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Friday, October 16, 2026

É simples: manifestação, sim; mas ocupação ilegal, não

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Muito bom dia, são 8h23. O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel. Bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?

Bom dia. O meu bom de hoje é a ordem pública. Eu sei que para algumas pessoas fico a parecer um velho jarreta ao falar sobre estas coisas antigas, mas a ordem pública é um bem inestimável. Os ativistas da habitação participaram de uma manifestação no dia 10. Depois dessa manifestação acabar, decidiram fazer um acampamento numa das principais praças do Porto. O poder público permitiu que esse acampamento se mantivesse sábado o dia todo, depois nessa madrugada, depois domingo o dia todo, depois noutra madrugada e só na segunda de manhã foram forçar o levantamento das tendas. E apesar disso, os ativistas voltaram, montaram novamente o acampamento e só na madrugada de 14 pra 15 é que a polícia lá foi outra vez. A IGAI e o Ministério Público e depois um juiz, eventualmente, decidirão se o uso da força pela PSP foi ou não proporcional. Nós neste momento temos duas versões contraditórias sobre o que aconteceu, mas uma coisa é certinha: às 3h, quando a polícia atuou, não estava a decorrer manifestação nenhuma, pela razão simples de que a lei proíbe manifestações às 3h. Portanto, se era às 3h, não era uma manifestação. É muito fácil perceber isto. O que estava a acontecer era uma ocupação ilegal do espaço público, e lá está, no espaço público tem de haver ordem pública, porque o espaço público não é privativo de ninguém. Senão, depois aparece alguém que também quer ocupar a praça e depois tem que desocupar as pessoas que lá estão para ocuparem a praça e depois vêm outros que também querem ocupar a praça e andamos nisto. E quando dermos por nós, já não há solução.

Ou temos as praças todas ocupadas. Cada um com seu protesto.

Também é possível. Paulo, como se dizia em tempos idos: "A praça é do povo, não é de Moscovo."

Ora. Pois.

Portanto, podemos sempre voltar a esses tempos.

O teu mau é José Luís Carneiro.

É José Luís Carneiro, que convém lembrar desde já, foi ministro da Administração Interna. Convém lembrar desde já. Até houve um telefonema pra RTP, tenho ideia, por causa de um cartoon. Ele fez um telefonema porque não gostou de um cartoon, porque estava a defender a polícia. Enfim, quando ontem lhe perguntaram se tinha visto as imagens da intervenção policial no Porto, o líder do PS, que estava lá longe, no estrangeiro, muito longe, ele disse que não. "Não, não tinha visto. Olhe, não vi. O que é que eu lhe hei de fazer? Não vi, estou aqui no estrangeiro, não vi." Mas mesmo não as tendo visto, desatou a fazer considerações. Enviou uma palavra de solidariedade aos jovens que estavam a fazer um protesto ilegal e depois disse isto: "As informações que recebi é de que teria havido uma intervenção desproporcional no uso dos meios em relação àqueles jovens". E depois, José Luís Carneiro ainda disse que as manifestações pela habitação são a prova do falhanço da política de habitação do governo. E alguém que pertenceu ao governo de António Costa, durante o qual se fez zero pela habitação, ou há quem defenda até menos zero, porque a inação agravou o problema. Alguém que pertenceu a estes governos, que andou por lá muito satisfeito, muito contente, a fazer telefonemas pra RTP porque não gostava de cartoons. Essa pessoa dizer isto é a demonstração cabal, como se costuma dizer, de que há políticos que têm a memória de um peixinho de aquário.

Eu acho é que eles pensam que nós temos memória de peixinho de aquário.

Também pode ser isso.

Também jogam com isso. Mas há pessoas que falam que se lembram do tal cartoon, que basicamente criticava a ação da polícia.

Eu tenho um amigo que diz: "Tenho uma memória péssima. Lembro-me de tudo." E pronto, é isso, eu também. Minha memória é péssima.

É uma prisão, isso.

Miguel, o teu vilão apareceu ontem.

Olha, foi. Apareceu ontem o líder do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, foi a correr em direção à Praça Dom João I no Porto. Foi a correr e já o imagino esbaforido a correr, a começarem a cair coisas e ele muito rápido pra aproveitar as luzes dos holofotes deste protesto por causa da habitação. Lá esteve ele a tentar reanimar o seu partido e a discursar para cerca de duas mil pessoas. Se quisesse, o Bloco não conseguiria juntar 20 pessoas numa das paragens de autocarro da Praça Dom João I. Não sei se ainda há a paragem de autocarro. Eu que sou do Porto, passava três dias por semana por ali e havia ali uma paragem de autocarro. Não sei se ainda há, mas seja como for, pode ser uma paragem de autocarro metafórica, mas o Bloco não conseguiria juntar 20 pessoas. Mas como estavam ali aí umas duas mil, ou 2500, ou 3000, José Manuel Pureza lá foi pra se mostrar. Com certeza, o que o líder do Bloco quer é mais protestos, porque como não tem votos, o partido vira-se pra rua, é um clássico. Quando te faltam votos, vai pra calçada.

Ora, nem mais, tentar na rua aquilo que não consegue nas urnas.

Atenção, claro, com certeza, manifestações mais do que legítimas, mas lá está, manifestações e pras pessoas que nos estão a ouvir em casa, pras criancinhas que estão a caminho da escola. A nossa lei diz que manifestações é até à meia-noite e meia. Depois da meia-noite e meia, uma manifestação passa a ser outra coisa. Pronto, só pra ficar tudo esclarecido. José Manuel Pureza esteve lá antes da meia-noite e meia. Também não quero aqui confusões.

E pronto, dentro da legalidade.

Isso.

Vamos ao resumo: o bom desta sexta-feira é a ordem pública, o mau é José Luís Carneiro, e o vilão de hoje é o líder do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a pouco também fica disponível lá em podcast.

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É simples: manifestação, sim; mas ocupação ilegal, não — KioskNews