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Friday, September 25, 2026

E se a Rússia atacar Portugal?

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Esta é a história do dia da Rádio Observador: e se a Rússia atacar Portugal? Este é o som de um drone carregado de explosivos a acertar no alvo. Há quase cinco anos que vemos isto todos os dias na Ucrânia . Mas agora a ameaça, de acordo com os serviços secretos norte-americanos, pode estender-se a vários países europeus, incluindo os do sul da Europa, os mais afastados de Moscovo. Hoje vou conversar com o tenente-general Marcos Ronha, analista de assuntos militares. Vamos discutir a credibilidade desta ameaça, perceber como poderiam ser lançados estes ataques de drone e, claro, vamos falar do risco que corre Portugal e de que forma, se é que tem alguma, pode o país defender-se de um ataque deste tipo. Eu sou o Pedro Benovides e esta é a história do dia de sexta-feira, 25 de setembro. Tenente-general Marcos Ronha, bem-vindo.

Olá, boa tarde, Pedro. Como está? Tudo bem?

Bem, obrigado. Vou aproveitar que está aqui conosco nesta história do dia para ver se consigo que nos tranquilize, porque esta ameaça de que tivemos conhecimento, e que ontem esteve nas notícias, que era a de que a Rússia se preparava para eventuais ataques por drones contra países do sul da Europa, nomeadamente Espanha, França e Itália. Gostava de saber como é que olhou para isto, se lhe parece que é uma ameaça credível, que é uma ameaça iminente. Como é que olhou para isto?

Vejamos, a ameaça credível é de certeza, não é? Porque se a Rússia tem essa capacidade, e isso nós sabemos que tem, já instalou diversos tipos de sistemas mais robustos em navios da guerra híbrida, navios da Frota Fantasma, por exemplo, e se tem essa capacidade e já manifestou algumas vezes essa intenção, com certeza é uma ameaça que não devemos descartar. Isso não. Aliás, sabemos através dos sistemas de informações, que a possibilidade deste tipo de ações mais robustas do lado da Rússia é uma questão que não se pode descartar, porque a própria Rússia entra com isso nos seus planos. E, portanto, essa questão tem que ser vista. Eu acho que não é descartado. Não quer dizer que seja para criar de algum modo algum tipo de pânico, mas julgo que temos que estar muito atentos a isto e os países todos da Aliança Atlântica, da União Europeia, não só estes três, estarem muito centrados em monitorizar o movimento destes navios e o manifestar do lado deles algum grau de possibilidade de atividades desta natureza. E tem que se verificar se de fato têm as rampas de lançamento dos drones montadas, naturalmente.

Que tipo de drones é que nós estaríamos a falar?

Pelo que lhe foi dito e que vem escrito, serão drones gerando, que é o Shahed, é a versão russa do Shahed. Portanto, são drones com umas centenas, quando não menos, de quilômetros de alcance e que na sua versão de ataque estão equipados com umas dezenas de quilos de explosivo. E são os drones que têm provocado os efeitos que nós temos visto em Kiev, em Odessa e noutras cidades da Ucrânia.

Muitas vezes fala-se da ameaça russa, sobretudo nos países de fronteira. São esses que estão essencialmente preparados e particularmente atentos a eventuais ataques. Agora, França, Espanha e Itália estão bastante longe da Rússia. Por que estes três países em particular? O que a Rússia poderia querer sinalizar com o ataque a estes países?

Sim, a Rússia, ao ter este tipo de atitude e ter este tipo de planeamento, e isto ter sido percebido pelos serviços de inteligência europeus, tem aqui duas linhas de ação, por assim dizer. Uma faz parte da sua estratégia normal de instilar o medo nas opiniões públicas europeias. Quando Medvedev ameaça com as armas nucleares, que ataque a Londres, que ataque a Paris, que ataque a Polónia, que ataque isto, que ataque aquilo. Portanto, é no domínio da narrativa. Mas nós sabemos, por acesso que tivemos a informações relativamente a ações de planeamento e de treino que as Forças Armadas Russas têm conduzido nalgumas circunstâncias, que esta é a opção de conduzir ações ou fazer escalar a guerra híbrida, que hoje está limitada a ações de pequena dimensão e de pouco efeito cinético de ataque, por assim dizer, de efeitos no terreno, de poder fazer escalar isso utilizando navios da Frota Fantasma. Que, aliás, já os utilizou, não tanto nesta dimensão mais robusta, mas para sistemas de interdição eletromagnética, de afetar os sinais de GPS dos aviões comerciais, enfim, um conjunto de coisas que tem feito. E, portanto, não é de descartar, não se pode descartar, que a Rússia possa vir a empregar ações desta natureza no futuro. Relativamente, se perceber que isto é necessário fazê-lo no sentido de atingir o seu objetivo estratégico, que é conduzir a que alguns países deixem de apoiar a Ucrânia nesta dimensão com que está a ser feita, estamos convencidos que não hesitará em fazê-lo. Portanto, os europeus têm que estar preparados e prever estas ações e tomar medidas defensivas relativamente a este tipo de ações.

