PunchEnd political intimidation in Delta, Obidients urge security agenciesThe Jerusalem PostYom Kippur is about the freedom to choose, former Gaza hostages Keith and Aviva Siegel tell 'Post'CNN TürkBorsada denge süreci: Güven tesisi ne zaman sağlanır?וואלהיום כיפור בדרכים: מתי יפסקו הרכבות, האוטובוסים והטיסות?RTP DesportoPortugal lidera eliminatória com El Salvador em "excelente dia"ESPNA cathartic win 293 days in the making: Hanging in The Grove for Lane Kiffin's return한겨레민주 “내년 상반기 개헌 국민투표” 국힘 “‘연임 없다’ 발언 못 믿어”InquirerButuan’s water supply recovers, but some taps remain dryDaily MaverickLEARNERS STRANDED: Crackdown on unregistered Gauteng schools intensifies as fallout mounts for familiesSözcüFransa şarap üretemez hale geldiسكاي نيوز عربيةفيديو.. رجل يستنفر أمن البيت الأبيض ويطلب مقابلة ترامبIl Fatto QuotidianoTravaglio sul Nove: “Armi all’Ucraina incompatibili con la nostra Costituzione. Si arriverà al negoziato: perché ritardarlo?”
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, September 20, 2026

Porque é que José foi vendido pelos irmãos?

Translate

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Porque é que José foi vendido pelos irmãos? Este é o segundo episódio da terceira temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou João Bastos, padre e colunista do Observador.

A história de Abraão é conhecida, a história de Moisés e da fuga do Egito também. Esta semana vamos reconstituir o episódio que faz a ponte entre estes dois momentos da Bíblia. Afinal, como é que os hebreus foram parar ao Egito para serem escravizados? Para perceber, temos de conhecer José, o bisneto de Abraão, um dos 12 filhos de Jacob. Na verdade, o filho favorito de Jacob e por causa disso foi odiado pelos irmãos, que o venderam a uns comerciantes, que por sua vez o venderam a um oficial egípcio. Depois de uma série de peripécias, o escravo sobe na vida e torna-se uma espécie de primeiro-ministro do faraó, capaz de conduzir o Egito pelo meio de uma crise alimentar. Quando a necessidade aperta, são os próprios irmãos de José que recorrem ao próspero Egito à procura de ajuda, até que finalmente toda a família de Jacob, ou seja, todo o povo hebreu, se vai mudar para o Egito. E é lá que os vamos encontrar mais tarde, no início da história de Moisés. Mas quem foi este homem? Como é que foi parar ao Egito? E como é que um escravo se tornou o braço direito do faraó? Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, quero começar por aproveitar para lembrar os nossos ouvintes que a nossa caixa de e-mail, ashistoriasdabíblia@observador.pt, está sempre à disposição para perguntas e sugestões. Nós respondemos às perguntas dos nossos ouvintes num episódio especial todas as quintas-feiras, exclusivamente em podcast. Não se esqueça de seguir o programa nas plataformas habituais para não perder nenhum episódio. Ora bem, vamos então falar do tema do nosso episódio desta semana. Vamos falar de José, este bisneto de Abraão. Daniel, começo por ti. Na semana passada, estávamos nos primeiros capítulos do Gênesis, vamos continuar no mesmo livro. Avançamos para o capítulo 30 e é lá que encontramos a complexa história da descendência de Jacob. Percebemos que aquilo é uma grande confusão. Jacob vai trabalhar para um homem chamado Labão e quer casar com uma das filhas dele. Acaba a casar com as duas e a ter filhos das duas e ainda das duas empregadas delas. Portanto, no final vamos ter 12 filhos de quatro mulheres diferentes. Não sei se nos queres ajudar a perceber um pouquinho esta história dos 12 filhos, que vão depois dar as 12 tribos.

