As fontes de Gumiei (Ribafeita, Viseu) e de Orgens (Viseu)

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Olá e seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. E eu, João Paulo Secador, estou à espera do Jorge Adolfo Marques, que mais uma vez nos faça passear, viajar, conhecer, quer o patrimônio pessoal, as pessoas, as personalidades que vale a pena conhecer na região centro. Tanta gente boa com tantas coisas importantes conseguidas, mas que és também o material mais propriamente dito. Hoje, curiosamente, vamos falar de fontes e por isso é logo a nossa primeira crônica. Olá, Jorge. Bem-vindo.
Olá, João. Muito boa tarde por este dia de verão. Continuamos em pleno verão.
É verdade.
E então talvez ir até às fontes, beber um bocadinho d'água. E foi esta a ideia que me fez hoje sugerir que conversássemos aqui um bocadinho sobre fontes e, em particular, em duas localidades, uma que se chama Gomiei, que pertence à freguesia de Ribafeita, no Conselho de Viseu. E depois vamos também a uma outra localidade, uma outra freguesia também do conselho, que é Órgens. Mas vamos então começar por Gomiei, que é uma povoação muito bonita com um rico patrimônio arquitetônico, uma aldeia, mas muito bonita. E lá bem no centro desta povoação, há uma ribeira. Chamam-lhe ribeira, mas em boa verdade é uma pequena linha d'água que atravessa a povoação, de norte para sul, rumo ao rio Troço. O rio Troço é um rio que depois vai desaguar no rio Vouga, ali na zona de São Pedro do Sul. Neste fim de verão, podemos assim dizer, corre lá um fiozinho d'água e que se vislumbra à superfície. Em todo o caso, as ervas ribeirinhas, de cor muito viva, crescem ali selvagens naquelas margens, por onde a água flui. Essa linha d'água passa por um largo, que chamam Largo da Fonte. E é nesse Largo da Fonte, que ela acaba por emergir à superfície, de uma das duas fontes de chafurdo que ali existem. Claro que a umidade deste recanto em pedra transformou-a num pequeno oásis. Aquilo é um pequeno oásis. Território paradisíaco para rãs e outros bicharocos aquáticos.
Então ouvem.
Sim, aquáticos e inofensivos, que ali proliferam naquele fresco, naquela frescura. Uma dessas fontes, tem um letreiro gravado na pedra que diz: "Esta fonte se fez no ano de 1601". Portanto, estamos em pleno domínio filipino.
Exatamente.
Recorda essa epígrafe gravada sobre o brasão de Portugal, porque tem o brasão de Portugal e tem lá quando é que ela foi feita. Que está na parede lateral da fonte de chafurdo mais antiga do largo. Foi o que parece indicar a primeira fonta em alvenaria que foi construída naquela aldeia. Em 1895, portanto, uns séculos mais à frente, o mesmo largo viu ser inaugurada uma segunda fonte, também ela de chafurdo.
Isso quer dizer o quê, Jorge, já agora? É aquela onde se pode mergulhar?
É isso.
Não sei.
São fontes que podiam ter ou não bica, mas as mulheres, quando iam buscar com os seus cântaros.
Exatamente.
Geralmente cântaros em barro.
As aguadeiras.
Mais antigos, iam e mergulhavam o cântaro num pequeno tanque que ali se formava.
Pronto.
E era, portanto, mergulhado. São fontes de chafurdo ou de mergulho, também assim designadas. Portanto, em 1895 foi então inaugurada uma segunda fonte, a poucos metros de distância, porque repare-se, aquilo é uma zona onde no subsolo há muita água.
Sim, deve ter um alto nível freático.
Exatamente. Nesta nova fonte, acrescentou-se no exterior um bebedouro pra animais, porque estamos num meio agrícola, rural, e os animais também precisam beber.
Claro.
E então, muitas destas fontes têm esses tanquezinhos ao lado.
Esse bebedouro.
Esse bebedouro. Na nova, acrescentou-se, portanto, esse bebedouro, mas seguia-se num local que era um local tradicional para ir buscar água. Então, durante a Primeira República, seguindo o modelo de muitas outras fontes que foram semeadas pelo Conselho e por nosso país, em geral, foi inaugurada ali uma fonte já, que é o modelo que vai aparecer durante a Primeira República, mas que continua já depois da queda da Primeira República. E esta, curiosamente, foi inaugurada em 1931. Há ali um terceiro fontanário Mas este tem uma particularidade que o distingue dos anteriores: é que tem uma bica. Por quê? Porque a bica é mais higiênica, porque enquanto as fontes de mergulho obrigavam a precisamente mergulhar naquela água que estava ali parada, a da bica é a água que está corrente. Não há segunda possibilidade. Portanto, temos ali uma fonte com um moderno abastecimento de água, mas que remete para algo muito interessante que é aquela ideia de as mulheres irem com a sua cântara buscar a água, porque não há água ao domicílio, e isso era uma prática corrente em todas as terras do nosso país. Na outra localidade que eu referia.
Órgens.
Órgens. Há também um conjunto de fontes, também de chafurdo. E o que é que vai suceder? Porque essas fontes de chafurdo eram pouco higiênicas.
Sim.
E portanto, por isso é que havia várias doenças como a febre tifoide e outras doenças.
Cólera, se calhar.
Doenças do foro gastrointestinal. Portanto, dizimavam muita gente.
Sim.
E portanto, em 1930 vão ser construídas uma série de outras fontes nesta freguesia de Órgãos, nomeadamente, fontes que têm nomes curiosos, por exemplo, a Fonte do Costa, em São Martinho de Órgãos, a Fonte de São Martinho, no Largo do Eiró, a Fonte do Leão. Porque são fontes que depois já têm um certo cuidado estético. Esta do leão, porque tem o focinho do leão representado na bica.
Claro.
E portanto, estas fontes, que vão surgindo durante o período que eu já referi, a partir dos anos 30, vão substituir essas outras fontes. E portanto, a preocupação, qual é? É uma preocupação de higiene e de saúde pública. E é curioso que quando chegamos aos anos 60, há uma política municipal de criar fontes em quase todas as aldeias do território municipal, e essas fontes já com uma nova estética. Estávamos ali nos anos 30, passamos aos anos 60, portanto, são fontes muito mais despojadas, mas muito práticas. E por quê? Porque o abastecimento d'água ao domicílio continuava a ser de uma minoria. E, portanto, as pessoas tinham os poços ou em casa, poços em casa, ou então iam à fonte pública que estava ali no rossio da sua aldeia. E isto remete para um tempo em que a realidade era esta. Hoje, muitas dessas fontes têm um letreirozinho a dizer...
Água não potável.
Não, não diz que a água não é potável. Tem uma subtileza: água não controlada. Ou seja, se houver algum problema, nós avisamos que ela era uma água não controlada.
Exato. Mas não tem, de facto, um controle como se fosse o instituto Ricardo Jorge ou assim.
Não.
Para dizer da salubridade daquelas águas. Exatamente.
São fontes que não são do abastecimento municipal, dos serviços municipais, mas vêm em minas e vêm das zonas mais de serra, onde há fontes naturais de água e que eram captadas para esses lugares.
Claro.
Exatamente.
Muito bem, são dois exemplos de fontes que temos de conhecer nestas povoações, em Gomeiel e em Órgãos, ali na zona de Viseu. Jorge, amanhã não vamos tanto para o patrimônio material, como eu disse, vamos mais para fazer uma ou duas homenagenzinhas. Amanhã vamos falar sobre isso. Um grande abraço pra ti. Até amanhã.
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