Da terra ao ativo digital, a tokenização começa a ganhar espaço no Brasil
Durante muito tempo, falar em tokenização no Brasil significava, imaginar uma discussão restrita ao universo das criptomoedas. Essa associação começa a perder força. A tecnologia passou a ser utilizada para representar direitos, garantias e ativos que existem fora do ambiente digital, aproximando setores tradicionais de uma infraestrutura capaz de registrar informações, facilitar transações e criar novas formas de acesso a determinados bens.
Esse movimento chama atenção justamente porque acontece em mercados nos quais o valor já existe e é conhecido: imóveis, recebíveis, produção agrícola e até rebanhos. O que muda é a maneira como esse valor pode ser representado, comprovado e utilizado em uma operação financeira. O Brasil já começa a observar exemplos concretos dessa transformação, ao mesmo tempo em que reguladores e instituições financeiras avançam na construção das regras necessárias para que essas iniciativas deixem de ser experimentais.
No mercado imobiliário, por exemplo, a tokenização vem sendo utilizada para representar propriedades ou frações de empreendimentos, permitindo estruturar digitalmente direitos que tradicionalmente dependem de processos mais fragmentados. O movimento ganhou escala a ponto de o setor já discutir bilhões de reais em ativos imobiliários tokenizados no país. A relevância desse modelo, porém, não está apenas na possibilidade de dividir um imóvel em pequenas partes. Está na criação de uma nova camada de infraestrutura para organizar a relação entre propriedade, documentação, investimento e transferência de direitos.
No agronegócio, muitos ativos têm características que dificultam sua utilização em operações de crédito. Um exemplo recente envolve dez vacas leiteiras que foram utilizadas como garantia de um empréstimo de R$ 100 mil registrado na B3. Dados coletados por sensores instalados nos animais ajudaram a criar uma identificação digital do rebanho e a estruturar a operação. Mais do que uma curiosidade tecnológica, o caso revela um caminho importante: transformar informações dispersas sobre um ativo físico em uma estrutura capaz de dar mais segurança a uma decisão financeira.
A tokenização deixa de ser uma palavra associada apenas ao mercado cripto. Um ativo físico não se torna mais valioso simplesmente porque ganhou umam representação digital. O ganho está em conseguir estabelecer uma relação confiável entre aquilo que existe no mundo físico e aquilo que é registrado digitalmente. Quanto melhor essa conexão, maior o potencial para reduzir incertezas, facilitar verificações e criar possibilidades de uso para ativos que antes tinham pouca flexibilidade dentro do sistema financeiro.
Essa lógica pode ser aplicada a praticamente qualquer ativo cuja existência, propriedade, condição ou evolução possa ser acompanhada de maneira confiável. É o que torna especialmente promissor o uso da tecnologia no campo ambiental e florestal. Uma muda plantada hoje não representa apenas um objeto físico. Ela pode estar associada a informações sobre origem, espécie, localização, crescimento, manejo e, futuramente, aos benefícios econômicos e ambientais gerados ao longo do tempo.
Organizar essas informações de forma estruturada cria a possibilidade de acompanhar a trajetória daquele ativo desde o plantio até sua maturidade.
O desafio, nesse caso, é maior do que criar um registro digital. É necessário garantir que as informações associadas àquele registro correspondam ao que realmente acontece fora da plataforma. Uma muda precisa existir, estar onde foi registrada e seguir uma trajetória que possa ser acompanhada. Uma árvore precisa continuar sendo uma árvore no mundo físico, independentemente do ativo digital que a representa. Essa conexão entre os dois ambientes é o que determina a qualidade de qualquer projeto de tokenização.
Por isso, talvez a principal mudança trazida por essa tecnologia não esteja na criação de novos ativos, mas na possibilidade de dar novas formas de representação a ativos que já existem. Quando uma informação sobre um imóvel, um rebanho, uma produção agrícola ou uma árvore pode ser registrada e relacionada de maneira confiável ao ativo físico correspondente, abre-se espaço para novas estruturas de financiamento, acompanhamento e transferência de direitos. A tecnologia passa, então, a atuar menos como uma novidade isolada e mais como parte da infraestrutura que conecta diferentes mercados.
O próprio ambiente institucional brasileiro mostra que essa discussão amadureceu. Em julho de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários criou um Grupo de Trabalho de Tokenização para estudar aplicações, realizar testes e formular recomendações relacionadas ao uso de tecnologias de registro distribuído em atividades do mercado de capitais. A B3, por sua vez, vem defendendo que a próxima etapa da tokenização depende da construção de infraestrutura capaz de integrar diferentes participantes, garantir segurança jurídica e permitir que essas soluções funcionem em escala.
Esse processo é importante porque a tokenização não deve ser avaliada pelo número de ativos que podem ser transformados em tokens, mas pela utilidade que essa transformação gera. Um projeto bem estruturado precisa responder a uma pergunta simples: o que passa a ser possível fazer de maneira melhor, mais segura ou mais eficiente depois que determinado ativo ganhou uma representação digital?
No caso de imóveis, isso pode significar novas formas de acesso e estruturação de investimentos. No agronegócio, pode significar transformar informações sobre ativos produtivos em elementos mais úteis para o crédito. No setor florestal, pode abrir caminho para acompanhar ativos ambientais ao longo de anos, criando uma base mais organizada para futuras aplicações econômicas e financeiras.
O Brasil tem uma característica que pode favorecer esse movimento: uma economia grande e diversificada, com ativos físicos relevantes e cadeias produtivas que dependem cada vez mais de informação. Nesse contexto, a tokenização encontra um campo que vai muito além das criptomoedas.
Ela pode se tornar uma ferramenta para aproximar aquilo que está no mundo físico da forma como o mercado registra, acompanha e atribui valor aos ativos.
O próximo passo, portanto, não será simplesmente tokenizar mais coisas. Será possível aprender quais ativos realmente se beneficiam desse modelo, quais informações precisam acompanhá-los e quais regras devem garantir que a representação digital corresponda, de fato, ao patrimônio que ela pretende representar.
*Renato Carneiro é Desenvolvedor Sênior do Centro de Excelência em Blockchain do Venturus
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