Em primeiro lugar, estes textos do livro do Gênesis, estas chamadas narrativas ou histórias patriarcais dos patriarcas, já são diferentes daquilo que falámos na semana passada. Estes tais textos de origem, que chamamos mitológicos, míticos, são os primeiros 11 capítulos do Gênesis. A partir do capítulo 12, ou seja, a partir de Abraão, Isaac, Jacob, José, já são personagens que conseguimos colocar numa cronologia, mais ou menos, mas ainda assim são histórias lendárias. O gênero literário é mais uma lenda, ou seja, são personagens antigos, que ficam nesta memória coletiva e que vão sendo retrabalhados, até colocando-os todos na mesma família, coisa que na sua origem dificilmente seriam. Jacob é uma personagem interessante, é uma personagem um pouco, os ouvintes perdoem-me a expressão, manhoso. Neste sentido, é alguém em permanente conflito com o seu irmão Esaú, manhoso no sentido em que usa de alguma manha, às vezes não diz a verdade toda, às vezes usa algum esquema para progredir numa determinada situação. Todas estas histórias de Jacob, de certa forma, fazem relembrar Ulisses. Agora até tem sido um assunto nos últimos meses, no verão, a propósito do novo filme de "Odisseia". Jacob tem algo de parecido com Ulisses neste sentido, é um homem com um certo número de artifícios. E Jacob, que se incompatibiliza com o seu irmão Esaú, são também aqui personagens representativas. Jacob, de certa forma, é um nômade, Esaú é um caçador. Jacob vai se tornar uma espécie de pai originário destas várias tribos de Israel. Aliás, Israel é Jacob, é uma mudança de nome, uma mudança de identidade. Esaú vai dar origem a Edom e a outros povos. Jacob acaba por ter de fugir para a Mesopotâmia, para a Síria, e aí trabalha para este seu parente, Labão, apaixona-se por Raquel, mas é obrigado a casar primeiro com a irmã, Lia, também aqui com alguma manha. Ou seja, o enganador que é Jacob, que tinha enganado o seu irmão e o seu pai, um episódio também de leitura interessante, convido os leitores a fazer, é o próprio enganado.

Pensa que vai casar com uma, acaba casando com outra.

E depois na noite de núpcias descobre que casou com outra, é obrigado a ficar X anos por uma e depois mais por outra.

E é por isso que já não se usam véus.

São histórias que percebemos, são histórias folclóricas, tradicionais, que aqui são adaptadas, e vai ter filhos com estas mulheres No fundo, com estas duas. Porque alguns destes filhos, por exemplo, tem com Lia: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zabulão e Dina, mas depois com a escrava de Raquel, tem Dan e Neftali. Isso tem a ver com as leis e com questões jurídicas da antiguidade que podemos encontrar também de certa forma parecida no Código de Hamurabi, uma recolha legal de textos da antiga Babilónia. No fundo, o filho da escrava era legalmente filho da patroa. Depois ainda vai ter mais dois filhos com a escrava de Lia, Gade e Aser, e depois finalmente com Raquel, que é esta esposa preferida, mas esta que não só é obtida em segundo lugar, depois de ter que ficar uns anos com Lia, como é a que tem mais dificuldade em ter filhos e tem dois filhos que se tornam essenciais. Um é José, este que hoje vamos falar, e outro, Benjamim.

Muito bem. A certa altura, lemos no Gênesis que José era o filho favorito de Jacó, como realmente o Daniel estava aqui a mencionar, e começa a tratá-lo melhor do que aos outros, causa inveja nos irmãos. Tudo parece piorar quando José tem uns sonhos e começa a interpretá-los, dando a entender que os sonhos queriam dizer que ele seria superior aos irmãos e eventualmente até ao pai. João, queres explicar-nos um bocadinho isto? Como é que os irmãos de José começam a odiá-lo tanto?