Deixe-me só perguntar-lhe, porque é inevitável, desta lista de países, fala-se do sul da Europa, fala-se de Espanha, de França, de Itália, e não se fala de Portugal, mas acha que Portugal também pode estar em risco?

Todos os países que apoiam a Ucrânia estão em risco. Podemos não estar nas prioridades iniciais dos russos, eventualmente, mesmo assim, há aqui uma questão sensível que nós não podemos esquecer. Não posso ocultar esta situação que já se passou. Aliás, a Rússia já sinalizou uma empresa portuguesa que produz drones para a Ucrânia, e que os drones têm tido muito efeito, que constitui um alvo eventual da Rússia. Portanto, essa circunstância também tem que ser tida em consideração, naturalmente. E portanto, neste caso concreto de Portugal, embora não sejamos dos maiores doadores e de fornecedores de dinheiro, embora tenhamos dado o nosso contributo, temos infraestruturas críticas, nomeadamente na questão da produção dos equipamentos militares, que possam ser alvo de algum tipo de ação dessa natureza. Não podemos descartar isso. Vamos lá ver, temos que perceber também uma coisa. Um eventual ataque da Rússia à Espanha podia não ser feito diretamente a partir de águas que estão nas imediações do território espanhol. A Rússia pode utilizar trajetórias onde sabe que há menos possibilidade dos seus drones serem atingidos ou detetados. E isso leva-nos a pensar que Portugal poderá ser uma das vias, caso a Rússia pretendesse fazer isso, poderia-se utilizar trajetórias que não são diretas do mar para as infraestruturas espanholas e podiam ter que passar por territórios de outros países. E portanto, também temos que ser responsáveis pela vigilância do nosso espaço aéreo e não só da proteção das nossas infraestruturas críticas, mas também interditar o uso do nosso espaço aéreo e das nossas águas marítimas, e monitorizar os navios da frota fantasma russa, que estão identificados, grande parte deles, monitorizá-los e segui-los e tentar perceber se há manobras no sentido de pôr em ação, e para isso é preciso montar as rampas de lançamento de drones cá fora dos navios, que não estão montadas em permanência, para serem lançados. Portugal não pode ficar de fora deste esforço, não só por não ser eventualmente o alvo prioritário do ataque, mas pode ser o nosso território marítimo e o nosso espaço aéreo serem utilizados para este tipo de ações, o que não é simpático sermos acusados que não protegemos o nosso espaço aéreo e que possa o nosso espaço aéreo vir a ser utilizado para colocar drones em território espanhol, naturalmente.

E já agora, porque esta questão imagino que também se coloque a quem nos estiver a ouvir. Portugal teria capacidade, neste momento, de se defender de um ataque dessa natureza?

Vejamos, não tem muitas capacidades como, aliás, os europeus também não têm.

Ia estender depois a pergunta aos restantes da Europa.

A questão, Pedro, nós vemos o que se passou no Golfo Pérsico, em que as próprias bases americanas foram atingidas com drones e os Estados Unidos têm os sistemas mais evoluídos. Israel também foi atingido com drones, já era. Portanto, depende do número de drones que são lançados. É evidente, se for lançado um drone ou dois, eventualmente poderia haver essa capacidade, embora não seja fácil. É preciso identificar a origem e ver a trajetória. Nós, Portugal, está neste momento a fazer um investimento sob o ponto de vista dos sistemas de defesa aérea e dos sistemas antidrone, mas à semelhança de todos os outros países europeus, estamos um bocadinho à frente da estaca zero. Estamos muito perto da estaca zero em termos de capacidades defensivas antidrone. Bom, já nem falo de mísseis balísticos, que isso é para o mais, ninguém tem, nós também não temos. Mas a capacidade antidrones, principalmente para drones desta natureza, ainda é muitíssimo limitada. A possibilidade de destruir, se lançassem 10 drones destes, a possibilidade de passar mais de 50% é inéditíssima.

