193 euros vs. 6999 euros por mês

Numa lista publicada na revista Visão no final de Agosto, alusiva ao valor do salário médio nas maiores cidades, Zurique ficou em 1.º e o Cairo em 69.º (o último). Em Zurique, o valor do salário médio ronda os 6999 euros, em Lisboa (ocupa o 52º lugar) os 1410 euros e no Cairo os 193 euros. Com pouco mais dados do que os que da minha experiência subjectiva, aqui ficam algumas percepções sobre o que separa esta duas cidades, do topo e do fim da lista, não do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista do que os meus sentidos recordam delas.
A cidade dos 6999 euros
À chegada a Zurique, em Julho de 2026, há uma sensação quase imediata de perfeição e charme, mas um vazio. Europeia, mas independente. Verde, mas com estradas que podiam ter sido asfaltadas há poucas horas. Pelas ruas habitadas, os estacionamentos, ora do lado esquerdo, ora do lado direito, assinalados com retângulos, de uma cor fresca e azul, também parecem ter sido pintados ontem. Os carros não chegam a ser muitos nem poucos, mas não há um que esteja estacionado fora do lugar. As estradas, não todas, mas muitas, têm via separada para as bicicletas. O conceito de conflito entre condutor e ciclista parece não existir. Os campos, os relvados estão aparados com uma perfeição que não passa despercebida ao olhar. É uma beleza que também parece estranheza, como se existisse uma mão invisível a resolver constantemente os problemas que a natureza multiplica todos os dias.
Entre a espera de um comboio e do outro, sai um sorriso a um suíço quando, em conversa connosco sobre a pontualidade dos comboios, diz “It’s what we expect!” (É o que esperamos!). Nós sorrimos, mas a sensação de que estamos noutra dimensão do mesmo mundo multiplica-se. Só o calor parece não estar no controlo dos suíços. Ficam espantados por saber que até estava mais fresco em Lisboa. Os 37º graus de Zurique, abafados e pesados, não parecem ser a norma.
O custo de vida causa impacto. O teleférico para visitar o ponto mais alto da Europa ronda os 268 euros por pessoa. Os hotéis de 3 estrelas sem ar condicionado andam à volta de 200/250 euros por noite. O prato de queijo fundido e umas batatas para partilhar custam 35 euros por pessoa. Dois menus do McDonalds não ficam por menos de 30/35 euros para duas pessoas. E talvez aquilo que mais nos espante no final do dia seja perceber que os preços em Lisboa já não estão assim tão longe desta realidade. A maior diferença: o salário médio em Zurique é quase 5 vezes mais do que em Lisboa.
Uma pequena curiosidade que não passou despercebida: na Suíça, o turismo proveniente dos Emirados Árabes Unidos é um grande mercado desde 2011, diz-nos um proprietário de um pequeno hotel nas montanhas. São eles, na verdade, grande parte dos turistas que vemos subir de teleférico ao topo da europa (o tal dos 268 euros por pessoa).
A cidade dos 193 euros
Quando estive no Cairo, em Agosto de 2025, escrevi alguns fragmentos de pensamentos. Hoje parecem só textos perdidos que eu escrevi no meio daquilo que pareceu um caos sonhado e que vou repescando quando sinto que não me quero esquecer daquela cidade. Na segunda manhã, escrevi que os nossos olhos se expandiam no Cairo. O ar quente, o pó que se levanta do chão, os sustos em suspenso no meio do trânsito. Estamos sempre com medo de perder, de não ter olhado tudo. No Cairo, temos pressa de ter os olhos maiores.
Somos assoberbados porque reconhecemos que não estamos no nosso mundo. Acho que há muitas cidades onde o mundo nos parece o mesmo, apenas alterado, com as mesmas peças, mas encaixadas em lugares diferentes. No Cairo, o mundo pareceu diferente. Só na área metropolitana, vivem mais de 20 milhões de pessoas. As ruas estão impregnadas com um misto de lixo, poeira e dejectos de cães vadios. Na periferia, encontramos Manshiyat Naser, também conhecida como “cidade do lixo”. Até seria estranho, se não fosse mesmo a melhor forma de a descrever. À chegada, começamos a ver carrinhas e camiões cheios de sacos de lixo periclitantes e a abarrotar. No coração da cidade, dezenas de ruas estreitas e de difícil acesso, onde homens, mulheres, crianças, bebés e idosos vivem, respiram, comem, estendem as suas roupas dentro de uma pequena cidade que parece literalmente feita de lixo e de pedaços de tijolos abandonados. Em todos os cantos, à entrada das casas, nas portas, nas janelas, nas varandas, vemos lixo, lixo em sacos, lixo prensado, lixo pendurado, lixo rasgado, lixo de todas as formas e feitios. Tudo isto misturado com imagens e cartazes de Cristo e da Virgem Maria um pouco por todas as ruas. Parece uma ficção, mas não é. Esta comunidade cristã copta vive da recolha e da reciclagem de lixo. Aos nossos olhos, europeus, distantes, ignorantes face a esta realidade, tudo parece uma tragédia. Não se vê um único turista nas ruas, e mesmo de dentro do carro de um serviço do género da Uber, sente-se o cheiro putrefacto e intenso do lixo, que parece impregnar-se nos poros de quem por ali passa. O próprio do motorista parece pouco contente por estar a passar por aquelas ruas. Vemos crianças por todo o lado e centenas de peças de roupa estendidas à janela, como se tudo fosse uma realidade que está mesmo a acontecer, e está, apesar de parecer que o nosso olhar demora a assimilar o que se passa.
O Cairo não é apenas este retrato. É uma cultura vibrante, um recuar a um passado que ultrapassa milénios, uma herança de centenas de milhares de peças inacreditáveis que nos levam a um tempo de ímpar grandiosidade. É tudo isto e também muitas outras coisas impossíveis de esquecer, desde a imponência das pirâmides e das pedras que pesam toneladas até às crianças sozinhas nas ruas que por vezes tentam agarrar-se aos veículos TVDE para pedir dinheiro aos turistas, e que correm na sua direção, mesmo depois do carro estar em andamento.
O dinheiro não define tudo, mas define mais do que gostaríamos de admitir e consegue ser um barómetro razoável para o que se passa dentro de uma cidade e com as suas pessoas. E às vezes, quando nos vemos dentro de cidades que não a nossa, e imaginamos o que seria ter crescido nelas, damos por nós a pensar quantos tipos de vida cabem nas infinitas possibilidades e o que seriamos nós e o que pensaríamos hoje do mundo se, por acaso, tivéssemos tido a sorte ou o azar de nascer noutro lugar.
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