Por um lado, é possível dizer que as rivalidades entre estes filhos de Jacó acabam até por prolongar as rivalidades entre os pais e até entre as mães. O Daniel já fez aqui referência. Isaque preferia Esaú, Rebeca, que era a mulher de Isaque, preferia Jacó, quem de certa maneira acaba por predominar é Jacó, depois o próprio Jacó preferia Raquel a Lia, etc. Aqui estes sonhos, acho que antes de mais representam algo interessante que é: os outros 11 filhos veem que Jacó prefere o José.

O filho José. Não é o mais novo.

Porque é o filho da mulher preferida, de Raquel.

E ainda assim não deslocam a raiva tanto para o pai, Jacó, como para o irmão. De certa maneira, parece mostrar que nós, como aqueles filhos, continuamos a desejar o amor do nosso pai. Nós muitas vezes dizemos: "Se eu estivesse no lugar dele, eu não permitiria isto". Parece que os irmãos às vezes querem também este lugar de afeto que o pai parece dar a José, muito embora José também não seja um personagem inocente, porque o texto diz-nos que algumas vezes vai fazendo queixinhas ao pai, vai fazendo queixinhas a Jacó, dizendo: "Os teus filhos fizeram isto, fazendo aquilo outro". Os sonhos acabam por ter uma preponderância muito grande, porque, por um lado, parece que representam, de certa maneira, a ideia de que José, um desejo de José de ser reconhecido, mas porque os sonhos relatados e depois interpretados mostram os irmãos de maneira subalterna ao próprio José. Os sonhos são dois: um é os irmãos a prostrarem-se diante de José e o segundo, de uma maneira de uma visão cósmica, José é uma espécie de centro do universo. Portanto, mesmo assim, Jacó ainda chega a repreender o filho, mas os irmãos, já com o passado que tinham com o irmão e com esta história dos sonhos, acabam mesmo por ditar uma sentença que é despido da túnica que o pai lhe havia dado e depois mandá-lo vendê-lo e acabam vendendo-o para o Egito.

É isso, esse ódio, Daniel, que eles sentem pelo irmão vai passar à ação. Depois de Caim e Abel, voltamos novamente a ver irmãos a querer matar irmãos. Há ali umas confusões entre eles. Eles primeiro pensam em matá-lo, depois atiram-no para um poço, depois acabam por vendê-lo por 20 peças de prata a uma comitiva de ismaelitas que estava a passar por ali em direção ao Egito. Eles, além de vender o irmão, depois ainda vão enganar o pai. Consegue explicar-nos um bocadinho este momento da história, que acaba por ser um momento decisivo, da venda de José até ele ir parar ao Egito?

Essa história tem um caráter próprio, porque ao contrário dos outros textos patriarcas, que geralmente até são referidos como esta tríade, Abraão, Isaque e Jacó, esta história de José, ao contrário dessas outras, Deus praticamente não aparece como personagem. Esses outros patriarcas, vistos como antepassados fundadores da tribo, Deus tem alguma intervenção nessa história. Aqui não, aqui é praticamente invisível ou está em filigrana, está numa certa base que não é tão clara. E, portanto, é um texto muito humano, um texto de fraternidade ou de perda de fraternidade. Tem um autor, um biblista da segunda metade do século XX, Aloisius Schökel, que tem um livro sobre histórias de fraternidade na Bíblia, no livro do Gênesis, e faz a interpretação destes textos de uma forma muito bela. E portanto, esta história vai nos falar de falta de fraternidade, que leva a querer e desejar a morte do irmão, mas depois também essa recuperação. De fato, estes irmãos têm inveja deste seu irmão José, que é o preferido do pai, e arranjam aqui um esquema para se livrarem dele Chega a estar em cima da mesa simplesmente matarem-no, mas acabam por vendê-lo como escravo para uma caravana que estava a passar em direção ao Egito, e assim livram-se dele. A história depois continua e ele vai por várias peripécias pro Egito, que depois desenvolveremos.

Mas eles vão tentar convencer o pai de que ele morreu.

