Luca Guadagnino atropela seu filme sobre Bernardo Bertolucci com ego grande
É possível gostar muito de um filme e, ao mesmo tempo, ter raiva dele. É mais ou menos essa a sensação deixada por "Joie de Vivre", o enorme documentário de Luca Guadagnino sobre Bernardo Bertolucci que estreou em Veneza. São sete horas e quinze minutos —divididos em duas sessões, uma de quase três horas e meia, outra de quatro. É profundo, apaixonado e, especialmente, muito bem pesquisado. Mas ninguém merece ficar sentado tanto tempo.
Este é certamente o filme dos sonhos de Guadagnino, indicado ao Oscar por "Me Chame pelo Seu Nome", além de diretor do ótimo "Rivais" e dos medianos "Depois da Caçada" e "Queer". Logo no começo da nova produção, Guadagnino diz que o visual elegante de Bertolucci, uma de suas principais referências, foi o que primeiro lhe chamou a atenção.
Depois, ele se encantou com a erudição de Bertolucci, que falava três línguas e sabia literatura, poesia, pintura, ópera e música. Bertolucci tinha marcas registradas, como os temas grandiosos e corriqueiros, que abordava com o mesmo cuidado, a coragem de inserir seus personagens em situações tabu, e seu visual impecável, sempre com muitas cores e iluminação sofisticada.
O documentário examina obsessivamente o cinema de Bertolucci, e todos os aspectos claros e obscuros são detalhados por Guadagnino. O problema é que ele se coloca por demais no filme. Conduz entrevistas, mostra lugares onde cenas famosas foram feitas e fala demais. Não precisava.
O problema não é aparecer, mas a proporção com que isso ocorre. "Joie de Vivre" deveria ser um mergulho em Bertolucci e, em vários momentos, parece também um autorretrato de Guadagnino através do mestre. É um documentário conduzido mais pelo ego do que pelo superego.
O que é uma pena, já que o material é extraordinário. Fora a pesquisa incrível, Guadagnino faz boas entrevistas com diretores como James Gray, de "Ad Astra", David Cronenberg, de "A Mosca", Alfonso Cuarón, de "Gravidade", e Martin Scorsese, de "Taxi Driver". Aparecem ainda as atrizes Margot Robbie e Debra Winger, fora vários críticos, historiadores e estudiosos do cinema italiano e da história do cinema.
Quem não sabe quem é Bernardo Bertolucci sai dessa maratona com muitas informações e vontade de conhecer os seus filmes. Quem sabe pouco sobre o cineasta, autor de algumas das cenas mais belas e mais perturbadoras do século 20 —como a da manteiga em "O Último Tango em Paris" ou a da mãe que masturba o filho viciado em heroína em "A Lua" — sai com a impressão de que não conhecia quase nada.
E quem conhece muito tem o prazer de rever belos trechos de filmes incríveis. Mas, também, sai do cinema exausto de Luca Guadagnino.
Um dos grandes prazeres do filme são as visitas a locações reais dos filmes de Bertolucci. Guadagnino volta a lugares onde o diretor filmou, mostra o que permaneceu e o que mudou, compara os espaços de hoje com o que vemos nas telas. As cidades, casas e ruas ganham uma espécie de segunda vida. Mas todos com o mesmo personagem em cena.
E há os filmes, em abundância. "Antes da Revolução", "O Conformista", "O Último Tango em Paris", "1900", "A Lua", "O Último Imperador", "O Céu Que Nos Protege", "O Pequeno Buda", "Os Sonhadores". Guadagnino volta às cenas, desmonta quadros, discute atores, sexo, política,luz, desejo. É uma aula de cinema.
A parceria com a Bertolucci Foundation explica a fartura de imagens. O filme teve acesso ao patrimônio do cineasta e autorização total para usar extensamente suas cenas. Guadagnino não precisa ilustrar uma ideia com dois segundos de "O Conformista", pode mostrar a sequência inteira, revê-la, comentá-la.
Mas o descuido estético do documentário, grave em qualquer filme, ainda mais num tão longo, incomoda. Guadagnino não liga para sua aparência, vestido como Adam Sandler, com números maiores que os seus, e parece não ligar para a dos entrevistados.
Martin Scorsese, por exemplo, dá uma entrevista em seu estúdio em Nova York, onde uma sala de cinema profissional exibe, em grande estilo, seus filmes, os que restaura e os que adora compartilhar com críticos, amigos e familiares. É um cenário extraordinário. Mas Scorsese aparece sentado em frente a uma parede escura, filmado por uma câmera baixa que corta seus pés. É um detalhe pequeno. Mas, em um filme tão longa, dá tempo de reparar em tudo.
Até Margot Robbie, talvez uma das mulheres mais lindas que já existiram, não está deslumbrante. Fica claro que ela está ali menos pela busca de reflexões originais sobre Bertolucci do que, talvez, como uma cota de beleza física. Não que ela não tenha o que dizer. Mas o filme parece não encontrar uma função à altura de sua presença.
É estranho, porque Bertolucci é justamente um cineasta para quem a imagem nunca foi um detalhe. Seus filmes chamam a atenção por abordar política, sexo, literatura, história, poder. Mas também pela maneira como enquadram, iluminam e põem corpos dentro de um espaço.
"Joie de Vivre" tem material para ser essencial. Poderia ser resolvido em duas partes de uma hora e meia. Seria uma aula de cinema. Com sete horas e quinze, porém, se torna um exercício desnecessário de como passar tanto tempo sentado, vendo um filme que tinha tudo para ser incrível, mas que está envolto numa camada de gordura e formada, principalmente, pelo ego de seu diretor.
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