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Thursday, October 29, 2026

Petistas veem Flávio tentar sabotar relação Lula-Trump e se enfraquecer ao se proclamar presidente

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Aliados do presidente Lula (PT) avaliam que os movimentos do senador e candidato derrotado à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nos Estados Unidos são uma armadilha para tentar sabotar a relação entre o petista e o líder do país norte-americano, Donald Trump.

O grupo político do chefe do governo brasileiro também acredita que a ida do adversário para o exterior tende a dispersar seu eleitorado. No último domingo (25), Flávio Bolsonaro teve 59,8 milhões de votos para presidente da República e perdeu para Lula por 3,6 pontos percentuais.

Flávio fugiu do Brasil na terça-feira (27), desembarcando em Miami, nos Estados Unidos, nesta quarta (28). Ele saiu do país após o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes determinar a entrega de seus passaportes por causa de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro –o senador nega irregularidades.

Nesta quarta, o senador do PL divulgou uma carta em que se proclamava "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Depois, atualizou o documento e referiu-se a si mesmo como "líder do Brasil". Ele afirma, sem apresentar prova alguma, que a eleição brasileira foi fraudada. Na véspera, Flávio havia dito que desistiria de anular a eleição na Justiça, e declarou que não fugiria do país.

Flávio se compara, na carta, com líderes históricos que deixaram seus países. Um dos exemplos citados no documento é o do general Charles De Gaulle, que comandou a resistência francesa contra a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial a partir de Londres.

"É um ato de conspiração contra o Brasil e contra os interesses do Brasil", disse o líder do governo no Congresso Nacional, Randolfe Rodrigues (PT-AP), sobre a carta. "Creio que a própria democracia americana e até o governo do senhor Donald Trump não vão cair nessa esparrela de buscar uma briga contra uma nação", declarou ele.

"A atitude de Flávio ultrapassa limites e se constitui em traição à pátria, tentando criar instabilidade com parceiros seculares como Argentina e EUA", disse o líder do governo na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta (PT-RS).

A referência à Argentina é pelo fato de Flávio ter deixado o Brasil através do país vizinho. Ele teria cruzado a fronteira e embarcado em um avião privado de lá rumo a Miami, com escala no Equador. O presidente argentino, Javier Milei, assim como Trump, são parte do movimento internacional de direita que o bolsonarismo também integra.

Setores próximos a Lula avaliam que Flávio Bolsonaro busca provocá-lo a tomar atitudes ou dar declarações que desgastem a relação com Donald Trump. A ideia seria não reagir. O governo brasileiro tenta minimizar atritos com os americanos para lidar com problemas mais pragmáticos, como a negociação do tarifaço.

Alas do governo americano, como o Departamento de Estado, costumam pressionar a gestão petista. Lula e Trump, porém, têm uma relação pessoal descrita por ambos como boa. Na tarde desta quarta, o presidente dos Estados Unidos disse que seu governo autorizou Flávio a entrar no país, mas que não comentará a autoproclamação do senador nem se envolverá no caso.

Diversos aliados de Lula relataram à Folha a avaliação de que a fuga de Flávio Bolsonaro é benéfica para o presidente reeleito.

A análise é que o senador abandonou um patrimônio eleitoral imenso e desorganizou a oposição, que agora precisará construir uma nova opção de poder –ou seja, um nome forte e incontestável em seu campo político para disputar a próxima eleição presidencial contra o grupo de Lula.

Setores petistas acreditam ser possível até mesmo atrair para a órbita do presidente brasileiro parte do eleitorado que votou em Flávio Bolsonaro. O raciocínio, nesse caso, é que a fuga é desmoralizante e decepciona pessoas que nunca foram entusiastas do senador, mas que votaram nele apenas por não gostar de Lula.

O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), por exemplo, deu uma declaração na terça-feira (27) mirando eleitores descontentes do senador bolsonarista. "Quero aqui manifestar a minha total solidariedade aos quase 60 milhões de brasileiros e brasileiras que acreditaram na candidatura do Flávio Bolsonaro", disse ele no plenário da Câmara.

Partidos de centro-esquerda e de esquerda, incluindo o PT, também divulgaram uma nota em que afirmam que a contestação do resultado "não se sustenta", lembram que o próprio PL reconheceu o resultado das urnas e declaram que Flávio Bolsonaro "fugiu do Brasil para não enfrentar a Justiça brasileira".

O senador é investigado em duas ações criminais no STF, sob suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes no âmbito do caso do Banco Master e dos desvios no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). A partir de fevereiro, quando deixará o mandato, ele perde o foro especial na Suprema Corte brasileira.

PT, PC do B, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT assinam o comunicado.

As siglas citam que a prorrogação do horário de votação no segundo turno, autorizada pelo ministro do STF Cristiano Zanin no domingo (25), atendeu a um pedido das duas campanhas, tanto de Flávio quanto de Lula, e que só 34.330 votos, ou 0,03% do total, foram registrados após as 17h.

Também mencionam as declarações do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, reconhecendo o resultado eleitoral.

"A soberania popular se manifestou através do voto livre e universal, após dois turnos, com a eleição incontestável dos representantes do povo para Câmara dos Deputados, Senado Federal, Assembleias Legislativas e Distrital, além dos Governadores e Presidente da República", afirmam.

Além disso, os partidos repetem o mote "O Brasil não é quintal de ninguém", usado por Lula e apoiadores durante a campanha, e criticam o fato de o governo Trump ter prestado ajuda ao senador derrotado.

"O Brasil não aceita interferência estrangeira em seu processo democrático [...] Não por acaso, o candidato derrotado buscou abrigo justamente junto a Trump, que atuou abertamente para interferir em nossas eleições", diz, sem apresentar provas.

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