Sim, exatamente. Eles livram-se dele, mas dizem ao pai-

Levam-lhe a túnica manchada de sangue

...levam a tal túnica, que era um sinal dessa preferência pelo filho José, manchada de sangue, de sangue de um cabrito, e dizem ao pai que esse seu filho morreu.

Quanto não valiam os testes de ADN na altura.

João, estamos a chegar ao final da primeira parte, mas vamos introduzir um bocadinho esta passagem de José pelo Egito. Esta caravana de comerciantes que o compra, depois vai vendê-lo a um oficial egípcio, e depois no próprio Egito, a vida do José também vai dar muitas voltas.

Sim. A primeira volta que dá é que esse mesmo oficial que o compra, o Potifar, acaba por ver que ele tem algumas competências e entrega-lhe a administração da casa. O problema é que a mulher de Potifar quer que José se deite com ela, seja lá isso o que for.

Não seria só pra dormir.

Não seria, certamente, só pra dormir. José recusou, não necessariamente por puritanismo sexual, mas também para não trair, talvez, a confiança do seu patrão. E a mulher de Potifar vinga-se dizendo que José a tentou violar e com uma nova túnica, transforma a túnica numa espécie de prova. O problema é que José volta para um buraco, no sentido de que vai preso. E mesmo esta ideia da prisão para este crime é um bocado estranha, porque claramente a moldura penal daquilo que nós podemos consultar da época para este tipo de crimes era muito mais pesada. Parece que, ainda assim, José tem uns pózinhos de pirlimpimpim que o livram de uma pena pior. E é na prisão que um conjunto de ciclos de acontecimentos, ele vai poder dar o salto. E é também na prisão que ele vai conhecer a pessoa que mais tarde vai ser uma espécie de ex-amigo que se lembra dele para o salvar da prisão.

Que o vai fazer então subir na vida. Portanto, ele chega ao Egito como escravo, na prática.

Torna-se administrador, depois é acusado de violação, vai pra prisão. É na prisão que interpreta sonhos de dois prisioneiros e é um desses prisioneiros que depois se vai lembrar dele, porque entretanto ele próprio seguiu na vida.

Muito bem, então é justamente disso que vamos falar na segunda parte deste episódio de "As Histórias da Bíblia". Vamos tentar perceber como é que José, na prática, se tornou uma espécie de primeiro-ministro do Egito e por que as pessoas que conheceu na prisão foram tão importantes para isso. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre José, o bisneto de Abraão, que foi responsável pela mudança do povo hebreu pro Egito. Daniel, no final da primeira parte, o João estava a contar-nos muito rapidamente que José foi mandado pra prisão por causa de uma confusão com a mulher deste oficial egípcio, Potifar. O que acontece ali na cadeia? Que pessoas é que ele conhece ali e como é que este momento também transforma a vida desta pessoa?

Antes de falar desses detalhes, talvez só fazer esta comparação. Se pensarmos que estas histórias dos patriarcas podem ser uma série da Netflix ou da HBO, as outras de Abraão, Isaque e Jacó, sobretudo de Abraão e Jacó, quase poderia ser uma série em que cada temporada tem um episódio com princípio, meio e fim. Há séries assim, séries policiais. Podemos ver os episódios até numa ordem distinta que fazem sentido em si. Esta história de José já seria como aquelas séries que é, no fundo, só uma história e cada episódio vai progredindo um bocadinho. E, portanto, há aqui uma trama unificada, há aqui uma novela, como costumam denominar esta novela de José, em que o protagonista vai tendo aventuras e desventuras. E portanto, a vida corre-lhe mal e é traído pelos irmãos, vendido pelos irmãos, vai para esta casa como escravo, mas porque é bom, porque é abençoado por Deus, torna-se administrador da casa deste homem importante no Egito. Mas a mulher acaba por levá-lo à prisão, através de um esquema, esta ameaça da tentativa de o acusar de violação. Depois vai pra esta prisão Parece que está tudo mal outra vez, depois de já ter subido. Mas porque sonha, e José é o homem dos sonhos, e os seus sonhos têm importância, como o João já explicou, estes seus sonhos vão permitir ao copeiro-mor e ao padeiro-mor. Parecem-nos coisas com pouca importância, um copeiro e um padeiro, mas no fundo são títulos de algum poder e de alguma responsabilidade na corte, que tinham ido parar à prisão. Nem se percebe bem por quê, mas o copeiro-mor acaba por ser restabelecido, ou seja, o sonho de Jacó tem essa interpretação, e o outro, o padeiro, acaba por ser enforcado. Também não percebemos exatamente bem por quê, mas é mais uma prova de que os sonhos de José expressam bem aquilo que é a realidade. Fica mais algum tempo esquecido na cadeia, porque este copeiro-mor não se lembra logo dele imediatamente, mas depois há uma crise no Egito e aí, nesse momento, pensa: "Havia este rapaz cujo sonho foi eficaz ou que previu bem a realidade" e vai buscá-lo à cadeia. José, por via disso, acaba por ir subindo também na corte egípcia. Tinha subido, tinha descido, agora sobe outra vez para a corte e torna-se uma espécie de primeiro-

