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Thursday, October 8, 2026

Deus nos acuda

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Entre os dois candidatos à presidência do Brasil, venha o Diabo e escolha. No segundo país mais cristão do mundo (católicos: 56,7%; evangélicos: 26.9%, total: 150 milhões), o período eleitoral quase lembrou as guerras religiosas que dilaceraram a Europa no século XVII. Cada vez mais, parece que o reino de Deus não é mesmo deste mundo, pois cada vez menos sabemos o que fazemos.

Militantes de Lula da Silva viralizaram a fake news de que o evangélico Flavio Bolsonaro, se eleito, ia confiscar à Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira oficial do Brasil. Mesmo com o desmentido, o impacto  foi sísmico: Lula postou milhentas fotos a erguer a imagem da santa como se fosse o troféu do Mundial de Futebol. Flávio foi a Israel, banhou-se no Jordão e pediu a vitória. Abraham Lincoln, em plena guerra da Secessão, sabia que Deus não é ideólogo: “O Todo-Poderoso não está do nosso lado, mas espero que estejamos do lado Dele”.

No Rio de Janeiro, no evento de um instituto para crianças carentes, uma promotora do Ministério Público ficou apoplética com a leitura de um poeminha que descrevia Jesus como acolhedor: “Houve referência a Deus, e eu, como cidadã e promotora, sinto-me ofendida pelo desrespeito”. Com as barbaridades no STF, pelo menos os brasileiros já sabem que a justiça dos seus juízes não é cega: é olho por olho, dente por dente.

Por mil anos, «Cristandade» foi sinónimo de «Ocidente». Hoje, Charles Taylor indaga: “Porque era praticamente impossível não crer em Deus em, digamos, 1500, quando para muitos hoje isso não apenas é fácil, mas incontornável?” A crença em Deus ainda é tolerada, mas problemática, e entre outras opções de vida. Na Europa, Oceania e Canadá, a religião foi quase relegada a um hobby, na melhor das hipóteses inofensivo, como se Deus fosse um amigo imaginário.

Segundo o European Survey, dependendo do país o número de fiéis regulares oscila entre 10 e 25 %. Apenas 1 em cada 5 europeus diz que a religião é importante nas suas vidas. O então presidente checo Václav Havel descreveu a Europa como «a primeira civilização ateísta na história da Humanidade». A Constituição da UE excluiu cuidadosamente qualquer menção ao Cristianismo. Já não vale nem a aposta de Pascal em Deus: “Se Ele existir, ganho tudo; se não existir, não perco nada”. Agora é viável inverter o filósofo Hegel: o Ocidente é como “um Domingo de Páscoa sem Sexta-Feira Santa”.

A nova cara do Cristianismo já não é branca e loira, mas amarela, negra e mestiça. Em 1900, 80 % dos cristãos viviam na Europa e na América. Hoje, 60 % estão no mundo em desenvolvimento. Os europeus são até menos ateus do que “apateístas’: nas tintas para a religião. Em contraste, há 480 milhões de cristãos na América do Sul, 313 milhões na Ásia e 360 milhões em África – a maioria fervorosos praticantes. Refutando estereótipos, essa expansão cristã ocorreu depois do colonialismo europeu. Há um século, menos de 10 % da África era cristã – hoje, 50 %. Apesar das perseguições do governo de Pequim, calcula-se que existam na China 100 milhões de cristãos – pelas taxas de crescimento atuais, será em poucas décadas a maior nação cristã do planeta.

Enquanto isso, em Hollywood… Greta Gerwig, a filmar “As Crónicas de Nárnia”, clássico infantil de CS Lewis, revelou que será de Mery Streep a voz do protagonista, o leão Aslan. Além de erudito de Oxbridge, Lewis foi o maior e melhor apologista cristão de sempre. Em “Nárnia”, ficção para crianças, Aslan sacrifica-se para salvar o miúdo Edmund: assassinado numa mesa de pedra, o leão ressuscita pela magia do seu Pai, o ser espiritual supremo.

Até Gerwig (que no seu “Barbie” transfigurou a boneca da Mattel numa Simone de Beauvoir com mais misandria e menos miolos) adivinhou que Aslan é Jesus Cristo. Mas a realizadora alega que a Virgem Maria se conecta a uma religião “pagã, menos patriarcal”. Por isso, além de voz feminina, Aslan terá olhos de cores diferentes e riscas coloridas na cara, como Ziggy Stardust, a persona andrógina de David Bowie, mentor epistémico da cineasta.