E agora quando se fala de um grande investimento de defesa que está aí previsto e que faz parte daquilo que os países europeus vão ter de fazer, até por força das circunstâncias, parece-lhe que está a começar a ser pensado o reforço de sistemas de defesa contra este tipo de ataques ou acha que ainda se está a pensar um bocadinho para guerras à antiga com o armamento mais antigo?

Vejamos, a pensar, a própria União Europeia tem um programa para defesa antidrone ou contra drone do território europeu de uns bilhões largos de euros. Só que a gente não se defende com dinheiro, a gente tem que se defender com capacidades que têm que ser criadas, têm que ser construídas e que são precisas aos milhares. Quer dizer, não é bem como era a guerra antigamente, com as 10 baterias de Patreon que nos sentíamos confortáveis, e que nada nos atingia. Já percebemos hoje, tanto da guerra da Rússia contra a Ucrânia, como da guerra do Oriente Médio, que isso não é assim. É preciso uma capacidade enormíssima de sistemas antidrone para fazer a defesa completa do sistema. Agora, o que se tem passado? O que se passou é que houve este chamamento com o projeto Sef, desses bilhões de euros que podem ser gastos e que Portugal está a gastar, e que têm que ser gastos na indústria europeia. O problema é que os europeus não produzem estes sistemas, nem os sistemas de defesa antimíssil, nem os sistemas de defesa antidrone nesta fase, em quantidade suficiente. O que é que está a acontecer e é aquilo que tem que ser dinamizado? É, por um lado, uma cooperação grande com a Ucrânia nesta área, das empresas, e há empresas portuguesas a fazer isso e a participar nisso. Têm que ser os próprios países a fornecer até da capacidade dos sistemas antidrone, ou seja, a construí-los. Nós estamos também com empresas nessa área, naturalmente. Agora Nós não conseguimos ter sistemas de drones antidrones. Temos já protótipos e estão a ser testados até nesta fase agora, como sabemos, nalguns exercícios que têm acontecido, como o exercício que aconteceu em Tróia agora este mês de setembro e que vai acontecer em Santa Margarida agora também em setembro e outubro, onde estão a ser testados sistemas destes. Mas, Ópilo, nós precisávamos de milhares de drones antidrones. Aquilo é preciso quase dois drones antidrones para cada drone. E, portanto, se lançarem às centenas de drones, conforme nós temos visto na guerra da Ucrânia e no Médio Oriente, é preciso uma certa robustez. E depois é preciso mais do que isso, é preciso sistemas de detecção, é preciso radares, é preciso sistemas de comando e controle que transmitam a informação dos radares para o sistema dos operadores, que têm depois que lançar os seus drones antidrones e os mísseis antiaéreos e tudo isso, e para os aviões e não sei o quê. Portanto, todo esse sistema tem que ser criado, que não está criado, naturalmente, embora havemos de lá chegar. E é essa uma das preocupações de quem está mais alerta para estas coisas, nos quais eu me incluo. Ou seja, há aqui um risco de Putin, sabendo que a Europa dentro de dois ou três anos poderá estar capacitada com isto, de ser tentado a fazer qualquer coisa antes disso.

Enquanto tiver tempo.

Pois é isso, é um problema de tempo. Putin não vai hesitar em tomar as medidas todas necessárias e suficientes para quebrar o apoio dos europeus à Ucrânia, porque sabe que só por aí é que consegue ganhar. E sabe que há um timing a partir do qual ele terá dificuldade em fazer operações de outra natureza. Quando os europeus estiverem equipados, isso vai demorar três, quatro anos, portanto, é provável que Putin seja tentado a fazer qualquer coisa antes.

Vamos ver o que é que acontece, senhor tenente-general Marcos Ronha. Muito obrigado, foi um gosto ouvi-lo.

Está obrigado, boa tarde.

Eu conversei com o tenente-general Marcos Ronha numa conversa gravada exatamente à hora em que, em Nova Iorque, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, dizia nas Nações Unidas ser inaceitável que no último ano a Rússia tenha ameaçado a segurança de vários países europeus. Foi um discurso bastante duro, mas os últimos anos mostram que as palavras duras têm pouca eficácia em Moscovo. Os novos avisos mostram que a Europa precisa mesmo de sistemas de defesa antidrone e, como vimos nesta conversa, é preciso que os tenha mais cedo do que tarde. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.

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