Burnham reabre debate do brexit e põe volta do Reino Unido à UE na mesa
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Euro Radar
Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
Em julho, esta newsletter tratou a preferência de Andy Burnham pela Europa como um segredo mal guardado. O premiê chegou a Downing Street quase sem falar do assunto, mas na terça (29), em Liverpool, abriu o jogo.
No discurso do congresso trabalhista, disse que o brexit fez "mais mal do que bem" e prometeu apresentar opções para a relação de longo prazo com o continente. Na quarta (30), na BBC, deu nome a elas: ficar como está, entrar na união aduaneira, voltar ao mercado único ou "ir até o fim", o que significaria pedir a readesão à União Europeia (UE). Não disse qual prefere.
Mesmo quem esperava essa inclinação se surpreendeu com o tom. No manifesto de 2024, o Partido Trabalhista de Burnham prometeu que o país não voltaria ao mercado único, à união aduaneira nem à UE, e agora o premiê põe os três caminhos na mesa. Em julho, a orientação era não mexer nisso nesta legislatura. Burnham não descartou um novo referendo, mas disse que o momento não é este.
Em Madri, na quarta, o presidente francês, Emmanuel Macron, respondeu com um "welcome back", ressalvando que não dá para escolher apenas as liberdades da União que convêm. O premiê espanhol, Pedro Sánchez, chamou o brexit de "enorme perda".
A conta
No Reino Unido, ela é conhecida. O banco Goldman Sachs calculou, nos dez anos do referendo, que o PIB (Produto Interno Bruto) real do país ficou 6% abaixo da média de economias comparáveis, e cerca de 4% se forem excluídos os Estados Unidos e o setor financeiro. Do lado da UE, o custo é mais difuso: sem os britânicos, França e Alemanha perderam um contrapeso, e o bloco, um defensor do livre-comércio e do alargamento.
O que dizem as pesquisas
Os britânicos, em sua maioria, veem o brexit como erro: no YouGov de 2 e 3 de junho, 57% disseram que a saída foi decisão errada, e 30%, acertada. Em maio, o Ipsos perguntou se o Reino Unido deveria pedir a readesão, e 52% responderam que sim, contra 33%. No YouGov, 55% apoiam a volta em princípio, mas o apoio cai para 35% se o país tiver de voltar sem as exceções que tinha antes, como ficar fora do euro e do espaço Schengen, e 43% se opõem.
A aposta
Burnham é o sétimo premiê britânico em dez anos e herdou um Labour pressionado pelos dois lados: pelo Reform UK, partido de extrema direita de Nigel Farage, e por liberais-democratas e Verdes, para onde migrou parte do eleitorado. O Reform, que liderou as pesquisas por meses, aparece hoje atrás do Labour na maioria delas, por 3 a 5 pontos. A exceção é o YouGov de 27 e 28 de setembro: Reform 25%, Labour 24%.
Falar da Europa pode recuperar os votos que migraram para liberais e Verdes. A bandeira tem apelo popular, como mostram as pesquisas, e pode se tornar uma das âncoras do governo de Burnham. As dificuldades, porém, são grandes: o apoio encolhe quando entram as condições da volta, Macron já avisou que não há cardápio, e a readesão exigiria a aprovação unânime dos 27 países do bloco.
Richard Tice, vice-líder do Reform, acusou Burnham de querer levar o país de volta a Bruxelas "pela porta dos fundos". A cúpula Reino Unido-UE, em que o premiê prometeu expor as opções, ainda não tem data: diplomatas europeus falam em 20 de novembro, e o governo britânico diz que nada ainda foi marcado.
A cúpula Reino Unido-UE, em que o premiê pretende lançar o debate sobre a relação de longo prazo, deve ocorrer em 20 de novembro, segundo o Financial Times. Londres e Bruxelas já teriam acertado o esboço de um acordo, com intercâmbio de jovens, menos barreiras ao comércio de alimentos e ligação dos mercados de carbono.
O alerta de Lecornu
"A realidade nos alcança", escreveu na quarta (30), na rede social X, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu. Na terça (29), a taxa que a França paga para se endividar por dez anos passou de 4,8%, o maior nível desde a crise financeira de 2008. O diferencial em relação à Alemanha ficou perto de 1,2 ponto percentual, o maior desde 2012, e Paris já paga mais que a Itália.
