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Thursday, October 8, 2026

Uma eleição entre 2 Brasis

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As eleições presidenciais brasileiras de 4 de outubro produziram um resultado que revela um país profundamente dividido. Flávio Bolsonaro terminou a primeira volta à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com uma diferença de apenas 1,87%, insuficiente para garantir a maioria absoluta e obrigando o Brasil a regressar às urnas a 25 de outubro. A dimensão desta diferença é particularmente relevante porque mostra como a disputa presidencial continua extremamente equilibrada e como poucos votos poderão determinar o rumo político do Brasil

No entanto, reduzir esta eleição a uma simples disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro seria ignorar uma parte importante da realidade brasileira. O Brasil é um país continental, diverso e desigual, não podendo ser analisado apenas através das categorias tradicionais políticas. Existem vários Brasis dentro do Brasil, com diferenças profundas entre regiões, estruturas económicas, níveis de desenvolvimento, culturas, hábitos sociais e formas de relacionamento com o Estado. Tive oportunidade de conhecer diferentes estados brasileiros, no Sul, no Centro, no Nordeste, no litoral e no interior, no rural e no urbano, e é difícil não perceber essas diferenças no terreno. Mudam os costumes, muda o modo como as pessoas se relacionam, mudam as preocupações das famílias e muda também a forma como as empresas funcionam e encaram o Estado. Esta diversidade não produz necessariamente polarização, mas cria as condições para que ela se manifeste de forma mais ou menos intensa consoante o momento económico, social e político.

A polarização brasileira não nasceu nesta eleição. É um fenómeno que se foi consolidando ao longo da última década e que se tornou particularmente evidente a partir de 2014. O que mudou foi a intensidade e a forma como essa divisão passou a estruturar o comportamento eleitoral. O mapa do primeiro turno de 2026 mostra isso de forma bastante clara, sendo que Flávio Bolsonaro venceu em grande parte do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, enquanto Lula manteve uma vantagem muito expressiva no Nordeste. Minas Gerais, tradicionalmente um dos estados mais importantes para a formação de maiorias presidenciais e frequentemente considerado um verdadeiro estado de equilíbrio político (swing state), também acabou por votar maioritariamente em Flávio Bolsonaro. O resultado não é apenas uma fotografia de preferências partidárias, é também a expressão de diferentes perceções sobre o próprio país e sobre aquilo que deve ser a prioridade do Estado brasileiro.

É neste contexto que deve ser analisada a posição de Lula da Silva. Lula tem uma vantagem que poucos políticos brasileiros poderiam reproduzir. Possui uma história política conhecida por praticamente toda a população, porque foi Presidente durante  três mandatos presidenciais. O problema é que essa história, que continua a ser um activo junto da sua base eleitoral, pode também transformar-se numa limitação quando o objectivo é conquistar novos eleitores. A campanha de Lula parece ter apostado demasiado na defesa do seu legado e naquilo que foram os seus governos anteriores, quando uma parte significativa do eleitorado parece estar mais interessada em saber o que o Brasil pode ser a partir de 2027.

Esta é provavelmente uma das principais dificuldades de Lula nesta eleição. O seu eleitorado tradicional continua relativamente consolidado, mas o problema está em conquistar aqueles que não têm uma ligação emocional ou política tão forte ao PT ou o “lulismo”. Para esses eleitores, recordar aquilo que Lula fez há quinze ou vinte anos pode ser insuficiente. Uma eleição presidencial é também uma escolha sobre o futuro e, nesse domínio, a campanha poderia ter apresentado uma visão mais clara sobre aquilo que pretende fazer com o Brasil nos próximos quatro anos. O desafio de Lula é encontrar uma mensagem capaz de chegar a uma classe média pressionada pelo custo de vida, a sectores empresariais preocupados com impostos e burocracia e a eleitores que colocam a segurança pública no centro das suas prioridades.

