Paraíso, inferno, purgatório e limbo. O que diz a Bíblia?

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Muito bem-vindos a mais um episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Nós, nesta terceira temporada, às quintas-feiras, continuamos a responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Muitos dos nossos ouvintes nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também temos recebido comentários no YouTube e nas plataformas de podcast. Muito obrigado a todos os que nos têm contactado. Nós estamos aqui todos os domingos, às 09:00, na antena da Rádio Observador e sempre em podcast, e às quintas-feiras, neste episódio mais curto, exclusivamente em podcast, para responder às dúvidas dos ouvintes. Todos os que quiserem colocar perguntas, comentários e sugestões aqui ao nosso podcast e dúvidas aos padres João Bastos e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. No episódio do último domingo, estivemos a falar sobre o profeta Daniel e o tempo do exílio da Babilónia. Se não ouviu na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada ainda no final da segunda temporada pela nossa ouvinte Amália Guerreiro. Ela escreveu-nos um e-mail em que nos dizia que tinha pena que a temporada estivesse a chegar ao fim e pedia-nos que fizéssemos mais um episódio excepcional, extra, para responder a uma pergunta que ela tinha. Não é preciso fazer episódio excepcional, porque estamos aqui para a terceira temporada e, portanto, temos muito espaço para continuar a responder a perguntas dos ouvintes. E o que a Amália nos pergunta? Pede para lhe trazermos luz a uma questão que me incomoda desde há muito e nomeadamente após o falecimento recente de um ente querido, muito querido. Purgatório: dogma ou conceito? Desde quando a sua concepção na história da Igreja? Onde encontramos na Bíblia uma referência ao purgatório? As almas estão em sofrimento? Precisam das nossas orações, das missas de sufrágio para irem para junto de Deus? E as almas que não têm quem reze por elas, as mais abandonadas, permanecem em sofrimento? Outro conceito ou dogma que me inquieta desde criança: o limbo para as crianças que morrem sem serem batizadas. É difícil pensar que o nosso Deus de amor tenha criado estes lugares. A nossa ouvinte, Amália Guerreiro, enfermeira aposentada com 73 anos. Aqui vai um grande abraço para a nossa ouvinte Amália. Muito obrigado por esta pergunta. Esta questão toca em conceitos bastante sensíveis que ora são mencionados na Bíblia, ora depois têm uma história mais desenvolvida pelas diferentes correntes do cristianismo. Há aqui vários conceitos que podem ser difíceis de compreender. O paraíso, por um lado, o purgatório, o limbo e depois o inferno. Daniel, isto são lugares, são sítios, temos que temer ir parar a algum destes sítios? O que é que nos podes dizer sobre?
A nossa tendência é certamente espacializar e localizar em baixo ou em cima, num mapa mental, estes lugares. Começando talvez por estes menos bíblicos, digamos, o limbo e o purgatório. O limbo, apesar de por vezes ter sido utilizado na doutrina católica, na doutrina cristã, para designar uma espécie de estado das almas das figuras do Antigo Testamento antes da ressurreição. Também esta nossa ideia de aplicar os nossos conceitos de tempo, de espaço e também de tempo àquilo que é a eternidade, já são em si problemáticos. Mas apesar disso, limbo é sobretudo isto que a nossa ouvinte referia, de uma solução para as crianças que morreram sem serem batizadas. A lógica é: o batismo é essencial para ir pro céu e, portanto, se não é batizado, não pode ir pro céu. Mas faz sentido colocar crianças inocentes, ainda sem ter tempo de pecar, no inferno? Certamente não. O limbo seria uma espécie de arranjar uma solução para isso. Isto não tem nada de bíblico em si, a palavra não se encontra nas escrituras. É, no fundo, uma solução católica para este problema, mas isso tem vindo a ser muito desacreditado. Penso que até o João saberá melhor, mas o Papa Bento XVI, por exemplo-
2017, num documento
O Papa Bento XVI fechou definitivamente. Ou seja, disse que não corresponde àquilo que é a revelação e àquilo que é a doutrina cristã. O purgatório é um bocadinho diferente, porque o purgatório também não é uma palavra que entra na Bíblia e é, julgo eu, um conceito sobretudo católico, mais negado pelo protestantismo em geral, mas, no fundo, é um tempo de purificação antes da entrada do céu. O purgatório é algo que se liga mais ao céu do que ao inferno, apesar de tantas vezes associarmos purgatório a uma espécie de queimar e de purgar. No fundo, é uma ideia de que Para ir para o céu é preciso uma certa pureza que quem morre em santidade já tem. Quem não morre purificado, nesse tal estado mais de santidade, precisa se purificar antes de ir para o céu. É um tempo, um espaço, com tudo que tem de problemático falar de tempo e espaço para o quê? A vida depois da morte, para o quê? A eternidade. Distancia do inferno. Quem está no purgatório não vai para o inferno, vai para o céu. Há, de facto, uma base bíblica nesta ideia de que encontramos, por exemplo, no segundo livro dos Macabeus, no capítulo 12, um texto famoso em que Judas Macabeu manda oferecer um sacrifício expiatório a favor dos mortos. Esta ideia de que vale a pena rezar pelos mortos. Também, de certa forma, buscando um texto de São Paulo, na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 3, em que se fala de uma purificação pelo fogo. Talvez, historicamente, o nome purgatório derive mais também desta ideia, desta purificação. "Pur", a palavra grega para fogo. A partir daí vai se desenvolvendo esta ideia de purgatório que o João saberá explicar aqui melhor. Historicamente, quando é que surge.
Não sabe abanar a cabeça.