Não que uma atriz não possa fazer de homem. Nos teatros isabelinos de Shakespeare, os papéis femininos eram interpretados por atores.  Quando visitavam a Itália, em que havia atrizes, os ingleses ficavam estupefatos ao descobrir que as mulheres conseguiam representar mulheres com tanta competência no palco como na vida.

E tendemos a antropomorfizar a imagem de Deus como uma espécie de Pai Natal, só que de túnica branca em vez do velhote roliço e vermelhusco da Coca-Cola. Mas um Deus a sério é condição de possibilidade de qualquer entidade, inclusive nós próprios, e a resposta para a pergunta “por que existe algo em vez de nada?”.

Fora do tempo, do espaço e da matéria, esse Deus não é um homem, e nem os seus poderes os de um humano multiplicados infinitas vezes. Porém, segundo a doutrina da Encarnação, Jesus é outra loiça: 100% divino e 100% humano – um judeu do sexo masculino. Portanto, um Aslan transgénero, radicalizando o Ken choninhas de “Barbie”, é mais uma escala na cruzada empoderadora de Gerwig contra o patriarcado. Ai, ai, subscrevo o insuspeito Voltaire: “Nunca fiz uma oração a Deus, exceto uma muito curta: ‘Ó Senhor, torne os meus inimigos ridículos’. E Deus atendeu-me”.

Em meados dos anos 2000 floresceu o “Neoateismo”, com os best-sellers  de Richard Dawkins, Sam Harris, Christopher Hitchens e Daniel Dennett. Já o precursor Bertrand Russell resmungara: “Quando morrer, apodrecerei”. Em abril de 1966, como quem não quer a coisa, a capa da revista Time foi: “Deus está morto?” A grande ficcionista católica Flannery O’Connor ironizou a santimónia ateia: “Citar Cristo numa conversa é hoje tão embaraçoso como falar de sexo no tempo da minha mãe”. Em Londres circulavam autocarros com o cartaz: “Provavelmente, Deus não existe. Pare de se ralar e aproveite a vida”.

Mas, depois de concordarem que não há Deus para ninguém, os neoateistas descobriram que não é pera doce alicerçar ideias positivas com base numa negação – especialmente uma bússola moral. O caldo entornou em Dublin, com o “elevatorgate”, em 2012. Numa conferência neoateia, Rebecca Watson espumou contra o sexismo. Mais tarde, no elevador do hotel, ouviu de um colega um piropo e o convite para um copo. Rebecca galopou para as redes sociais e denunciou o “assédio”. Richard Dawkins (autor de “The God Delusion”, publicado há 20 anos, 3 milhões de exemplares vendidos e traduzido para 35 idiomas) também estava em Dublin, e gozou com ela, imitando a voz de uma afegã: “Ah, não sintam pena de mim por cortarem-me as mãos se eu for à escola. Tenham peninha das minhas pobres irmãs ocidentais, convidadas para uma bujeca num elevador”. Uns anos depois, a blasfémia foi mais grave: como biólogo, declarou que a ideologia de género não tem ponta por onde se lhe pegue. Em 2021, a Associação Humanista Americana retirou o prêmio de Humanista do Ano que concedera a Dawkins em 1996.

Antes destas peixeiradas todas, Dennett propôs que os secularistas se descrevessem como “brights” (esclarecidos), para não serem confundidos com os parolos obscurantistas. Claro: todas as pessoas da Idade Média nasceram no século passado – e votam na direita. Têm menos de 1,5 metro de altura, morrem aos 39 anos e fumam como chaminés cigarros sem filtro, enquanto conduzem carros não elétricos sem cinto de segurança. Os identitários têm toda a razão ao afirmar que o passado estava infestado de criaturas que não eram identitárias. Felizmente, as novas regras de Hollywood proíbem o Oscar de Melhor Filme para fitas sem um bom número de atores não-brancos – mesmo que a história se desenrole numa aldeia viking do século XI.

O Neoateismo caiu do cavalo com as cada vez mais obviamente patibulares alternativas a Deus. As religiões profanas do Nazismo e do Comunismo revelaram-se mais nefastas que as piores teocracias. No século XX, muito mais pessoas foram mortas por regimes que se opunham a Deus do que em nome Dele. Simone Weil realçou: “Não é a religião, mas a revolução o ópio do povo”. Perguntado se, depois da Revolução Francesa e de Napoleão, seria possível criar uma religião da humanidade, Talleyrand respondeu: “Nada mais simples: crucifique-se e ressuscite ao terceiro dia!”

