Peça 'Confuzo' faz um manifesto pela vida com texto poético refinado
O termo teatro visual, a despeito da dimensão óbvia que não exclui materialidades apreensíveis via outro meio que não o nervo ótico, ainda sofre algum preconceito na teoria e na prática cênica. Assim, teatro imagético, com adjetivo que tem tanto raízes etimológicas próximas quanto semelhança fonética com imaginação, pode ser a tipologia que melhor defina a prática da companhia Dos à Deux.
O grupo fundado em 1998 em Paris, sediado no Rio de Janeiro desde 2015, sempre trabalhou com expedientes ligados ao teatro físico, de forte aspecto simbolista —gestualidade hierática, pose estilizada, iluminação difusa, sugestão suplantando a representação.
Trata-se de um tipo de teatralidade que dialoga bastante com a obra do diretor de teatro polonês Leszek Mądzik (1945-2025), no jogo de mostrar e esconder entre claro e escuro, na utilização de objetos, máscaras e bonecos como extensão ou prótese do corpo, na equalização horizontal entre luz, som e coreografia, e na presença silenciosa do atuante em cena.
Em seu novo espetáculo, "Confuzo (Está Escurecendo Dentro de Mim)", a Dos à Deux explora, pela primeira vez, a potência da palavra no palco. Na dramaturgia, o Homem-Árvore, vivido por André Curti, insiste em fincar raízes sobre um solo que o rejeita.
Durante a peça, nu ou vestindo um longo sobretudo preto, carrega um tronco de quatro quilos em sua cabeça, em situação de equilíbrio instável. Será transformado em réu simplesmente por existir. Ao seu lado, em contraponto ao orgânico, o Homem-Luz, papel de Artur Luanda Ribeiro, pedala a bicicleta-geringonça dotada de tecnologia para produzir a energia elétrica destinada ao desenho de luz.
Varas côncavas, com luzes de LED vermelhas, circulam e fecham o palco, formando o panóptico reacionário que tenta controlar o ser idiossincrático: seus galhos são delicados demais; a sombra que projeta no ponto de ônibus, embora útil, merece ser taxada; os brotos, inadmissíveis.
A personagem sob julgamento afirma que os dogmas religiosos e as leis podam o sujeito. A natureza do indivíduo —animal ou vegetal— deveria ser a livre expansão, sem as amarras da irracionalidade e da intolerância. "Não é possível ser estrangeiro em meu próprio planeta", diz o Homem-Árvore.
Em texto de tratamento poético refinado, transparece um manifesto pela vida, crítico à ganância corporativa que destrói o clima, à estupidez dos que brigam contra a essência livre da sexualidade e à xenofobia nutrida por interesses políticos rasos. Confuzo, com "z", alude também, indiretamente, ao famoso ensaio "S/Z", do sociólogo Roland Barthes, tendo a castração social como índice.
A companhia Dos à Deux, pletora de códigos polissêmicos, opera os níveis hermenêutico, semântico e simbólico da montagem com rigor exemplar. Tópicos e dispositivos abordados em obras anteriores, como solidão e distopia, em "Ausência", de 2012, a fragmentação corporal, em "Gritos", de 2016, e, sobretudo, a atmosfera cerimonial subjetivada do espetáculo anterior, "Enquanto Você Voava, eu Criava Raízes", de 2022, surgem sedimentados em "Confuzo".
Dessa vez com palavras, a dupla de estetas instaura mais um reino enigmático, binômio de mítico e mundano, onde luz, som e matéria florescem com a mesma energia.
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