É por aqui. Depois, os outros conceitos de céu e de inferno ou de paraíso e de inferno, são realidades que também fazem o seu caminho nas escrituras. Porquê? No Antigo Testamento puro, ou seja, no Antigo Testamento mais antigo, se excluirmos estes livros mais finais, mais perto da era cristã, não há propriamente uma ideia de ressurreição dos mortos e de vida depois da morte. Aliás, essa ideia é engraçada. Conhecemos isto dos Evangelhos. Há aqui os saduceus e os fariseus que debatem, até um episódio conhecido em que Paulo joga fariseus contra saduceus, à conta de filiar-se nos fariseus que acreditam na ressurreição e nos saduceus que não acreditariam. Durante vários séculos, há aqui esta ideia de que há uma morada dos mortos, um tal sheol, para onde os mortos vão e não propriamente uma ideia de ressurreição, de vida depois da morte, porque o foco está no presente. Progressivamente, vai se intuindo, a palavra é esta. É difícil traçar também cronologicamente este progresso, mas vai se sublinhando esta ideia de que o amor de Deus é mais forte do que a morte. Por exemplo, no Salmo 16, versículo 10, em que o orante reza: "Ó Senhor, não me entregarás ao sheol, não deixarás que o teu fiel sofra a corrupção". Esta ideia que vai ganhando o seu espaço, de que há uma vida depois, que é mais explicitamente formulada. A formulação classicamente mais explícita é já no livro de Daniel, no capítulo 12. Em que Daniel afirma: "Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a condenação eterna". Aí vai aparecendo este termo e esta definição de uma ressurreição para a vida eterna, para o céu, para Jerusalém celeste. São termos que depois vão surgindo no Novo Testamento e no vocabulário cristão. Ou o paralelo negativo, que é a condenação eterna. O inferno é um bocadinho isto. Com o desenvolvimento do pensamento sobre a ressurreição, vai se colocando este inferno como um lugar, como um estado. Não como um lugar físico, geográfico, mas como este estado de afastamento de Deus. Como esta ideia de que o homem com a sua liberdade pode recusar Deus na sua vida e isso é inferno.
Muito bem, João, são palavras para tentar descrever realidades que derivam, naturalmente, da fé. Mas que talvez sejam difíceis de explicar com palavras.
Talvez o tema este ano nós temos que está inserido numa matéria chamada escatologia. É talvez das matérias mais fascinantes, mas também daquelas onde a nossa linguagem sente algumas dificuldades. Um conselho para quem se interessa por estas matérias, talvez o melhor livro que foi escrito no século XX sobre este assunto. Podemos recuar, depois há livros até da Patrística sobre o assunto, mas talvez o melhor livro atual, que é de certa maneira uma síntese para trás e para frente, é o livro escrito por Joseph Ratzinger, ainda professor em Ratisbona. Posteriormente Bento XVI. Tem este mesmo nome, "Escatologia". Eu acho que não existe edição em português, mas em português de Portugal pelo menos não existe que conheça. Há em espanhol e em inglês e até disponível online. Pegando até nalgumas ideias do Ratzinger sobre isto, se calhar duas ideias. Primeiro, fundamentalmente aquilo que já foi falado, que estes inferno, paraíso e purgatório não são claramente geografias. Nós não possuímos uma espécie de mapa para certos lugares. Faz-me lembrar quando eu era pequeno, na primeira viagem de avião, diziam-me que os meus bisavós tinham morrido e estavam no céu e quando o avião deslocou, tive uma grande desilusão, porque não vi os meus bisavós. Se estavam no céu, eu era a ver os meus bisavós.
Hoje ao menos diz-se às crianças que são estrelinhas, portanto aí tinha que ser uma nave espacial. Ao menos já era mais difícil.
Primeiro isso. Segundo, nós temos a ideia de que estas matérias são: eu estou vivo, morro, Deus julga e depois eu vou para um lugar, ou para um sítio, ou para um estado. Ratzinger, no livro, reconduz a ideia da escatologia a um plano maior. Ou seja, não se trata de uma coisa meramente individual, nem propriamente uma coisa comunitária. Ratzinger diz que o final dos tempos, mesmo bíblicos, e o final da nossa vida está relacionado também com a dinâmica da criação. Não se trata só do João Francisco, do João, do Daniel, que morrem e vão para o paraíso ou para o inferno, mas de algo que tem uma abrangência maior, da recapitulação da criação de tudo aquilo que é criado na proximidade com Deus. Aliás, é isto que significa o inferno, o paraíso, o purgatório, mas mais o inferno e o paraíso. Não se trata de um lugar melhor, de um bom lugar, como nós dizemos: "Olha, foi para um lugar melhor", mas sim de os cristãos acreditarem que aquela pessoa se aproximou definitivamente de Deus ou se afastou definitivamente de Deus. Numa coisa até muito simples: nós, na nossa vida, todos temos esta ideia de que há perguntas que nós fazemos que não obtemos respostas, há perguntas que nós nem sequer conseguimos formular. E o inferno e o paraíso são, de certa maneira, estas duas possibilidades: ou de nós conseguirmos nos ver tal como Deus nos vê, e isso é o paraíso, e isso custa, e daí o purgatório, a ideia de que custa nos vermos. Nós temos dificuldade de olhar para Deus e nos vermos tal como somos e como somos conhecidos pelos outros, porque temos até preconceitos sobre nós próprios, sobre a realidade. Isso custa, há uma espécie de choque, e o purgatório é esse impacto da luz. Ou então temos o inferno, que é preferir sermos vistos e sermos segundo só os nossos preconceitos e não segundo o modo como Deus nos vê.
Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder à dúvida enviada pela nossa ouvinte Amália Guerreiro. Muito obrigado, Amália, por esta questão. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast "As Histórias da Bíblia", escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou pode deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no domingo com mais um episódio da nossa terceira temporada. Vamos falar sobre Judite, uma mulher que derrotou um exército inteiro. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.
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