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Thursday, October 8, 2026

No corredor da soja, estudante quer ser produtor rural e opta por Flávio Bolsonaro

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Matupá é uma cidade com pouco mais de 20 mil moradores, no norte de Mato Grosso, onde praticamente tudo gira em torno da soja, do milho e do mercado agropecuário. A região é um corredor de grãos, por onde passam no período da safra, todos os dias, entre 2.000 e 3.000 caminhões.

É um lugar com predominância do bolsonarismo, como todas as cidades que estão na linha da BR-163, a rodovia que permitiu a explosão da soja e a degradação da floresta amazônica que remanesce no Centro-Oeste brasileiro. Para o mesmo traçado da rodovia existe um projeto de ferrovia, a Ferrogrão, com 933 km.

Foi para essa cidade que a família de Lourisvan Gondin Viana, 23, mudou-se definitivamente há 12 anos, saída do interior do Maranhão.

A imersão no mundo da soja –sempre como empregados de empresas de médio porte que revendem produtos agrícolas a uma grande firma de commodities e sementes– levou a uma mudança na hora do voto.

Lourisvan diz que a mãe e o padrasto já não votam mais no presidente Lula (PT). O jovem afirma que escolheu Flávio Bolsonaro (PL) na primeira votação e vai repetir o voto no segundo turno da disputa presidencial deste ano.

"Votei em Bolsonaro em 2022. Sei que Flávio não é o pai dele, que tem o nome forte por causa do pai. Mas vou dar um voto de confiança, pois ele pode dar continuidade [ao que foi o governo de Jair Bolsonaro]", diz.

Em 2022, Bolsonaro teve 69,59% dos votos válidos no primeiro turno em Matupá. No segundo turno, ampliou essa proporção para 74,17% dos votos.

O filho avançou ainda mais na cidade, no primeiro turno no último dia 4. Teve 77,58% dos votos válidos, ante 18,58% de Lula. Essa mesma dinâmica de predominância e crescimento do bolsonarismo foi verificada em todas as cidades que estão na linha da BR-163.

Lourisvan nasceu em Arame (MA), outra cidade pequena, com 25 mil habitantes. Os pais se mudaram primeiro para Peixoto de Azevedo (MT), município bem próximo de Matupá e que segue a mesma lógica da soja e da rodovia. A irmã mais nova de Lourisvan, de 21 anos, nasceu em Matupá.

A mãe se separou do pai. Com um novo companheiro e os filhos pequenos, mudou-se de vez para Matupá.

Antes, ainda no Maranhão, ela trabalhou como cozinheira numa frente de exploração de madeira e morou em um assentamento.

"O trabalho no Maranhão é muito difícil. Lá eles exploram muito a mão de obra e ganha-se muito pouco", diz Lourisvan. "Eu passava a tarde toda vendendo pastel com a minha tia para ganhar R$ 2 por dia."

A mudança definitiva para Matupá se deu quando Lourisvan tinha 11 anos. A família passou a morar em uma casa de uma grande empresa de commodities na zona rural, a 18 km da cidade. O padrasto atuava no plantio de soja, na aplicação de agrotóxicos e na manutenção de máquina. A mãe, como cozinheira.

Aos 14 anos, Lourisvan se tornou jovem aprendiz na mesma empresa. Aos 18, foi empregado na área de serviços gerais.

"Eu catava pedra, recolhia o mato no meio da soja e desmanchava cerca", diz. "Depois de uns meses, passei a ajudar na entrega de produtos, no tratamento de sementes e no barracão de veneno, além de ser monitor de lavoura."

O contato com o universo da soja levou o jovem a cursar agronomia em uma universidade particular, onde se forma no fim deste ano. Paga R$ 1.600 de mensalidade.

O estudante quer ser produtor rural na região. Até lá, trabalha como vendedor em uma empresa de revenda de insumos agrícolas, como adubo, agrotóxico e sementes.

Lourisvan acredita que é possível ganhar dinheiro como vendedor para então tentar adquirir a terra que permita a ele ingressar no universo de produtores de soja da região de Matupá.

"Precisa ter um ‘pé de meia’ para entrar", diz. "Aqui já são terras prontas, o que faz com que as culturas se desenvolvam melhor."

A compreensão do voto em Bolsonaro em áreas de expansão da soja –e de desmatamento e exploração de vastos nacos da amazônia– passa pela aversão à maior fiscalização contra crimes ambientais, pela associação da família a valores ditos tradicionais e pela alegação de que Jair e Flávio Bolsonaro apoiam mais o agronegócio do que seus oponentes políticos –o PT, em essência.

Lourisvan diz que seu voto se baseia no que vive no cotidiano. Por isso, ignora casos de corrupção atribuídos ao campo da direita, como a destinação de dinheiro de Daniel Vorcaro, o ex-dono do banco Master, à família Bolsonaro a partir de um pedido de Flávio para a produção de uma cinebiografia sobre o ex-presidente.

Já a punição por tentativa de golpe de Estado –Bolsonaro recebeu a pena mais alta, 27 anos e três meses de prisão, em julgamento há um ano no STF (Supremo Tribunal Federal)– incomoda Lourisvan. "A gente não vê acontecer isso com o lado da esquerda, com os movimentos deles."

Ele afirma que Lula fez um bom primeiro mandato. Depois, segundo o estudante de agronomia, houve aumento de impostos e casos de corrupção.

"Antes era possível fazer uma boa compra com menos dinheiro. Hoje, o custo de vida está muito alto", afirma. "Além disso, a direita ajuda o agro. A soja e o milho valiam mais no governo Bolsonaro."

A referência de Lourisvan passou a ser produtores rurais que ganham dinheiro na região do corredor da soja, em quantias suficientes para a aquisição à vista das safras seguintes.

Em 2027, Lourisvan planeja se casar com a noiva, que trabalha no ramo de maquiagem. "Ela quer trabalhar com estética, e vou ajudá-la com os cursos de capacitação."

Ele diz que seguirá na revenda de insumos agrícolas e que enxerga futuro em Matupá. "Meu sonho é ser produtor rural. Ninguém mais volta ao Maranhão."

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