A alta dos juros é global, alimentada pela guerra no Irã e pelo novo choque do petróleo. A dívida francesa chegou a 3,6 trilhões de euros no fim de junho, 119% do PIB, um recorde, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França. O déficit de 2026 derrapou para 5,4% do PIB, acima dos 5% previstos. Lorenzo Codogno, ex-economista-chefe do Tesouro italiano, alertou para o risco de contágio da França a outros países da zona do euro.
O alerta soa também como recado à oposição. Nesta quinta (1º), o governo apresenta o Orçamento de 2027, com um esforço fiscal de 54 bilhões de euros. Sem maioria, uma votação em regra parece quase descartada. Resta o artigo 49.3 da Constituição, que exige um texto que nem os socialistas nem a Reunião Nacional, partido de extrema direita de Marine Le Pen, censurem, ou os "ordonnances", atos legislativos especiais que nunca foram usados para aprovar um orçamento desde 1958.
Frase da Semana
A realidade nos alcança
Merz ameaça vetar o orçamento europeu
O chanceler alemão, Friedrich Merz, e os líderes de Holanda, Suécia, Dinamarca, Áustria e Finlândia ameaçam bloquear o orçamento do bloco para 2028 a 2034 se a proposta da Comissão Europeia, de quase 2 trilhões de euros, não for cortada em "centenas de bilhões", segundo o Financial Times. Juntos, eles respondem por cerca de 40% da receita, e o orçamento precisa da aprovação unânime dos 27 países.
Os seis querem mais dinheiro para defesa e empresas inovadoras, e menos para agricultura e regiões pobres, que absorvem cerca de dois terços do total. Um grupo de 17 países, com Espanha e Itália, pede o contrário: mais verba nessas áreas, um orçamento acima de 2 trilhões e, para alguns, mais dívida conjunta, tabu para Berlim. A França paga mais ao orçamento do que recebe, mas é o país que mais recebe em subsídios agrícolas. Defende financiar o aumento do orçamento em parte com receitas próprias do bloco, como as do mercado de carbono, em vez de só com contribuições dos governos.
A presidência irlandesa deve apresentar um texto de compromisso até meados de outubro. Em junho, os líderes tinham prometido fechar o acordo neste ano, antes de eleições na França, na Itália, na Espanha e na Polônia.
No Radar
O que monitorar até a próxima quarta-feira (7)
- 2 e 7 de outubro - Sai na sexta (2) o relatório de empregos de setembro dos Estados Unidos. Na quarta (7), é a vez da ata da reunião de 15 e 16 de setembro, quando o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto.
- 3 e 4 de outubro - A Letônia, vizinha da Rússia, elege o Parlamento no sábado (3). No domingo (4), a Bósnia e Herzegovina escolhe a presidência tripartite e o Parlamento.
- 4 de outubro - A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e seus aliados se reúnem no domingo e devem manter as cotas de produção de novembro, segundo delegados.
- Irã - Estados Unidos e Irã negociam de forma indireta, por meio do Catar, em Nova York. Teerã oferece reabrir o estreito de Hormuz em sete dias se Washington suspender o bloqueio naval. Donald Trump rejeitou e exige um acordo que inclua o programa nuclear.
- 5 a 8 de outubro - Fiji sedia em Nadi a Pré-COP31, reunião preparatória da conferência do clima de Antalya, na Turquia, em novembro. Tuvalu recebe o segmento de líderes.
Fora da Pauta
A Tapeçaria de Bayeux, no British Museum (Londres, até 11 de julho de 2027)
O bordado de 70 metros que conta a conquista normanda da Inglaterra, em 1066, está no país pela primeira vez desde que foi feito, há quase 1.000 anos. A França o emprestou enquanto o museu de Bayeux, na Normandia, passa por reforma. Segundo o museu, a obra foi provavelmente encomendada por um patrono normando e bordada por artesãos ingleses, com base em desenhos de manuscritos de Canterbury. Os ingressos são muito disputados.
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