A economia é, nesse sentido, um dos principais factores. Seria errado descrever a situação brasileira como uma crise económica tradicional. O país continua a apresentar crescimento económico, níveis relativamente elevados de emprego e alguns indicadores sociais positivos. O problema está sobretudo na percepção económica das famílias e das empresas. Uma economia pode crescer e, simultaneamente, as pessoas sentirem que a sua vida ficou mais cara. Habitação, alimentação, crédito, serviços e despesas quotidianas pressionam o orçamento familiar e criam uma sensação de perda de poder de compra que os indicadores macroeconómicos nem sempre conseguem captar. Existe uma diferença importante entre crescimento económico e acessibilidade financeira, e essa diferença pode ter consequências eleitorais significativas.

No sector empresarial, a crítica é semelhante. Durante os períodos em que estive no Brasil, em contacto com empresas e empresários de diferentes sectores, diferentes Estados, encontrei repetidamente preocupações relacionadas com a carga fiscal, a burocracia, as barreiras ao comércio e a complexidade jurídica e administrativa. Não se trata de uma crítica exclusivamente ideológica. A complexidade do sistema brasileiro é reconhecida por diferentes instituições e constitui um custo concreto para quem investe, emprega ou simplesmente tenta desenvolver uma actividade económica. O Brasil possui uma das estruturas fiscais e regulatórias mais complexas entre as grandes economias emergentes e, embora tenham sido feitos avanços importantes com a reforma tributária, continua a existir uma percepção muito forte de que o Estado é demasiado pesado para as empresas e para uma parte significativa da classe média. Este poderia ter sido um dos grandes espaços para Lula apresentar uma agenda reformista, mostrando que uma política social forte não é incompatível com a simplificação fiscal, administrativa e regulatória. Essa mensagem, porém, não ocupou o centro da campanha.

O segundo grande eixo é a segurança. O Brasil conseguiu reduzir significativamente a taxa de homicídios ao longo de determinados períodos e alguns indicadores de criminalidade apresentam melhorias, mas o crime organizado continua a ser um dos maiores desafios do país, sobretudo nas grandes áreas metropolitanas. São Paulo e Rio de Janeiro continuam a enfrentar organizações criminosas com uma capacidade financeira, territorial e operacional que ultrapassa aquilo que tradicionalmente se entende por criminalidade comum. Flávio Bolsonaro conseguiu ocupar claramente este espaço político ao defender uma política de segurança mais dura e ao propor, entre outras medidas, a classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. Independentemente da avaliação jurídica ou política desta proposta, existe aqui uma mensagem eleitoral bastante simples: perante um problema complexo, Flávio apresenta-se como o candidato disposto a adoptar medidas mais duras.

O terceiro eixo é aquilo que poderíamos chamar de paradigma político ou atmosfera geracional. Lula chega a esta eleição com uma longa história política e 81 anos, enquanto Flávio Bolsonaro, aos 45 anos, representa uma geração política diferente. Isto não significa que Flávio seja um candidato completamente novo. Pelo contrário, está profundamente associado ao bolsonarismo e à família Bolsonaro. Mas existe uma diferença importante entre representar um movimento político e já ter exercido a Presidência da República. Jair Bolsonaro deixou uma marca política extremamente forte no Brasil, mas também acumulou desgaste, controvérsia e rejeição durante o seu mandato. Flávio pode beneficiar de uma situação paradoxal, ao preservar grande parte da identidade política do bolsonarismo sem carregar directamente a experiência de ter governado o país.

É também por isso que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria algo maior do que uma simples alternância presidencial. Significaria a consolidação da família Bolsonaro como uma dinastia política. O fenómeno teria algumas semelhanças com aquilo que se observa nos EUA com a família Trump, embora os contextos históricos e institucionais sejam diferentes. O ponto central é que o bolsonarismo poderia demonstrar que não depende exclusivamente da figura de Jair Bolsonaro e que conseguiu transformar-se num movimento político capaz de sobreviver à sua liderança directa. Flávio conseguiu preservar uma parte muito significativa do eleitorado do pai e, ao mesmo tempo, captar votos provenientes de eleitores cujo principal factor de decisão é a rejeição de Lula.