Porque o faraó precisa de ajuda.

Porque o faraó também tem sonhos e José interpreta os sonhos do faraó e acaba por delinear um plano de ação para anos de seca, anos de fome.

Só para recentrar, essa questão da interpretação dos sonhos está sempre muito presente na vida de José. A dada altura, o faraó tem esses sonhos.

Não só porque sonha, mas porque interpreta os sonhos dos outros.

E precisa que alguém os interprete. E é aí que este copeiro que tinha estado na cadeia com José se lembra: "Eu conheci na cadeia um tipo que interpretou bem os sonhos e, portanto, vamos lá buscá-lo". E é assim que ele-

E não só interpreta os sonhos. O narrador vai nos dizendo não só que José era de belo aspecto, mas que também era abençoado por Deus, também era inteligente, também era capaz. É aí que se vai revendo a ação de Deus, não como um personagem que aparece como em outros relatos, mas como capacitando José com atributos exteriores, mas também interiores. Não é só a questão de interpretar os sonhos do faraó, mas é capaz de delinear um plano de ação que vai permitir ao Egito prosperar e, nessa medida, vai se tornar uma espécie de primeiro-ministro ou gerente da corte.

Até mais do que primeiro-ministro, que ele não lidera propriamente um governo, não tem o poder executivo em si, é uma espécie de ministro plenipotenciário, ou seja, alguém que tem um poder delegado, que representa o país ou o poder, que até pode assinar, no caso atual, tratados e acordos diplomáticos, mas que claramente não tem o poder que tem um primeiro-ministro atual.

Sim.

João, o Daniel já contou um pouco de como o faraó, a dada altura, tem um sonho que precisa de interpretação. Conte lá que sonho é esse.

São dois sonhos que têm aqui um número-chave, que é o número sete. O faraó sonha com sete vacas robustas devoradas por sete vacas magras. Aqui nota-se que eu sou do Viana, porque troco os verdes todas vez. E sete espigas cheias engolidas por sete espigas mirradas. Os sábios egípcios, como vai acontecer no episódio posterior de Daniel, os sábios da corte não conseguem desvendar o significado. E aqui está este copeiro que se lembra de José. E José diz que estes sete anos de abundância serão seguidos por outros sete anos de fome.