Nietzsche, o mais fanático (e chanfrado) dos anticristãos, acertou: a indignação contra o sofrimento não é tanto pelo próprio infortúnio, mas pela sua falta de sentido. Daí que a ânsia de transcendência nunca tenha cessado, às vezes se contentando com esoterismos como a aromaterapia, para o “reencantamento” do mundo. E agora especula-se sobre um “renascimento cristão” – com membros da geração Z (sobretudo rapazes) se insurgindo contra o materialismo raso dos Boomers, a obsessão do Vale do Silício por uma máquina com alma, o declínio da família e as comunidades fraturadas. E regressam como filhos pródigos, professando um Deus que nos ama apesar da nossa barafunda moral.

É que continua a pulsar a velha pergunta: que raio significa ser humano, e qual o nosso propósito nesta Terra? A resposta proverbial da ciência (“Nada, e nenhum”) não é eletrizante – e já não soa convincente. Cada macaco no seu galho. A ciência percebe de física, mas a metafísica para ela é chinés (e nem só de pão e circo vive o homem). Os cientistas não podem sequer a provar a existência de outras mentes além das nossas próprias – quanto mais a inexistência de Deus. Acreditar em Deus não é como concluir que alienígenas ou a fada dos dentes existem. Ou mais ou menos como se ruminássemos: “Não acredito em Deus, mas tenho medo Dele”. Enfim: se nas capelas de Oxford nos anos 1990 os jovens fiéis só assomavam aos domingos, por causa do vinho à borla, hoje há devotos a deitar pelos vitrais, quase como no tempo do cardeal Newman.

Em 1882 Nietzsche informou o mundo que “Deus morreu”. E, em 25 de Agosto de 1900, veio a réplica: “Nietzsche morreu” (assinado: Deus). Pois hoje, dos Neoateistas, Dennett e Hitchens morreram, Sam Harris lançou uma app de mindfulness, brotou o Cristianismo Cultural – e até Hawkins aderiu! Ele que, teologicamente analfabeto, só esgrimira com fiéis caricatos como televangelistas dos EUA e fundamentalistas islâmicos, e não faz ideia da diferença entre, digamos, Duns Escoto e Tomás de Aquino, ou o que Karl Rahner diz sobre a graça ou Jurgen Moltmann sobre a esperança.

Após a II Guerra Mundial, a “Partisan Review” publicou uma série de textos de galáticos culturais: “Religião e os Intelectuais”. Pontificavam entre outros Hannah Arendt e W. H. Auden. Com toda a gente de cabelos em pé com Auschwitz e a bomba atômica, parecia razoável que a questão do homem era também uma questão de Deus. No seminal “Mimesis”, escrito em Istambul quando fugia do Nazismo, Eric Auerbach lembrou que Cristo “nasceu num estábulo e viveu a maior parte da vida como aprendiz de carpinteiro. Viajava a pé e de burro. Não veio como herói e rei. Os primeiros discípulos foram pescadores e artesãos. Falou com publicanos (cobradores de impostos para os Romanos), prostitutas, leprosos e crianças. Era escandalosamente seguido por mulheres, seres de segundo classe (uma delas foi a primeira pessoa a vê-lo ressuscitado). Torturado, acabou na cruz, flanqueado por dois criminosos comuns”. Nunca houve um Deus assim.

Todavia, é como realçou Martin Luther King: “O mal pode moldar eventos em que César ocupe um palácio e Cristo, uma cruz; mas esse mesmo Cristo se ergueu e dividiu a história em a. C. e d. C., de modo que até a vida de César foi datada pelo Seu nome.” Não admira que o teutônico Nietzsche rugisse: “Que conceito maluco: o de igualdade diante de Deus. A democracia não passa do cristianismo naturalizado.” A misericórdia é para os mariquinhas!

Já no século XXI, cada vez mais crânios saem do armário ateu e assumem o Cristianismo – mas Cultural. Em 2019, no influente “Dominion: The Making of the Western Mind”, do historiador Tom Holland diz que a Cristandade não está a renascer porque nunca morreu. “Signos do cristianismo são conspícuos por todo o Ocidente – em procissões e festas populares, nos calendários e nos nomes próprios. Outros entranharam-se tanto que deixaram de ser perceptíveis. Funcionam em nós como óculos por meio dos quais vemos a realidade, mas sem que essas lentes recebam o foco da nossa atenção consciente.” Os direitos humanos, a importância da igualdade e da liberdade, a ideia de que os mais vulneráveis são  merecedores de proteção, o casamento consensual, a escravidão e o infanticídio como infâmias – tudo isso deriva de dois preceitos cristãos: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós são um só em Cristo» (São Paulo aos Gálatas) e «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos». Para Holland, “É um ponto cego o facto de que todas essas convicções morais que o Ocidente cultiva coincidam perfeitamente com os valores que a Cristandade nos legou.”

