Em dois anos e meio, startup de agentes de IA chega a valuation de US$ 4,5 bilhões e mira o Brasil
Os agentes de inteligência artificial estão entre as principais tendências do mercado de tecnologia. Diferentemente de um simples chatbot, eles são capazes de executar tarefas complexas e tomar decisões de forma autônoma. De olho nesse mercado, Jesse Zhang e Ashwin Sreenivas fundaram, em 2023, a Decagon, empresa que desenvolve agentes de IA para atendimento ao cliente.
Nesta semana, Zhang está no Brasil para a primeira edição do Vale do Silício @ Brasil, que acontece nesta quarta-feira (16/9), organizado pelo movimento Brazil at Silicon Valley (BSV). Em entrevista à EXAME, o cofundador da Decagon, de 29 anos, relembrou os primeiros passos da empresa e falou sobre os planos de expansão pela América Latina.
A companhia já atende empresas como Avis Budget Group, Chime, Oura Health, 1-800-Flowers.com e Hunter Douglas e aposta em agentes capazes de realizar atendimentos de diferentes setores.
Do game aos agentes de IA
Formado em Ciência da Computação pela Universidade de Harvard, Jesse Zhang sempre quis construir uma empresa própria. Sua primeira empresa foi a Lowkey, uma startup fundada em 2018, voltada para a criação de conteúdos de games e jogos. A empresa foi adquirida pela Niantic no final de 2021.
“Minha primeira empresa, a Lowkey, era muito diferente do que estamos construindo atualmente. Primeiro de tudo, era uma empresa voltada ao consumidor final e, por isso, não tínhamos clientes pagantes logo de início. Estávamos muito mais preocupados em conquistar usuários e conseguir muitos deles rapidamente”, diz Zhang.
Segundo o empresário, na época, a empresa tinha cerca de 1 milhão de usuários mensais. Foi quando ele percebeu a dificuldade de atender ao grande número de usuários. A percepção, somada ao espaço que o ChatGPT vinha ganhando mundialmente, resultou na ideia da Decagon, um agente de atendimento ao cliente baseado em IA.
“Existem grandes empresas, como companhias aéreas, bancos e empresas de telecomunicações, que têm um enorme volume de interações com clientes. A ideia por trás da Decagon é usar a IA como uma porta de entrada para essas empresas, permitindo que elas tenham conversas com os clientes, por telefone ou pelo WhatsApp, de maneira muito fácil”, afirma.
A empresa começou com ele e o sócio. O foco esteve na busca por empresas grandes, que tivessem grande volume de interação com clientes.
“Os estágios iniciais nunca são fáceis. Acho que a fase de zero a um é, de longe, sempre a mais difícil”, diz. “Mas acho que o momento estava a nosso favor e conseguimos construir rapidamente. Chegamos ao nosso grupo inicial de clientes bem rápido, provavelmente nos primeiros seis meses”, afirma.
Para se diferenciar, o foco esteve em automatizar a personalização. “Fazemos a analogia de que implementar um agente de IA é como construir um carro autônomo. O carro já é bastante inteligente e tem os modelos e o cérebro necessários para dirigir, mas o mapa não existe”, diz Zhang.
Os agentes de IA também precisam de um mapa para navegar pelos sistemas e processos de cada empresa — e companhias de setores diferentes exigem mapas diferentes. É nessa personalização que a Decagon busca se diferenciar: enquanto outras soluções podem exigir engenheiros de software para adaptar os agentes a cada cliente, a tecnologia da Decagon busca automatizar parte desse processo, tornando a implementação mais rápida e escalável.
“Isso é ótimo para grandes empresas porque permite fazer ajustes e melhorias muito mais rapidamente e dá mais autonomia às equipes”, diz Zhang.
Outro aspecto da estratégia tecnológica da Decagon é a aposta em modelos de inteligência artificial de código aberto. Segundo Zhang, grandes empresas fora dos Estados Unidos têm buscado combinar esses modelos com tecnologias de empresas como OpenAI e Anthropic, em vez de depender exclusivamente de sistemas fechados.
Para acompanhar esse movimento, a Decagon procura manter sua plataforma independente de um único fornecedor de IA. “Nossa oferta agora é quase inteiramente baseada em código aberto por padrão. E isso tem sido útil para que grandes empresas adotem a solução mais rapidamente”, afirma.
Em dois anos e meio, a empresa já soma 600 funcionários, além de centenas de clientes. A empresa começou atuando nos Estados Unidos, depois seguiu para a Europa e a Austrália.
Em janeiro deste ano, a Decagon realizou uma rodada de Série D, liderada por Coatue Management e Index Ventures, quando levantou US$ 250 milhões. Com o aporte, o valor de mercado da startup chegou a US$ 4,5 bilhões.
Expansão passa por portfólio e aposta no Brasil
A primeira frente de expansão da Decagon acontece com a maior variedade de serviços oferecidos. A empresa começou com um atendimento ao cliente simples, em que responde e tira dúvidas de demandas dos usuários.
Agora, Zhang busca expandir cada vez mais os produtos oferecidos. “Pode ser, por exemplo, o agente ligar proativamente para um cliente para ajudá-lo com um processo de onboarding, fazer cobranças ou contar a ele sobre um novo produto”, diz.
O crescimento também é sustentado pela expansão internacional. Depois de chegar à Europa e à Austrália, a aposta para os próximos anos está na América Latina, em especial no Brasil e no México.
A Decagon já atende empresas como o Mercado Livre e a NG.Cash na região e agora lança um escritório em São Paulo (SP). Para a Decagon, a escala das operações e a diversidade do mercado brasileiro tornam o país um ambiente relevante para o desenvolvimento e a adoção de agentes de IA.
“Os principais mercados para nós são Brasil e México, mas também estamos interessados em Colômbia, Chile e Peru”, acrescenta Eduardo Rubini, head de desenvolvimento de negócios para a América Latina.
O Brasil e a indústria global de IA
Quando se olha o mercado de IA no geral, Zhang acredita que o Brasil ainda não está entre as primeiras prioridades da indústria global de IA. Na avaliação dele, os Estados Unidos aparecem naturalmente em primeiro lugar, por serem o maior mercado, seguidos pela Europa. Depois disso, empresas de tecnologia precisam decidir entre regiões como a América Latina e a Ásia. Nesse cenário, ele vê espaço para o Brasil ampliar sua relevância.
Para ele, uma das formas de o país ganhar importância é acelerar a adoção de aplicações e plataformas desenvolvidas para a nova geração de inteligência artificial, especialmente soluções que já nascem orientadas pela IA.
Zhang também destaca a conexão entre o Brasil e o Vale do Silício como um fator importante para esse processo. Essa aproximação permite que empresas brasileiras conheçam mais rapidamente o que está sendo desenvolvido no ecossistema de tecnologia americano e levem esse conhecimento para o mercado local. Ao mesmo tempo, a presença de empresas como a Decagon no Brasil permite que companhias do Vale do Silício estejam mais próximas dos clientes e entendam melhor as demandas do país e da região.
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