Portanto, as sete vacas e as sete espigas são sete anos de-

Sete anos de abundância que serão devorados por sete anos de carestia e de fome. Claro que este sonho põe em causa a própria figura do faraó, porque se o faraó é incapaz de proteger a vida dos seus concidadãos, ele não tem razão para governar. E José nem se limita sequer só a decifrar os sonhos. José dá conselhos ao faraó, que de certa maneira depois vão coincidir com a sua figura, porque José diz: "Tens de escolher um homem sábio, capaz de organizar o território, de recolher uma quinta parte das colheitas, de armazenar cereais, de constituir uma reserva". E quem vai fazer isso tudo é José. José, que é esta espécie de administrador com plenos poderes, ou primeiro-ministro, como quisermos chamar, que gera esta prosperidade que leva com que os irmãos venham para o Egito e que faz com que, de certa maneira, os sonhos de infância se realizem, mas de outra perspectiva. Ou seja, já não é uma espécie de miúdo egocêntrico que se torna o centro do mundo, mas é um rapaz, José, que é elevado a um certo patamar por servir e por cuidar da população, muito embora exista até uma face negra e sombria na política de José. Ele concentra a propriedade, reforça extraordinariamente o poder do Estado e quando os egípcios vendem bens e a liberdade para obter pão, nós vemos que a família de José recebe propriedades na região com maior sustentabilidade do país e é ela mesma sustentada pela administração. Portanto, também não é uma espécie de grande estadista, modelo do político moderno.

O João já vai aqui para uma análise política.

Desculpem.

Também vai ganhar qualquer coisa com isso.

Sim, vai ganhar alguma coisa. Não é claramente um moço humilde e simples.

Quer dizer, eu acho que o foco da história é a relação da fraternidade, a questão dos irmãos. Porque o narrador, muito habilmente, depois de nos fazer acompanhar José nas suas aventuras e desventuras, volta aos irmãos que estão a morrer à fome, porque há uma seca, como muitas vezes haveria naquela zona de Canaã, na terra prometida, e portanto veem-se obrigados a descer ao Egito para irem à procura de comida, para irem à procura de cereais.

É isso.

Em casa, o Jacó e os 11 filhos que restaram também sofrem com esta crise e ouvem dizer que no Egito é que não falta comida.

Claro, porque o Egito sempre foi uma espécie de celeiro do Mediterrâneo e portanto é um lugar da abundância, ainda potenciada por esta gestão hábil e eficaz de José. E vão ter com José, precisamente. E aí não o reconhecem.

Quem pega no texto a partir dessa fase em que há a crise alimentar e em que Jacó diz: "Ok, temos de ir ao Egito ver se nos safamos, ver se arranjamos comida." A história pode ser bastante confusa para quem lê, porque Jacó manda os filhos para irem comprar comida no Egito. Há ali uma confusão em que José sabe quem eles são, mas eles não o reconhecem. Há uma dinâmica quase de chantagem de José relativamente aos irmãos. Não sei se nos consegue explicar esta narrativa, o que acontece nestas interações que vão para trás e para a frente.

