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Thursday, September 24, 2026

“É só um comprimido para dormir”: será mesmo inofensivo?

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Nos centros de saúde CUF, encontra tudo o que precisa para cuidar da sua saúde bem perto de si. A sua equipa de família, com médico de família e enfermeiro, além de medicina dentária, análises clínicas e muito mais. Quem tem CUF à porta, tem tudo.

Começa agora mais um "Tratar da Saúde" com o doutor João Marques Santos, médico de família da CUF. Olá, doutor, bom dia.

Olá, bom dia, Marijoy.

Doutor, hoje vamos falar de um problema que afeta muitas pessoas: a dificuldade em dormir. É muito frequente pensar-se que um comprimido para dormir pode ser a solução, mas também é verdade que há muitos receios relacionados com a sua toma. Doutor, quando é que estes medicamentos para dormir começam a fazer mal?

Isto é um tema muito frequente nas nossas consultas, Marijoy. Na verdade, os medicamentos para dormir, como por exemplo, as benzodiazepinas ou o Zolpidem, que é um medicamento mais recente, podem ser muito úteis numas crises pontuais, mas o problema é que o perigo começa muito mais cedo do que as pessoas possam imaginar. E logo poucas semanas após o início da toma desta medicação.

Poucas semanas? Eu pensava que o problema era apenas quando se tomava durante anos.

Esse é que é o verdadeiro mito. Exatamente. Os riscos começam logo muito cedo e dependem de três fatores: a duração do tratamento, a dose que estamos a utilizar e a idade da pessoa que está a tomar. Quanto mais tempo se toma, maior é o risco associado a esta medicação.

E quais são os riscos mais imediatos no dia a dia?

O risco mais urgente e grave, sobretudo na população mais sênior, são quando as quedas e as fraturas podem ser um problema. As benzodiazepinas alteram muito o equilíbrio e diminuem os reflexos, portanto, logo quando nos levantamos à meia-noite, corremos o risco de cair. E mesmo durante o dia, o efeito ainda pode ser residual. Nos idosos, o risco de queda aumenta entre 27% a 42%. E se falarmos de medicamentos de ação longa ou tratamentos que passam de 12 semanas, este risco até pode duplicar.

Impressionante. E medicamentos como o Zolpidem, que falou há pouco, são mais seguros para evitar essas quedas?

Infelizmente, não. A evidência mostra-nos que estes novos fármacos também aumentam o risco de queda. Mais que duplicam, aumentam cerca de 142%. São uma alternativa que não é isenta de perigo.

E em relação ao cérebro e ao raciocínio? Muitas pessoas queixam-se que no dia seguinte parecem estar mais lentas, não é? Após embargada.

Exatamente. Há estes prejuízos na cognição, como a perda de atenção, falhas de memória, menor velocidade de raciocínio. No fundo, estes medicamentos estão a diminuir também a nossa capacidade mental. E aparecem logo após o início do tratamento, mesmo com doses muito baixas. Aqui o cérebro vai ganhando pouca tolerância a estes efeitos secundários, portanto, isto vai se manter ao longo do tempo do tratamento.

Mas doutor João, a longo prazo, isso pode evoluir para algo mais grave, como uma demência?

Há uma associação estatística entre o uso prolongado e o aumento de risco de demência, mais ou menos entre 38% a 78% nos estudos que mostraram maior associação, embora não se possa provar a 100% de certeza que este medicamento causa diretamente a demência. Mas esta correlação estatística é forte e é preocupante.

Se a pessoa deixar o medicamento, a memória pode recuperar? Há aqui uma boa notícia ou não?

Sim, isto é fundamental sublinhar e é muito importante. As pessoas idosas, com dependência, a paragem deste medicamento após seis meses vai melhorar claramente a capacidade de memória e até a fluência verbal. Portanto, o nosso cérebro vai recuperar.

Falou em dependência, por isso que é tão difícil parar. Quem tenta deixar de tomar, costuma queixar-se que a insônia volta logo e no dobro.

Sim, isto é o que nós chamamos o efeito de insônia rebound. Há uma síndrome de abstinência, como nalguns outros tipos de fármacos, que vai incluir ansiedade e até agitação. Há uma dependência física que se instala com facilidade e mesmo em doses adequadas, com receita médica, isto pode acontecer. Por isso, existem mesmo protocolos de redução deste medicamento com uma taxa de sucesso, ainda assim, de 50%.

Pode parecer pouco, 50%. Como é que podemos aumentar essa probabilidade de sucesso?

Além deste protocolo de redução gradual da medicação, combinando este desmame com acompanhamento médico, informando claramente e também até com terapia cognitivo-comportamental para a insônia, podemos melhorar esta taxa de sucesso. É preciso ensinar o nosso cérebro a dormir novamente sem estes fármacos. Criar hábitos de sono saudáveis, sem necessidade do uso de medicação, é uma chave que pode ajudar este processo a funcionar. Um exemplo muito concreto e um dos grandes inimigos deste processo é o uso de telemóvel ou de ecrãs antes de dormir.

Para quem nos está a ouvir e toma estes medicamentos há já algum tempo, qual é a mensagem principal, doutor João?

Em primeiro lugar, se já estiver a tomar estes medicamentos, nunca os deve parar de forma imediata e, sobretudo, sem falar com o seu médico, porque isto sim, pode ser perigoso e pode ser depois muito mais difícil conseguirmos uma boa taxa de sucesso. Portanto, aqui procurar ajuda com um profissional de saúde. Em segundo lugar, estes medicamentos devem ser usados durante poucos dias, se tivermos que os tomar. Se os toma já há alguns meses ou mesmo anos, vamos marcar uma consulta com o médico de família para tentar juntos planear uma forma segura e lenta de parar este medicamento.

Mensagem claríssima, doutor João. Muito obrigada pelos esclarecimentos. Até à próxima.

Muito obrigado. Até à próxima e bons sonhos.

tratardasaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também nos pode enviar o seu áudio por WhatsApp 910024185.

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