O tênis chinês sem logo que virou febre entre fashionistas
A Pane nasceu em Xangai em 2022, mas seu fundador, Chen Ning, vem de um universo bem diferente do streetwear. Ele trabalhava no mercado financeiro antes de fundar a grife de alfaiataria Full Monty, em 2015. Sete anos depois, decidiu se dedicar inteiramente a calçados, aplicando ao tênis a mesma lógica de proporção e acabamento que aprendeu no sob medida masculino.
O resultado foi um modelo que reinterpreta o German Army Trainer, o clássico tênis militar alemão de perfil baixo. Batizado de Light Training, ele mantém a base em camurça e couro do original, mas reduz os detalhes ao essencial. Sem logotipo visível, sem parcerias com nomes de peso e sem uma paleta de cores gritante, o produto se tornou o carro-chefe de um catálogo que hoje inclui outras silhuetas como o Riviera Run, o Crest Kick e o Zephyr Training.
Crescimento sem ostentação

Solado de borracha crua com relevo geométrico, assinatura da Pane em cada par (Divulgação)
Em pouco mais de três anos, a Pane passou de marca desconhecida a fenômeno de fila nas lojas físicas da China. Durante o feriado do Dia do Trabalho de 2026, a fila para entrar na loja da Huaihai Road, em Xangai, chegou a ultrapassar quarenta minutos. A equipe da marca estima que turistas estrangeiros representem entre 60% e 80% dos compradores nesses pontos, muitos tratando o tênis como um souvenir da cidade.
No comércio eletrônico chinês, o faturamento da marca no Tmall superou 100 milhões de yuans em 2025, o equivalente a cerca de R$ 76,6 milhões pela cotação atual. A taxa de recompra nos canais privados da grife, segundo dados da Double V Consulting, chega a 40%, um número alto para uma marca com menos de quatro anos de existência.
A Pane opera de forma inversa à maioria das marcas chinesas que buscam expansão internacional. Em vez de abrir lojas fora do país, ela concentra o varejo dentro da China e deixa que a demanda estrangeira viaje até lá, construída primeiro por meio de buzz no Instagram e no TikTok.
A recusa em usar símbolos chineses

Modelo Light Training em azul-gelo, com couro sintético acetinado e detalhes em camurça cinza (Divulgação)
Diferente de concorrentes como Li-Ning, que investe em coleções inspiradas em elementos tradicionais chineses, ou Anta, que aposta em motivos como carpas koi e guerreiros de terracota, a Pane não recorre a nenhum símbolo nacional explícito em seus produtos. A estratégia de design é deliberadamente contida, com cores de baixa saturação e detalhes discretos, como sacolas bordadas dentro da caixa do tênis.
Para o escritor de moda masculina Nico Lazaro, o apelo da marca no exterior está ligado a esse desapego de fórmulas conhecidas. Ele conheceu a Pane ao ver um par usado por Nathaniel Asseraf, da loja vintage Broadway & Sons, e destacou à GQ britânica a qualidade do material e o conforto do calçado, além de um fator extra: por enquanto, poucas pessoas ainda usam o mesmo modelo.
A designer de calçados Jess Dalton chegou à marca pelo Zephyr Training, um modelo de perfil baixo com sola inspirada em calçados de escalada. Segundo ela, o tênis tem uma confiança discreta, sem tentar fazer demais, mas entregando bem tudo o que se propõe.
No catálogo internacional, os preços rodam na faixa de £125 a £133, o equivalente a valores entre R$ 861,25 e R$ 916,37 pela cotação atual. O Riviera Run "Pine Rover" é vendido a £125 (R$ 861,25), o Zephyr Training "Sterling" a £129 (R$ 888,81) e o Light Training "Travertine" a £133 (R$ 916,37).
Por enquanto, a Pane segue crescendo dentro da China com fila na porta e ganhando terreno lá fora de forma discreta, sustentada por recomendações dentro de círculos específicos da moda masculina internacional.
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