Assim cantou no início, quando Jorge ainda não era "o Palma"

Na sua toada entre a folk e o prog, não é possível uma canção soar mais setentista: os arranjos de cordas melancólicos, a guitarra delicadamente titubeante, as teclas de elegância clássica, os coros fantasmagóricos. Em The Nine Billion Names Of God, julgamo-nos perante um qualquer single saído da pródiga safra do rock progressivo que ecoava a partir do Reino Unido nesta altura. Mas depois ouvimos a voz e dá-se um caso agudo de dissonância cognitiva: “não pode ser, mas isto é o Jorge Palma… a cantar em inglês?!”
Morreu a 21 de setembro, aos 76 anos, um dos maiores titãs da música portuguesa, responsável por ajudar a balizar o que significa ser um cantautor nesta língua. Mas antes de Só, de Frágil, de Bairro do Amor ou de Dá-me Lume, Jorge Palma teve de começar por algum lado. Desde que se sentou pela primeira vez à frente de um piano até lançar o disco de estreia, Com Uma Viagem na Palma da Mão, em 1975, o músico passou por várias aprendizagens que moldaram o artista que viria a eternizar-se nas suas canções.
Jorge Palma (1950-2026): o prodigioso apaixonado que reinventou a canção portuguesa
Como revelou numa entrevista a Ana Sousa Dias em 2005, das primeiras vezes que começou a tocar piano, Jorge Palma nem sequer conseguia chegar com os pés ao chão, tendo fotografias para prová-lo. Tinha seis anos e estava a aprender sob a tutoria de Maria Fernanda Chichorro. Dois anos depois, ingressava como aluno externo no Conservatório Nacional de Lisboa, e outros cinco mais tarde, já na entrada da adolescência, conquistou um segundo lugar ex-aequo no Concurso Internacional de Piano em Palma de Maiorca, como recorda o investigador musical João Carlos Callixto.
A habilidade precoce, aliada ao treino clássico, podia ter resultado numa carreira entre pautas e batutas, mas Jorge Palma foi antes “desviado pelo rock para a gandulagem”, como admitiria na sua biografia oficial, Na Palma da Mão, escrita por Pedro Teixeira. O som dos Beatles, dos Rolling Stones e dos The Who que emanava de uma jukebox numa taberna junto ao Liceu Camões seduziu-o e fê-lo mandar “o piano e a música clássica às urtigas”, revelou no âmbito do documentário Vejam Bem, da RTP.
Essa rebeldia, no entanto, não se ficou por trocar Beethoven por Bob Dylan, já que essa “necessidade de transgressão foi-se manifestando, na procura pelos mais velhos e os mais malandros”. Acabou expulso do Camões quando foi apanhado a “fugir pelos telhados” quando havia furo entre aulas, com a mãe a colocá-lo no colégio interno Infante de Sagres, em Mouriscas, perto de Abrantes. Foi nas tabernas desta localidade do Ribatejo onde descobriu o que era beber e fumar — a única coisa que era proíbida aos alunos era “conversar com as meninas” —, mas a experiência também fê-lo descobrir o que era fazer parte de uma banda, os The Dandy, onde assumiu a guitarra ritmo.
Regressado a Lisboa, entre a finalização do ensino liceal no Colégio Académico e o início de um curso de Engenharia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Jorge Palma integrou várias bandas: os Black Boys — que conheceu quando foi para o Algarve no verão de 1967 —, os Jets — uma das primeiras bandas de rock psicadélico do país — os Extravaganza e os Beatniks. Apesar de importantes para o seu desenvolvimento artístico, nenhuma destas passagens logrou resultados duradouros. Tal só aconteceria ao entrar nos Sindicato, em 1971, projeto onde experimentou a liberdade do jazz a meias com a energia do rock.
1971 e o Festival Vilar de Mouros: a revolução de agosto com abril à espreita
Banda onde podia contar com a familiaridade de já ter tocado com dois dos seus membros, Ricardo Levy e Júlio Gomes, nos Jets, Jorge Palma teve ainda a hipótese de ombrear com destacadas figuras em início de carreira, como Rão Kyao e Vítor Mamede, e outras já com traquejo na cena nacional, como Edmundo Falé. Mais importante ainda, foi com os Sindicato que pisou o palco da lendária edição inaugural do Festival Vilar de Mouros, em 1971, e gravou a sua primeira canção a merecer edição discográfica, Smile, lançada num single do mesmo nome e produzida por Luís Villas-Boas.
“Esse trabalho com a banda, além do gozo, deu-me também mais pedalada e visibilidade. Não estou a falar do público, mas entre os meus pares, entre os músicos”, contou à Antena 1 numa série de entrevistas retrospetivas de carreira em 2022. Foi assim que toda a gente que importava no mundo da música em Portugal ficou a par do “puto que tinha jeito para isto, para tocar nas teclas do piano e sintetizadores”, completou.
Essa foi, oficialmente, a primeira de muitas canções que viria a escrever, sozinho ou em colaboração, ao longo da carreira. O arranque da carreira a solo, no entanto, chegaria um ano depois, quando os Sindicato acabaram e desistiu do curso.