Nem todos os eleitores de Flávio são necessariamente bolsonaristas. Da mesma forma, nem todos os eleitores de Lula são necessariamente petistas. Existe uma parcela significativa do eleitorado que vota sobretudo contra alguém. É essa lógica de rejeição que torna a eleição particularmente difícil de prever e que explica também uma das grandes contradições da política brasileira actual. Os dois candidatos que chegaram à segunda volta são precisamente aqueles que concentram níveis muito elevados de rejeição. Lula e Flávio apresentavam, antes da votação, taxas de rejeição próximas dos 45%, o que significa que uma parcela muito significativa dos brasileiros não vê nenhum dos dois como a sua primeira escolha.

A abstenção acrescenta uma dimensão ainda mais importante. Mais de 21% dos eleitores não participaram na primeira volta, representando dezenas de milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo, existem milhões de votos atribuídos aos candidatos que ficaram fora da segunda volta e que agora terão de ser redistribuídos. A eleição de 25 de outubro será, portanto, também uma disputa pela mobilização de quem não votou e pela conquista dos eleitores que escolheram outras candidaturas. Para Lula, este é um desafio particularmente importante porque preservar a sua base eleitoral pode não ser suficiente. Será necessário encontrar novos eleitores num espaço político onde a rejeição ao seu nome é elevada e onde a mensagem de continuidade pode ter menor capacidade de mobilização.

O paradoxo é que existe uma enorme insatisfação com o estado das coisas, mas não existe neste momento uma terceira via suficientemente forte para canalizar essa insatisfação. Os brasileiros que rejeitam simultaneamente Lula e o bolsonarismo tiveram candidatos alternativos, mas esses candidatos não conseguiram transformar essa rejeição numa força eleitoral capaz de disputar a Presidência. A escolha acaba, assim, por ficar novamente concentrada em dois campos que representam dois ethos políticos muito diferentes e que, simultaneamente, parecem ser rejeitados por uma parte considerável da sociedade.

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderá aproximar politicamente o Brasil dos EUA e da administração Trump. Flávio tem procurado construir essa relação e existe uma convergência evidente em matérias. A dimensão económica do Brasil, a sua posição no comércio internacional e a diversificação das suas relações externas tornam improvável uma política externa exclusivamente orientada para Washington. Ainda assim, uma mudança política em Brasília teria consequências relevantes para o equilíbrio regional e para a posição brasileira no sistema internacional.

O Brasil insere-se, aliás, num contexto latino-americano mais amplo de transformação política. Em vários países da região têm surgido movimentos e governos de direita radical populista que exploram temas como segurança, imigração, combate às elites políticas tradicionais, redução do peso do Estado ou rejeição das agendas progressistas. Existe um padrão regional de insatisfação com as instituições tradicionais e de procura de respostas políticas mais disruptivas. O Brasil, pela sua dimensão económica, populacional e geopolítica, terá necessariamente um peso muito maior nesse movimento do que qualquer outro país da região.

É por isso que a eleição brasileira não deve ser observada apenas como uma disputa doméstica. O que está em causa é também o posicionamento de uma das maiores economias do mundo, de um dos países mais importantes do Sul Global e de um actor central nas relações entre América Latina, EUA, China e Europa. Para Portugal, a relevância é ainda maior. Brasil e Portugal mantêm relações económicas, culturais e sociais que ultrapassam largamente a relação diplomática tradicional. Existem empresas com interesses dos dois lados do Atlântico, comunidades significativas em ambos os países e uma relação política estruturada também através da CPLP. Uma alteração significativa na orientação política brasileira terá inevitavelmente repercussões sobre essas relações.

Portugal deve, por isso, acompanhar atentamente aquilo que acontecer no Brasil. Não por uma questão de preferência ideológica, mas porque o Brasil é demasiado importante para a economia portuguesa, para a comunidade lusófona e para a própria posição de Portugal no Atlântico para que as mudanças políticas em Brasília sejam vistas como um assunto exclusivamente brasileiro.

No fundo, a eleição de 2026 revela uma contradição que provavelmente continuará para além de 25 de outubro. O Brasil é suficientemente grande e diverso para produzir diferentes visões sobre o seu futuro, mas não encontrou ainda uma força política capaz de conciliar essas diferenças fora da lógica cada vez mais rígida do lulismo e do bolsonarismo. É dificil prever esta complexidade. Como disse Tomo Jobim, “o Brasil não é para principiantes”.

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