Ayan Hirsi Ali tinha magníficas razões para abominar a religião: nascida numa família somali, aos 5 anos sofreu mutilação genital, foi doutrinada pela Irmandade Muçulmana e dada em casamento a um tipo com idade para ser o seu tataravô (e que era polígamo). Fugiu para a Holanda, e hoje é a principal voz feminina contra o islamofascismo. Há 20 anos tem que andar com uma escolta, desde que assassinaram o seu melhor amigo numa rua em Amsterdão, espetando-lhe no peito um punhal com um bilhete para ela: “És a próxima!”. No ano passado, Ayan converteu-se ao Cristianismo, assim como o seu marido, o historiador Niall Ferguson.

O filósofo Roger Scruton, que morreu em 2020, reverenciou a inspiração cristã na estética ocidental – música, pintura, escultura, catedrais. E Dawkins admitiu que os princípios cristãos implicam um cosmos ordenado, concebido segundo leis que incorporam a racionalidade do Criador: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.» No original grego, “verbo” é “logos”, que é “razão”.

Mas há quem questione um Cristianismo cujo imperativo é mais social do que sobrenatural. Será que, como num self-service, podemos provar apenas uma parte do infinito, quase com uma teologia vegana? Certo: as noções humanas mais elevadas (o bem, a verdade, a beleza) estavam enraizadas numa fé religiosa, que a modernidade ocidental declarou morta e enterrada (e até um bocadinho pindérica). Portanto, como gemeu Dostoievski, tudo é permitido. Assim, agir apenas performaticamente como se tudo aquilo fosse verdade, não será uma caça aos gambozinos? Querendo o proveito mas não a fama, o Ocidente não serrará de novo o galho onde estava a empoleirar-se outra vez? Ou sim ou sopas: não se pode servir a dois senhores. Não convirá deixar Deus ser Deus, em vez de uma super-IA do bem?

Em 1929, o padre católico Georges Lemaître formulou a teoria do Big Bang – termo sarcástico cunhado num programa da BBC pelo astrónomo Fred Hoyle (que achava-a uma ideia de jerico). Einstein, para quem o universo sempre existira, puxou dos galões e também discordou do padreco: “Lemaître, não venhas ensinar o padre-nosso ao vigário!”

Em 1964, dois jovens cientistas instalavam uma antena da Bell em New Jersey. Arno Penzias e Robert Wilson passaram-se com um chato  e persistente ruído de fundo, que vinha dia e noite do céu, e fizeram tudo para o eliminar. Eureca! Galgaram a antena com escovões, e removeram o “material dielétrico branco”- conhecido na intimidade como cocó de pombo. O ruído continuou.

Claro, pois não era merda nenhuma, mas a radiação cósmica do Big Bang, a viajar na vastidão do céu como micro-ondas. O que os dois estavam a “ver” eram os primeiros fótons – a luz mais antiga do universo, emitida quando este não passava de um bebezinho de 380 mil anos (o Big Bang foi há 13,7 mil milhões de anos). O padre Lemaître congratulou-se com a notícia, e meses depois morreu encantado da vida –  continuando a crer no Big Bang e num Deus que o criou ex nihilo não por necessidade, mas por amor.

Wilson e Penzias e embolsaram o Nobel da física em 1978. Segundo o “Génesis”, cujos 7 dias não é preciso entender literalmente, Deus exclamou Fiat Lux, e separou a luz das trevas. Nas “Confissões” (sec. IV), Santo Agostinho anotou: “Os nossos dias comuns não têm noite senão pelo pôr do sol, e nem manhã senão pelo nascer do sol; mas os três primeiros dias decorreram sem sol, criado no quarto dia.” Portanto, aventou Agostinho, “noite” e “dia” devem significar algo mais do que o nascer e o pôr o sol – exatamente como Lemaître, Arno e Penzias (e Einstein, que postulou o “quantum de luz”) reconheceram 1500 anos depois. E como o leitor pode comprovar, se sintonizar a TV num canal que ela não receba – 1% daquela estática bruxuleante é a luz fóssil do Big Bang. Fiat lux.

As duas perguntas mais importantes sobre a vida – existe Deus e o que acontece depois da nossa morte? – não podem ser conclusivamente respondidas em laboratórios. E é aí que entra – ou não – a fé, a árdua fé. Como, por exemplo, aquela que fez o moribundo Winston Churchill (não propriamente um beato) murmurar à sua amada mulher Clementine: “Eu irei procurar-te na eternidade”.

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