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Wednesday, October 7, 2026

Extração póstuma de esperma de soldados de Israel cresce após o 7 de Outubro

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Sharon Eizenkot diz que ainda se lembra de cada instante. Eram 17h01 quando três representantes do Exército de Israel bateram à sua porta. Traziam "a notícia mais devastadora que uma mãe poderia receber", nas suas palavras. Seu filho, Maor, de 19 anos, havia morrido em combate em Gaza no dia 8 de dezembro de 2023. "Meu mundo se estilhaçou."

Em seguida, um dos oficiais lhe entregou um formulário. Sharon reconheceu as palavras "coleta de esperma" —e assinou imediatamente.

Com sua assinatura, o esperma foi extraído do corpo de Maor e guardado para, no futuro, ser utilizado em fertilização in vitro. Caberia a Sharon, a partir daí, escolher a mulher que carregaria seu neto no ventre.

Não foi apenas Sharon que tomou aquela decisão. Os atentados de 7 de outubro de 2023 desencadearam um fenômeno sem precedentes de extração póstuma de esperma em Israel. Desde então, esse procedimento médico foi realizado com sucesso em pelo menos 250 soldados e 21 civis.

Nos últimos tempos, até se popularizou a expressão "hatzalat zera", que quer dizer "resgate de sêmen" ou "salvamento de sêmen" em hebraico.

A extração póstuma de esperma existe há décadas em Israel, mas era realizada apenas em casos raros. O trauma coletivo trouxe uma urgência inédita e, com ela, um debate social sobre a ética de extrair o esperma de uma pessoa morta e de decidir —à sua revelia— que vai se tornar pai.

Além da escala, um dos impactos do 7 de Outubro foi a entrada dos pais nesse processo. Até então, a prática era restrita às viúvas, salvo exceções. Pessoas como Sharon não tinham direito de solicitar a coleta, exceto se fossem à Justiça e apresentassem prova de que seus filhos tinham autorizado o procedimento antes de morrer, o que era bem raro.

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As normas israelenses para a extração de esperma remontam ao início dos anos 2000. A professora Vardit Ravitsky, presidente do Hastings Center, um prestigioso instituto de bioética, foi uma das redatoras do texto. "Foi decidido naquele momento que os pais não tinham legitimidade para reivindicar direitos reprodutivos em nome dos filhos."

O 7 de Outubro levou a sociedade a repensar essa posição. Descrevendo a morte de seus filhos como um sacrifício à nação, os pais passaram a pressionar o governo, que começou a ceder. Tanto que dos 250 casos de coleta de esperma, 75% foram a pedido dos pais.

Parte do debate refere-se à questão do consentimento. É ético gerar uma criança a partir do esperma de um homem sem que ele dê permissão? Ravitsky afirma que, na falta de informação, é melhor "errar pelo sim".

Isso, inclusive, porque o procedimento precisa ser realizado em menos de 72 horas para que o esperma permaneça viável. "Deixem que coletem e não percam a janela. Depois, há tempo para decidir sobre o uso", diz.

Até porque a coleta é apenas o primeiro passo. Em seguida, os pais precisam ir à Justiça pedir autorização para realizar a fertilização in vitro. Depois, têm de encontrar uma mulher —e obter outra permissão.

Eizenkot tem recebido assistência da organização israelense HaChasida (a cegonha, em hebraico), que ajuda pessoas interessadas em formar famílias por meio de arranjos de coparentalidade. A HaChasida nunca tinha tratado de um caso de coleta póstuma de sêmen. Até que Eizenkot os procurou há um ano.

"Ela veio até mim trazendo um luto devastador, e não consegui dar as costas para ela", afirma a fundadora, Michal Biran.

Biran ajudou Eizenkot a encontrar uma mulher disposta a carregar o filho de Maor. "Ela acha que um neto a fará sentir que ainda tem algo dele. Não sei se eu faria isso. Mas eu não preciso concordar com ela."

Eizenkot aguarda agora uma última rodada de autorizações judiciais para iniciar a fertilização. O processo é longo.

Desde o 7 de Outubro, só há notícias de uma criança nascida por extração póstuma. O caso, porém, era diferente —um pedido que vinha da viúva do soldado, não da mãe. Existe um entendimento de que, em uma relação afetiva, é possível presumir a intenção de se reproduzir, o que facilita esse tipo de pedido.