Isto de um bocadinho parece uma telenovela. Com encontros e desencontros. No fundo, não é chantagem, mas José quer, também não diria vingar-se, mas decide dar uma lição aos seus irmãos e, portanto, não é reconhecido pelos seus irmãos, não só porque já cresceu um bocadinho, mas provavelmente está ali disfarçado. O texto não nos permite ver isso muito bem, talvez com aquelas maquiagens que vemos nos personagens egípcios. E, portanto, há todo um jogo de ir para trás e para a frente, porque José pede: "Mas estão aqui os irmãos todos?" Não tinham ido os irmãos todos, só os mais velhos. O outro irmão total de sangue, o outro filho de Raquel e de Jacó, que é Benjamim. Até Benjamim fica proverbialmente como o Benjamim, o mais novo, e de fato vem daqui, ser o mais novo. Benjamim não tinha ido e José faz para que eles acabem por trazer Benjamim, como uma espécie de refém. Inicialmente, eles não querem, porque isso iria destroçar o coração do seu pai, já de si destroçado pela perda deste filho muito amado, mas depois Jacó acaba por ceder, porque é a única hipótese de eles conseguirem sobreviver. E é através disso, depois mais com umas aventuras e desventuras, com umas ameaças e com outras coisas que é melhor ler. Mas o ponto é que acaba por ser Benjamim. Por um lado, Benjamim é esta chave da reconciliação, quando finalmente levam Benjamim até José, é que ele se revela e se restabelecem estes laços, como também uma coisa que às vezes passa um bocadinho ao lado. É por ação de Judá, e Judá, destes 12 filhos, talvez seja dos que mais reconhecemos, desta tribo de Judá, que depois se liga até com o próprio Jesus, que vai ter aqui uma ação importante, porque é Judá que acaba por convencer o pai a libertar Benjamim. O pai, como dizia, inicialmente não queria, porque era o filho da mulher querida, era o único que lhe restava desta mulher. E é Judá que acaba por dar garantias de que Benjamim vai ser protegido. Ora, Judá aparece-nos aqui estranhamente também num episódio no capítulo 38. Nós, se vermos esta história toda, a dada altura, entre José ser vendido pelos irmãos e José na casa de Potifar, há um capítulo inteiro que nos conta uma aventura de Judá. Judá que vai ali com uma mulher que tinha sido prometida aos seus filhos, depois acaba a ser colocada de parte, disfarça-se de prostituta. E depois o ponto dessa história acaba por ser Judá reconhecer que foi injusto para com esta mulher Tamar. O narrador centra-se numa espécie de crescimento, amadurecimento de Judá, que pouco antes tinha ajudado a vender o seu irmão. E é precisamente Judá que mais tarde vai dar o contributo decisivo para depois se poderem reconciliar todos. Portanto, há aqui uma certa fineza narrativa nesta história familiar, que é um pouco novelesca, telenovelesca, quase.

Clássico, o arco de redenção de uma personagem.

Mas muito detalhada, com muitos acontecimentos e que vai permitir esta família estabelecer-se no Egito e fazer também essa ponte depois com os restantes textos. Com Israel no Egito, depois.

É fácil nós vermos aqui o José quase como uma pessoa meio vingativa, que está aqui a fazer pouco dos irmãos, a obrigá-los a voltar atrás, a vir, a trazer mais o outro irmão, a deixar um como refém, etc. Ao mesmo tempo, há aqui uma certa ambiguidade, porque depois há aquele episódio em que ele devolve o dinheiro, sob reticemente, o dinheiro que eles tinham deixado em troca da comida.

Sim, é um episódio em que ele, no fundo, pede para plantar alguns objetos na comitiva dos irmãos para depois os acusar. Mas também acho que não devemos moralizar a ação de José em demasia e chamá-lo de vingativo, porque há aqui toda uma pedagogia que talvez eticamente nos possa parecer um bocadinho duvidosa em certos momentos, mas, de fato, José aqui já cresceu. Já não é este irmão mais novo, este irmão que andava a passear e a sonhar, mas é o que agora acaba por conseguir, através desta ação, através deste esquema, reconciliar a família. E se calhar seria a única solução de isto tudo acabar bem, são estas tais voltas que José acaba por proporcionar.

João, o fim deste episódio é Depois fundamental para compreendermos o arranque do Êxodo e a história de Moisés. Quando Jacob descobre que o filho José está vivo, o seu filho favorito está vivo, segue com toda a sua família, que são dezenas e dezenas de pessoas, para o Egito. E depois a descendência de Jacob, que é no fundo o povo de Israel, acaba por instalar-se no Egito, tudo acaba bem. Acabamos por ver, por exemplo, a morte de José no Egito, ele é homenageado, a descendência dele prospera por ali. Não sei se nos queres levantar já um pouco o véu do que acontece depois, mas à altura vai surgir um novo faraó.

Que não conheceu José.

Exatamente, que não conheceu José. Mas se queres, só para tentarmos explicar um pouquinho melhor, a família de Jacob fixa-se no Egito e durante algum tempo há ali uma espécie de reconciliação total entre os irmãos.

