Pela primeira vez, latino-americanos gostam mais da China do que dos Estados Unidos, diz pesquisa
Nos 20 meses desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, candidatos de direita venceram as sete eleições presidenciais realizadas na América Latina. Muitos deles concorreram como imitadores de Trump, vociferando contra a imprensa e o "marxismo cultural".
Por isso, a mais recente pesquisa Latinobarómetro, realizada em 17 países e publicada com exclusividade pela The Economist, é intrigante: a visão dos latino-americanos sobre os Estados Unidos piorou desde a volta do republicano. A parcela que tem uma opinião favorável caiu de 73% em 2024 para 63%.
Os EUA ainda são mais benquistos do que a China. Mas, pela primeira vez em uma região historicamente pró-americana, os latino-americanos veem a influência chinesa de maneira mais favorável do que a americana: 65% a consideram positiva, ante 57% no caso dos Estados Unidos.
Isso reflete a postura agressiva de Trump em relação a uma região que, na visão dele, seu país deveria dominar. Embora 69% aprovem a captura do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, organizada por Trump em janeiro, apenas 35% acreditam que a intervenção americana beneficiará o país.
Quase dois terços desaprovam a maneira como ele conduz as relações internacionais (embora 61% dos entrevistados venezuelanos a aprovem).
A eleição simultânea de direitistas trumpistas pode ser explicada, em parte, por outra constatação da pesquisa: Nayib Bukele, o presidente linha-dura de El Salvador, continua sendo a figura mais admirada da região.
Cercanías
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
Bukele reduziu drasticamente a taxa de homicídios de El Salvador ao prender um grande número de jovens sem julgamento, apropriando-se, nesse processo, do controle das instituições democráticas. Muitos na América Latina querem uma erradicação semelhante do crime e da insegurança. Os candidatos trumpistas, como Abelardo de la Espriella, hoje presidente da Colômbia, prometem realizá-la.
Apesar da popularidade do autoritário Bukele, metade dos entrevistados continua acreditando na democracia.
Depois de despencar em meados da década de 2010, quando a estagnação econômica se instalou após o fim de um boom das commodities, o apoio à democracia e a suas instituições se estabilizou, embora em um patamar mais baixo.
"Um terço [dos entrevistados] diz que as instituições democráticas não são importantes, mas sempre foi assim", afirma Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro. Apesar de uma pandemia e do baixo crescimento, "o apoio à democracia continua".
A insatisfação com o funcionamento da democracia na prática permanece generalizada. Os parlamentos são particularmente repudiados; apenas 22% se sentem representados por eles. Mas 55% agora afirmam que a democracia não pode funcionar sem partidos políticos, ante 44% em 2023.
Apenas 15% consideram boa a situação econômica de seu país; somente 28% estão satisfeitos com os hospitais públicos, e 30%, com a polícia.
Essa insatisfação levou à derrota eleitoral de muitos governos no poder —recentemente, sobretudo os de esquerda. É importante notar que os latino-americanos ainda acreditam no poder das eleições para promover mudanças.
As disputas presidenciais deste ano coincidiram com um aumento do apoio à democracia na Colômbia, em Honduras e no Peru, onde candidatos de direita venceram, mas não na Bolívia, onde o novo presidente de centro-direita, Rodrigo Paz, vem enfrentando dificuldades econômicas.
Embora a economia ainda seja a principal preocupação da população, a segurança pública ocupa o primeiro lugar em sete países, sobretudo no Equador. A nova direita, mais radical, também se vale do conservadorismo social da América Latina.
Dois terços dos entrevistados são contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo; a mesma proporção se opõe à legalização do aborto. Mas o sul da região é diferente: a maioria na Argentina, no Chile e no Uruguai é favorável a ambos.
Também pode favorecer a direita o fato de os latino-americanos não esperarem muito do Estado. Questionados sobre quanto o Estado havia feito por eles nos três anos anteriores, 73% responderam "pouco ou nada", ante 63% em 2011. Esse percentual elevado reflete o peso da economia informal na região. Apenas 28% afirmam contribuir para a previdência social.
Como em outras partes do mundo, as redes sociais substituíram a televisão, o rádio e, sobretudo, os jornais como principal fonte de informação sobre política. Ainda assim, é difícil estabelecer uma relação direta entre essa mudança e a ascensão de posições políticas mais extremas. Mais de 70% acreditam que as redes sociais não retratam bem "o que a maioria das pessoas pensa".
Apesar dos problemas, os latino-americanos não são tão pessimistas. Um quarto afirma já ter pensado em emigrar, ante 30% em 2023 (alguns podem estar reagindo ao endurecimento da política migratória de Trump).
Apenas 36% acreditam que a situação econômica de seu país melhorará no próximo ano, mas 52% acham que sua própria situação ficará melhor —o maior percentual desde o início da série, em 1995. O lar e a família continuam sendo os alicerces da vida latino-americana.
Texto da The Economist, traduzido por Sidney Fontinele e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
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