Apesar de os atentados terem servido de catalisador, há uma série de outras questões que explicam a coleta póstuma de esperma de soldados.

Israel é um país tradicionalmente pró-natalidade. Entre as razões, está a narrativa de continuidade do povo judeu. Especialistas também apontam a grande preocupação demográfica em meio à disputa com os palestinos.

"Estamos na vanguarda de tudo o que diz respeito à reprodução assistida", afirma Sharon Bassan, especialista em bioética. "Quando há um dilema ético em relação à reprodução, Israel, em geral, será a favor."

Há, ademais, a questão do Exército. O serviço militar é obrigatório, com duração de quase três anos para os homens e de dois para as mulheres.

"A morte de um soldado raramente é tratada como um evento puramente privado", diz Orit Taubman-Ben-Ari, professora da Universidade Bar-Ilan e autora de um estudo recente sobre a coleta póstuma. "Essa perda é, por isso, vivida tanto pela família quanto pela sociedade em geral."

A empatia que existe na sociedade explica, em parte, por que a coleta se tornou mais fácil. "A questão do consentimento, porém, não pode ser respondida apenas pela compaixão. A pessoa morta é aquela cujo corpo e material genético são usados, e ela não pode esclarecer seus desejos."

A pesquisa de Taubman-Ben-Ari indica que os jovens israelenses se dividem quanto ao tema. Alguns se mostram confortáveis em deixar a decisão para seus pais. Outros, porém, dizem que se sentiriam violados. Para esse grupo, o desejo de deixar um legado após a morte não implica ter filhos. Enxergam outros caminhos: seus valores, memórias e bens.

O debate ético, ademais, vai além da questão do consentimento, explica Ayelet Oreg, professora da Universidade Bar-Ilan que assina a pesquisa com Taubman-Ben-Ari. "A conversa também inclui o bem-estar da criança e o peso da expectativa de que dê continuidade ou substitua o morto", afirma.

Oreg lista ainda os conflitos entre pais e viúvas quanto a quem poderia usar o esperma coletado postumamente. Isso além de questões legais como herança, pensões militares e interesses financeiros.

Existe, por fim, uma questão mais ampla em debate em alguns setores. Em um texto recente, o site israelense +972 questionou o apoio à reprodução de soldados mortos —ao mesmo tempo em que parte da comunidade internacional acusa o governo de ter cometido genocídio na Faixa de Gaza.

As Forças Armadas de Israel bombardearam maternidades e clínicas de fertilidade em Gaza, onde os abortos espontâneos triplicaram na primeira metade de 2026, segundo o texto. "Os investimentos de Israel na reprodução de judeus estão em franco contraste com as condições que impõem às mulheres palestinas."

Eizenkot agora aguarda, ansiosa, por outro momento que espera guardar na memória: a autorização final da Justiça para dar início à fertilização. "Sempre soube que o Maor queria filhos, queria começar uma família", diz. "Toda criança carrega o legado de seus pais, de um jeito ou de outro. Algo do Maor vai viver com a gente. Seu espírito como um guerreiro."

O que foi o 7 de Outubro, maior ataque terrorista da história de Israel

Na manhã do dia 7 de outubro de 2023, integrantes do Hamas e outros grupos terroristas palestinos entraram armados em território de Israel e assassinaram mais de 1.200 pessoas. O ataque foi o maior da história do Estado judeu e amplamente considerado o pior massacre de judeus desde o Holocausto.

Foram atacados kibutzim, comunidades, estradas e eventos que ocorriam próximos à fronteira. Entre os vários locais atacados, em ação que durou horas e cuja resposta inicial do governo de Binyamin Netanyahu foi criticada pela demora, o evento de música eletrônica próximo do kibutz Re'im teve o maior número de mortos: 378.

Além de massacrar civis, policiais e militares, os terroristas sequestraram 251 pessoas em território israelense que foram levadas para Gaza. Entre elas havia 44 pessoas já mortas.

A resposta israelense em larga escala reduziu a maior parte da Faixa de Gaza a ruínas, provocou uma crise humanitária sem precedentes e matou mais de 73 mil pessoas, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. O órgão está sob autoridade do Hamas e seus números são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.

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