Exato, acho que isso é um ponto interessante. O Daniel falou já aqui da questão da fraternidade e de um autor hebraísta famoso, o Schökel. Eu tenho um que várias vezes cito aqui, que é o André Vénal, que tem um livro precisamente sobre José e a invenção da fraternidade. Até Jacó morrer, há sempre aquela ideia, como também acontece em nossa casa, que os irmãos só se dão bem para respeitar o pai. Quando o pai morre, o que acontece é que os irmãos confessam o mal cometido, oferecem-se como escravos e José recusa ocupar um lugar "de Deus", ou recusa uma certa relação fundada na escravidão e não transforma a superioridade em vingança. Portanto, há esta ideia de fundação da fraternidade, que no final do livro do Gênesis acaba por colar bem com a ideia de que no início nós temos um fratricídio entre Caim e Abel. E, portanto, há aqui esta invenção da fraternidade fundada na ideia de não transformar uma espécie de superioridade em escravidão. A verdade é que umas gerações passadas com esta prosperidade e até, de certa maneira, com a administração de José, que preservou aquela população da fome, mas certa maneira também pode ter criado uma espécie de bode expiatório daquela população estar a enriquecer, aquela minoria estar a enriquecer de forma ilícita ou contra os cidadãos nacionais, se pudermos usar esta linguagem um bocadinho contemporânea, o próprio faraó vai se revoltar, vai se esquecer dessa memória do José que o ajudou e vai escravizar aquele povo.

Passa muito tempo e as protagonistas mudam também, não é?

Sim, mas há aqui esta ideia de que se perdeu a memória num livro que também é acima de tudo sobre a memória. Aqui a figura do faraó, muitas vezes se diz que não tem nome e que é vista como o mal supremo em absoluto, que é a pessoa que já não se recorda dos seus antepassados. Reparemos que o judaísmo e o Antigo Testamento têm muito esta ideia: ouve, recorda-te dos teus antepassados.

E à custa disso, Daniel, começa esta opressão do povo hebreu no Egito que depois nos vai introduzir no episódio do Êxodo, é isso?

Sim, antes disso talvez recordar que a descendência de José, são os filhos de José, que vão corresponder àquele território central das tribos do norte. Ou seja, os filhos de José, que são Efraim e Manassés. Há pouquinho falava dos filhos de Jacó, não estavam esses, Efraim e Manassés, que são estas duas tribos, vindo da Samaria, que são as maiores, são os filhos de José. E portanto, há de certa forma esta preservação da memória de Israel no Egito, do José no Egito, através destas tribos, que têm aqui um papel fundamental. Portanto, a realidade social já na terra de Canaã, já na terra prometida, é um ponto anterior. Ou seja, estas histórias são escritas posteriormente. Havia as todos patriarcas, este será talvez o texto mais recente, que depois de alguma forma legitima este lugar das memórias do Egito, destas tribos do norte. Quando falávamos mais de história, vimos isto, que havia as tribos, o Israel do Norte, que é o primeiro reino a ceder face aos assírios e depois o Reino do Sul. Portanto, José como personagem dos seus filhos fica sobretudo neste reino do norte.

Mesmo durante o período que é passado no Egito, é preservada esta divisão do povo de Israel em 12 tribos que depois vão manter-se ao longo de toda a história. Portanto, essa interação das tribos.

Os historiadores depois dirão, já falámos noutras alturas acerca disso, da própria historicidade do Êxodo e depois destas tribos que são colocadas no Êxodo. Isso provavelmente não corresponderá à realidade. Talvez nem todas existissem, ou talvez nem todas as tribos tenham verdadeiramente estado no Egito, se calhar é mais ligado a esta tradição de José e, portanto, estas tribos da descendência de José.

Muito bem, fica por aqui o segundo episódio desta terceira temporada de "As Histórias da Bíblia". Próximo episódio vamos falar justamente da personagem que assume o protagonismo da história a seguir a José. É Moisés, o homem que vai libertar o povo do Egito. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt e nós respondemos em episódios especiais às quintas-feiras. Até a próxima! "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Bastos. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.

View the original on Observador Desporto

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.