil, um avanço de 7,7% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Fenauto.
Por outro lado, o cenário de crédito se tornou mais desafiador, com juros elevados, maior seletividade das instituições financeiras e aumento da inadimplência. Essa combinação traz uma questão importante para o setor: se existe demanda, mas o acesso ao crédito está mais restrito, como financiar o consumidor que continua precisando do veículo?
A resposta passa menos por simplesmente ampliar a oferta de crédito e mais por entender melhor o risco e encontrar formas mais eficientes de avaliá-lo. Afinal, em um ambiente de maior inadimplência, conceder crédito de maneira indiscriminada não é sustentável. Ao mesmo tempo, tornar a análise excessivamente conservadora pode deixar de fora consumidores que têm capacidade de pagamento, mas não se enquadram nos modelos tradicionais de avaliação.
O financiamento de veículos é um bom exemplo dessa complexidade. É comum pensar que o principal desafio está na concessão do crédito. Na prática, essa pode ser justamente a etapa mais simples da operação. Depois dela, existe toda uma estrutura relacionada ao acompanhamento do contrato, à cobrança e, em situações de descumprimento, à localização, retomada e recuperação do veículo.
Em julho desse ano, a taxa de inadimplência das pessoas físicas saltou para 7,8%, ante 7,4% em junho, segundo dados divulgados pelo Banco Central. Esse cenário ajuda a explicar por que a especialização se torna cada vez mais relevante.
Quanto maior o risco, maior a necessidade de conhecer as particularidades do consumidor e do ativo financiado. Não se trata de flexibilizar critérios, mas de desenvolver uma capacidade mais sofisticada de identificar quem pode ou não receber crédito e em quais condições.
Essa discussão é especialmente importante no mercado de veículos usados. Diferentemente de outros segmentos, o financiamento automotivo atende uma população bastante heterogênea. Há consumidores com histórico bancário consolidado, mas também trabalhadores autônomos, empreendedores e profissionais cuja renda não necessariamente aparece de forma tradicional nos sistemas financeiros.
Para essas pessoas, o veículo muitas vezes não é apenas um bem de consumo. É uma ferramenta de trabalho e geração de renda. Motoristas de aplicativo, pequenos empreendedores, prestadores de serviço e profissionais autônomos podem depender diretamente de um carro ou de uma moto para exercer suas atividades.
Isso significa que uma análise de crédito eficiente precisa ir além de uma fotografia financeira do consumidor. Em um ambiente mais arriscado, ampliar o acesso ao crédito de forma sustentável dependerá da capacidade de compreender seu contexto, sua atividade profissional, a finalidade do veículo, sua capacidade efetiva de pagamento e, assim, construir operações capazes de acompanhar todo o ciclo do financiamento. Quanto mais informações qualificadas estiverem disponíveis, maior a possibilidade de diferenciar risco de falta de histórico.
O mercado continua aquecido. O crédito, por sua vez, exige cada vez mais inteligência. É justamente nessa interseção que estará uma das principais oportunidades para o setor nos próximos anos.
Quantos veículos usados foram comercializados no Brasil neste ano?
O mercado brasileiro superou 10,8 milhões de veículos comercializados neste ano, segundo a Fenauto. O volume representa alta de 7,7% em relação ao mesmo período de 2025.
Por que o financiamento de veículos ficou mais difícil?
O financiamento de veículos enfrenta juros elevados, maior seletividade das instituições financeiras e aumento da inadimplência. Esse cenário restringe o acesso ao crédito mesmo com a demanda aquecida.
Qual é a taxa de inadimplência das pessoas físicas?
A taxa de inadimplência das pessoas físicas chegou a 7,8% em julho deste ano, ante 7,4% em junho, segundo dados divulgados pelo Banco Central.
Por que a análise de crédito precisa ir além do histórico bancário?
A análise precisa considerar que trabalhadores autônomos, empreendedores e prestadores de serviço podem ter capacidade de pagamento sem apresentar renda nos formatos tradicionais. O texto aponta que a atividade profissional, a finalidade do veículo e o contexto do consumidor ajudam a diferenciar risco de falta de histórico.
Por que o veículo pode ser essencial para trabalhadores autônomos?
O veículo pode servir como ferramenta de trabalho e geração de renda. Motoristas de aplicativo, pequenos empreendedores, prestadores de serviço e outros profissionais autônomos podem depender diretamente de um carro ou de uma moto para exercer suas atividades.
Quais etapas fazem parte de uma operação de financiamento de veículos?
A operação inclui análise e concessão do crédito, acompanhamento do contrato e cobrança. Em caso de descumprimento, também pode envolver localização, retomada e recuperação do veículo.
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CEO do Omni&Co, ecossistema de soluções de crédito, Heverton Peitoxo é graduado em Engenharia Civil com MBA em Corporate Finance no Insead, França
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