Entre os ensinamentos de Arthur C. Clarke e Ary dos Santos, nasce um artista
Em 1972, Jorge Palma iniciou oficialmente a sua carreira a solo, ainda que com um lançamento que pouco se assemelha ao estilo de música que o afamou. De um lado The Nine Billion Names of God, do outro Come, Morpheus, o seu primeiro single em nome próprio foi também a única gravação integralmente em inglês que fez em toda a carreira. O artista — que iniciara a sua formação literária com os poetas Beat, com as canções de Dylan, de Paul Simon e de Crosby Stills and Nash e com os versos de Camões, Pessoa e Herberto Helder — teria como inspiração para esta canção estreante um conto de ficção científica de Arthur C. Clarke.
“Gostei muito desse conto, The Nine Billion Names of God, que é um conto pequeno em que há um confronto entre a mística, o espiritualismo dos monges tibetanos, e os computadores do mundo ocidental. E consegui, num inglês ainda académico, fazer uma canção que não está nada mal feita. Tinha eu nessa altura 22 anos”, afirmou ao Público em 2022. Essa reminiscência ocorreu a propósito de Antologia, uma série de concertos que decorreram nesse ano e em que revisitou todas as fases da sua carreira.
Para que Jorge Palma gravasse e lançasse as suas primeiras músicas em nome próprio, foi preciso que os astros se alinhassem, e por “astros” entendam-se várias figuras de suma importância no panorama musical à época. Um deles foi o maestro Thilo Krasmann, que lhe cedeu o espaço e lhe gravou a maquete apesar de o jovem músico não ter qualquer editora a apoiá-lo. Os outros foram Arnaldo Trindade e Carlos Cruz, ambos à frente da Orfeu, que gostaram do que Palma lhes mostrou e possibilitaram a gravação oficial. É deste momento cimeiro que resulta uma das mais famosas histórias do artista em início de carreira: o pagamento por The Nine Billion Names of God. “O Arnaldo Trindade tinha negócios de eletrodomésticos. Além de direitos de autor, o que eu recebi por esse disco foi um frigorífico e uma máquina de lavar roupa”, contou nessa mesma entrevista à Antena 1.
O lançamento não foi um sucesso — ”fizeram uma edição de 300 ou 500 discos e acho que aquilo vendeu três ou quatro, mas ofereceram-me muitos para os amigos e a família. As coisas foram-se processando assim”, afirmou em entrevista à Sociedade Portuguesa de Autores —, mas serviu para abrir-lhe ainda mais portas. A partir de 1973, começa a acumular trabalhos como orquestrador, músico de estúdio e compositor; só nesse ano participa em lançamentos de Tonicha, Rui de Mascarenhas, Orlando Rosa-Limpo e Valério Silva. Até ao final da década, somaria ainda importantes colaborações com Paco Bandeira, Beatriz da Conceição, José Almada, Adelaide Ferreira e Amália Rodrigues.
Havia, no entanto, algo a incomodar Jorge Palma: a língua portuguesa, que cultivaria como poucos nas décadas vindouras, encravava ainda na sua garganta. Se depois do seu primeiro single se apercebeu que não fazia sentido “continuar a cantar em inglês, até porque em Portugal muito pouca gente entendia”, ao mesmo tempo “não conseguia escrever em português, não cabiam as frases”, recordou à RTP. Reunido no café Vavá com o amigo Fernando Tordo, partilha-lhe esta inquietação, pelo que este lhe sugere que vá falar com José Carlos Ary dos Santos. “Liguei-lhe e, nesse mesmo dia, disse-me logo ‘vem daí e traz a guitarra’. Foi o princípio de uma grande amizade e de uma grande aprendizagem com o mestre”, lembrou à Antena 1.
Sob a asa do grande poeta, Jorge Palma não só foi introduzido a um meio intelectual que o politizou à esquerda, como aprendeu a melhor exprimir-se. “Ele era um génio, e eu não só alarguei as minhas capacidades de escrever em português, como a escrever nas entrelinhas. Muita gente aprendeu a dizer as coisas de uma forma subtil”, contou, recordando os anos finais da censura. Esse seria um ensinamento para a vida já que essa subtileza adquirida permitiu-lhe dizer o que queria nas suas canções sem nunca chegar a ser panfletário ou partidário.
Foi então com Ary dos Santos que finalmente se arriscou a escrever em português, com o resultado dessa experiência plasmado em A Última Canção, de 1973. Trata-se de um EP de quatro canções gravado no histórico Estúdio Polysom e lançado pela Zip Zip. No Lado A, Arraial e 20 Anos são composições integralmente suas, e no Lado B, A Última Canção e Colheita contam com os poemas do seu tutor; recordando este lançamento, Jorge Palma descreveria os temas do Lado A como “eu a querer emular o Ary, imitar o mestre”.
Ao contrário de The Nine Billion Names of God, que foi reeditado em 2022 e está disponível em todas as plataformas, os temas de A Última Canção caíram praticamente no esquecimento, sendo muito difícil encontrar registos online. Do pouco que se consegue escutar, é possível notar o seu autor em mutação artística, pendendo ora para o “rock sinfónico”, ora para a canção orquestral e grandiloquente da época. Este lançamento decorreu também antes de uma profunda mudança na vida de Jorge Palma, quando trocou Lisboa por Copenhaga.
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