AAS infantil ainda existe? Entenda o alerta que mudou o uso do remédio em crianças
O AAS infantil fez parte por décadas do tratamento de dores e febre em crianças no Brasil. Anúncios antigos apresentavam os comprimidos de 100 mg como uma opção de sabor agradável ao público infantil, enquanto formulações dessa dosagem chegaram a incluir essência de morango.
A memória afetiva em torno do AAS infantil ainda aparece nas redes sociais, onde o medicamento virou tema de "memes" que brincam justamente com o sabor associado aos comprimidos. Em uma das imagens que circulam na internet, a legenda ironiza que o AAS infantil seria "delicioso demais".
@voltandolanotempo quem nunca kkkk #fyp #aas #nostalgic #infancia ♬ som original - Voltando.no.tempo.com.a.rafa
A presença do AAS no universo infantil pode ser observada também na forma como o medicamento era apresentado ao consumidor. Um anúncio preservado na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional oferecia comprimidos de 500 mg para adultos e uma apresentação infantil de 100 mg.
A publicidade destacava que o produto era "bem aceito pelas crianças por seu agradável sabor."
A relação aparentemente cotidiana com o ácido acetilsalicílico começou a mudar à medida que estudos associaram o uso de salicilatos durante determinadas infecções virais à Síndrome de Reye, uma doença rara e grave que pode comprometer o fígado e o cérebro.
Como a Síndrome de Reye mudou a história do AAS
No Brasil, um dos principais marcos dessa mudança ocorreu em abril de 2001. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que medicamentos pediátricos à base de ácido acetilsalicílico trouxessem uma advertência sobre o risco da Síndrome de Reye.
As empresas receberam 90 dias para alterar as embalagens, segundo reportagem publicada pela imprensa na época. Os estoques existentes nas farmácias deveriam ser recolhidos para adequação.
O objetivo era evitar que pais administrassem o medicamento para tratar febre sem conhecer sua causa, em um período em que produtos com ácido acetilsalicílico podiam ser encontrados sem receita até em supermercados e lanchonetes.
A advertência adotada pela Anvisa deixava explícita a necessidade de orientação médica diante de infecções comuns para o período. "Crianças ou adolescentes não devem usar este medicamento para catapora ou sintomas gripais", pontuou.
A frase continuava orientando a consulta a um médico a respeito da Síndrome de Reye antes do uso do medicamento. Anos depois, a Anvisa manteve advertências específicas para produtos com ácido acetilsalicílico e classificou a síndrome como uma doença rara, mas grave.
O que é a Síndrome de Reye
A Síndrome de Reye é uma doença rara que ocorre, principalmente, em crianças e adolescentes e está associada a alterações no fígado e no cérebro. Segundo a Anvisa, a condição pode aparecer durante a recuperação de uma infecção viral ou alguns dias depois do início da virose.
O órgão destaca especialmente infecções causadas pelo vírus da varicela e pelos vírus influenza A e B. Nessas situações, o risco de ocorrência da síndrome pode aumentar com o uso de ácido acetilsalicílico, embora a Anvisa ressalte que uma relação causal não foi claramente estabelecida.
O Ministério da Saúde também chama atenção para essa associação ao tratar da catapora. Segundo a pasta, a Síndrome de Reye ocorre especialmente em crianças e adolescentes que utilizam AAS durante a fase aguda da doença.
O quadro pode começar com vômitos e evoluir com irritabilidade, inquietação, redução progressiva do nível de consciência e edema cerebral. A doença envolve comprometimento hepático agudo seguido de comprometimento cerebral, segundo o Ministério.
Por essa razão, a orientação oficial é de que o AAS não seja utilizado por pacientes com catapora. A própria Anvisa descreve a Síndrome de Reye como "uma doença muito rara, mas com possível risco de morte". O órgão informa ainda que a condição exige intervenção médica imediata.
O alerta começou antes fora do Brasil
A preocupação com o uso de aspirina durante infecções virais em crianças já havia levado a recomendações sanitárias nos Estados Unidos no início dos anos 1980. Em 1982, o Surgeon General americano recomendou que medicamentos contendo salicilatos não fossem usados em crianças com gripe ou catapora.
O documento do governo americano afirmava que os estudos disponíveis mostravam uma associação suficientemente forte com a Síndrome de Reye para justificar um alerta dirigido a pais e profissionais de saúde. Décadas depois, o Centers for Disease Control and Prevention continua fazendo a mesma recomendação.
Em orientação atualizada sobre influenza, o órgão informa que a Síndrome de Reye se tornou muito rara em associação com a gripe depois que o uso de aspirina por crianças com influenza ou varicela passou a ser desencorajado, a partir de 1982.
A mudança nas embalagens brasileiras
No Brasil, a regulamentação ganhou forma em 2001 após uma resolução determinar a inclusão de advertência nos rótulos de medicamentos de uso pediátrico à base de ácido acetilsalicílico. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União e repercutida pela imprensa.
Em 2003, a Anvisa voltou a tratar formalmente do assunto e determinou alterações nas bulas de medicamentos com diferentes princípios ativos e incluiu novamente a advertência específica para o ácido acetilsalicílico.
O texto orientava que crianças e adolescentes com catapora ou sintomas gripais não usassem o medicamento antes de uma consulta médica sobre a Síndrome de Reye.
AAS infantil não desapareceu das farmácias
A adoção dos alertas não significou a retirada do ácido acetilsalicílico do uso pediátrico em todas as circunstâncias. O medicamento continua disponível e pode ser indicado para crianças em situações específicas, sempre considerando suas contraindicações e as orientações médicas.
O sabor continuou sendo uma característica de algumas formulações de baixa dosagem. Uma bula oficial da EMS para ácido acetilsalicílico de 100 mg lista sacarina sódica, vanilina e essência de morango entre os componentes do comprimido.
O documento da EMS também reproduz a advertência relacionada à Síndrome de Reye e orienta cuidado diante de enfermidades virais, em especial a varicela. A bula afirma que o uso em crianças deve considerar a relação entre riscos e benefícios diante da possibilidade da síndrome.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.