Aos 47 anos, voltei a ser iniciante
Depois de mais de 25 anos trabalhando na mesma área, existe uma sensação confortável em dominar aquilo que fazemos. Conhecemos os problemas, reconhecemos padrões, acumulamos experiência e aprendemos a tomar decisões com alguma segurança. Aos 47 anos, quando comecei a me envolver mais profundamente com empreendedorismo, descobri que estava prestes a perder boa parte desse conforto.
Na medicina, eu havia passado décadas construindo conhecimento. No mundo dos negócios, comecei a entrar em reuniões em que surgiam assuntos sobre os quais eu sabia muito pouco. Tecnologia, regulação, investimentos, gestão, comunicação, estrutura societária. De repente, depois de tantos anos sendo procurado para dar respostas, voltei a ser a pessoa que fazia perguntas.
O desafio de voltar a ser iniciante
Existe uma dificuldade particular em voltar a ser iniciante depois que você se acostumou a ser experiente. Não é apenas aprender algo novo. É aceitar que sua experiência anterior, embora valiosa, não lhe dá automaticamente domínio sobre o próximo território.
Durante algum tempo, achei que a experiência deveria me fornecer respostas melhores. Hoje penso de outra maneira. Talvez uma das maiores vantagens de ter vivido e trabalhado por muitos anos seja aprender a formular perguntas melhores. Experiência não elimina a necessidade de aprender. Em alguns momentos, ela apenas nos ajuda a perceber mais rapidamente aquilo que ainda não sabemos.
Empreender tem me colocado nessa posição repetidamente. Uma questão aparentemente simples pode exigir conhecimento de áreas completamente diferentes. Em vez de tentar dominar todas elas, comecei a entender que meu papel também é encontrar quem conhece aquele assunto, ouvir, comparar opiniões e conseguir tomar uma decisão mesmo sem ter todas as respostas.
Uma carreira pode ter mais de um começo
Isso muda a relação com a própria carreira. Durante muito tempo, imaginamos uma trajetória profissional como uma escada: aprendemos, ganhamos experiência, avançamos e chegamos a um estágio em que finalmente dominamos nossa atividade. Uma vida profissional mais longa talvez torne essa imagem menos verdadeira. Podemos passar décadas subindo uma escada e, em determinado momento, escolher começar outra.
Não considero simples fazer isso. Existe o medo de abandonar uma posição conhecida, de cometer erros que um iniciante comete e até de parecer menos competente justamente quando passamos anos construindo uma reputação. Mas há também algo estimulante em descobrir que experiência e novidade não precisam ser opostas.
Hoje, percebo que não abandonei os 25 anos anteriores para começar outra coisa. Levei comigo conhecimento, relações, disciplina e uma maneira de observar problemas. O que precisei abandonar foi a expectativa de que tudo isso me permitiria começar a nova fase já sabendo como fazê-la.
Começar de novo não significa voltar ao zero
Talvez este seja um dos efeitos menos discutidos de carreiras que tendem a ficar mais longas. Aos 40, 50 ou 60 anos, mais pessoas poderão ter diante de si tempo suficiente para construir uma segunda ou terceira trajetória profissional. Isso exigirá algo que não costumamos associar à experiência: disposição para voltar a ocupar a posição de aprendiz.
Aos 47 anos, descobri que começar de novo não significa voltar ao zero. Significa chegar a um território desconhecido carregando tudo aquilo que aprendemos no caminho. A experiência talvez não nos dê as respostas para a próxima etapa. Mas pode nos ensinar algo igualmente valioso: quais perguntas merecem ser feitas.
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