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Monday, October 12, 2026

Nossa Senhora, a santa que se tornou a versão cristã de deusas da antiguidade

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Erguido sobre bases patriarcas, machistas e, em muitas situações, até misóginas, o cristianismo se fundamenta teologicamente em figuras masculinas ou descritas a partir da ótica masculina. Jesus era homem, assim como eram homens os 12 apóstolos, seus primeiros e mais próximos seguidores. Deus é chamado de forma masculina —é pai, é criador, é senhor, é rei.

Nesse contexto, de modo especial na vertente cristã-católica, gradualmente foi sendo reforçada a figura de Maria, aquela relatada nos textos bíblicos como a jovem nazarena que concebera Jesus.

Se do ponto de vista teológico a visão sobre ela foi ganhando força com dogmas e tradições —"virgindade perpétua", "mãe de Deus", etc.—, antropológica, social e psicologicamente muitos especialistas entendem que ela acabou suprindo, na psiquê humana, o papel ocupado por deidades femininas de mitologias ancestrais.

Professor na UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), onde coordena o Laboratório de Análise do Discurso e da Argumentação Religiosa, e autor do livro Comunicação Responsiva, o linguista e palestrante evangélico Lucas Nascimento argumenta que "a estrutura da fê da psiquê humana não tolera desequilíbrios absolutos".

"Para compreender como o catolicismo integrou o princípio feminino no centro de sua devoção, precisamos articular quatro lentes fundamentais: a teológica, a sociológica, a arquetípica e a discursiva", contextualiza Nascimento.

Ele cita o livro "O Rosto Materno de Deus", do teólogo e filósofo Leonardo Boff, para ilustrar que teologicamente "o cristianismo por vezes esqueceu que a própria revelação carrega dimensões femininas fundamentais". Na tradição hebraica, afluente do cristianismo, a ideia do "sopro criador" é trazida no feminino —a palavra Ruach.

"A teologia católica, argumentam os teólogos católicos, eleva Maria não para equipará-la a uma divindade pagã, mas para posicioná-la como o ápice da criatura humana redimida, preenchendo o vazio institucional com uma presença de ternura que humaniza a relação entre a criatura e o criador", diz Nascimento.

Sociologicamente, ele acredita que Maria "cumpre um papel estrutural de compensação numa instituição rigidamente hierárquica e dominada pelo poder masculino". E vem em forma da "mulher pobre que desafia a lógica dos poderosos", destaca. "A grande guardiã afetiva dos fiéis, especialmente das camadas populares."

Há a camada psicológica também. Para isso, Nascimento cita o livro A Grande Mãe, do junguiano alemão Erich Neumann (1905-1960). E vai "ao porão da psiquê", pontua.

"Milênios antres de Cristo, a humanidade já cultuava o sagrado sob a imagem da ‘Grande Mãe’", afirma o professor. São exemplos de deusas, como Ísis, no Egito; Ishtar, na Mesopotâmia; Cibele, na Frígia; Deméter, na Grécia. "Eram divindades ligadas à terra, à fertilidade, à proteção e ao mistério da vida e da morte", explica Nascimento.

"Quando o monoteísmo patriarcal tentou banir essas figuras, diz-se que a psiquê humana reagiu, pois a alma não suporta um divino estritamente masculino", comenta Nascimento. "A ascensão gradual de Maria no catolicismo, consolidada nos dogmas e na devoção popular, não foi um acidente histórico, mas, em uma perspectiva arquetípica, por conta de uma necessidade do inconsciente coletivo."

"É possível fazer essa leitura sem precisar concluir que Maria seja uma ‘deusa’", reconhece o frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo, psicanalista e autor do livro "60 Dias para Mudar". "Aí está uma das tensões mais interessantes do catolicismo, teologicamente: Maria não é uma divindade."

"Sociológica e simbolicamente ela ocupa um espaço do feminino que, em muitas culturas foi anteriormente ocupado por figuras divinas femininas", diz o frade.

Autora do livro "Cristianismo no Feminino: A Presença da Mulher na Vida da Igreja", a antropóloga e historiadora Lidice Meyer, professora na Universidade Lusófona, em Portugal, cita representações artísticas que, desde o Paleolítico, "já apontavam para a estreita relação entre religiosidade e a figura materna", com a "existência de divindades femininas".

Historicamente não foi uma artificialidade erguida de hora para outra. A devoção mariana, afinal, é resultado de longo e gradual processo. "De cristianização e inculturação do Império Romano a partir do século 4º", diz Nascimento.

"Quando o cristianismo deixou de ser perseguido e se tornou religião oficial, a Igreja precisou absorver e dar nova significação às massas recém-convertidas que traziam séculos de devoção profundamente enraizada às divindades femininas locais, como Ísis, Cibele e Ártemis. Para evitar rupturas violentas que inviabilizassem a evangelização, os santuários, os ritos e as imagens dessas antigas deusas foram paulatinamente reconsagrados à figura de Maria."

Ele explique que até mesmo características visuais dessas antigas divindades, como o manto azul, a lua aos pés, o cetro de rainha e a representação da mãe que amamenta uma criança, foram transfigurados e incorporados à iconografia mariana.

"A religiosidade popular continuou a saciar sua necessidade ancestral de proteção e amparo materno divino, mas agora sob o crivo de uma fachada cristã, transformando templos pagãos em capelas marianas e fundindo a herança mítica do mundo antigo na nova estética da devoção católica", analisa o professor e pesquisador.

"Desde os seus primórdios, o homem já demonstrava uma veneração especial pela figura feminina. A crença primordial na ‘Grande Mãe’ teria facilitado a cristianização das regiões pagãs pós-Constantino [quando Roma se torna oficialmente cristã]. É assim que alguns autores apontam para uma correlação simbólica entre a devoção a Maria e a crença mitológica na Grande Mãe, que teria sido assimilada pelos cristãos primitivos na figura da Virgem [Maria]", explica Meyer.

"Com a cristianização dos povos politeístas, a figura de Maria, anteriormente secundária, cresce em importância sendo associada aos símbolos do sagrado feminino e funcionando como um elemento facilitador para a conversão", analisa Meyer.

O frade franciscano pede cuidado para não "cairmos numa explicação simplista" de que a Igreja Católica tenha "pegado as antigas deusas e transformado todas em Nossa Senhora". "Não, historicamente isso seria inadmissível", afirma.

Por outro lado, ele entende que quando o cristianismo se espalhou pelo Mediterrâneo e depois se alastrou pela Europa, "ele entrou em contato com culturas que possuíam arquétipos femininos religiosos muito fortes". "Então Maria encontrou um terreno simbólico muito forte", argumenta.

"Maria não é uma deusa que o cristianismo herdou das religiões antigas, mas é uma mulher que o cristianismo colocou no centro da encarnação [de Deus como Jesus]", enfatiza Solfa. "Ao longo dos séculos, o imaginário cristão encontrou nela aquilo que muitas culturas já procuravam nas figuras femininas do sagrado."

No meio religioso, portanto, a mera transposição dos arquétipos é vista com muitas ressalvas. Autor do livro "Um Olhar Sobre Maria, Serva do Senhor", o teólogo e pastor luterano Valdir Steuernagel ressalta que "na tradição cristã não há nenhum apontamento para uma ‘deidade feminina’, nem que esta seja personificada como Maria, a mãe de Jesus".

Como enfatiza o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, tal construção "não foi planejada por uma mente brilhante", mas aconteceu gradualmente de Maria "representar o feminino em uma hierarquia [religiosa] bastante feminina". "Ela ocupou esse espaço", afirma. "Como uma deidade de rosto materno."

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