Tesla e Embraer já saíram do chão. O desafio agora é fazer o ‘carro voador’ virar transporte
RESUMO +
O novo Tesla Roadster recolocou os carros voadores em discussão, mas a demonstração de manobras aéreas não equivale a um serviço de transporte pelo céu. A Eve, do grupo Embraer, desenvolve uma aeronave elétrica, enquanto Alef e EHang seguem outras propostas. Testes, certificação e infraestrutura determinam o que cada projeto pode oferecer.
No desenho "Os Jetsons", sair de casa de carro significava ganhar o céu. Entre prédios suspensos e máquinas que cuidavam das tarefas domésticas, a família atravessava a cidade pelo ar, como se voar fosse apenas outra maneira de ir ao trabalho. Desde a estreia da animação, em 1962, aquela rotina ajudou a dar forma a uma expectativa sobre o futuro: um dia, nossos automóveis também deixariam o asfalto.
Elon Musk ofereceu uma provável resposta nesta quinta-feira, 15, quando a Tesla apresentou um novo Roadster que percorreu uma rampa invertida, girou no ar e voltou ao chão com auxílio de propulsores desenvolvidos com a SpaceX.
O “carro voador” existe como demonstração, mas ainda está distante da rotina imaginada no desenho, já que as manobras foram realizadas sem motorista, em uma área controlada, e não comprovaram viagens aéreas prolongadas com passageiros.
Enquanto a Tesla tenta acrescentar movimentos de voo a um esportivo, a Eve, empresa do grupo brasileiro Embraer, desenvolve uma aeronave elétrica para transportar pessoas entre pontos de uma cidade.
A americana Alef procura combinar direção terrestre e decolagem vertical no mesmo veículo, e a chinesa EHang já obteve autorizações para operadores oferecerem experiências aéreas pagas.
Sob o mesmo nome (e ambição), essas empresas tentam construir futuros diferentes: um carro que deixa o chão por alguns instantes, uma aeronave que funciona como táxi ou um veículo que alterna entre rua e céu. Entender essa diferença ajuda a medir o que já saiu do papel — e quanto ainda falta para a garagem dos Jetsons chegar à vida real.
A Tesla sai do chão, mas...
O anúncio do novo Roadster reuniu a promessa de um esportivo elétrico de alto desempenho à ambição de fazer um automóvel sair do chão com tecnologia desenvolvida com a SpaceX. Na apresentação, a Tesla mostrou um conjunto que combina motores elétricos, aerodinâmica ativa e sucção sob a carroceria para aumentar a força do veículo contra uma superfície.
Em determinadas configurações, os propulsores de gás comprimido acrescentam empuxo, ajudando a acelerar o carro e a controlar sua orientação quando os pneus deixam de tocar o solo.
As possibilidades variam entre as três configurações anunciadas. A Performance tem dois lugares e utiliza aerodinâmica e sucção para aumentar a aderência, enquanto a Thrust acrescenta propulsores traseiros destinados a ampliar a aceleração.
Já a Rocket concentra a proposta de voo, com um assento e jatos distribuídos ao redor da carroceria para produzir movimentos verticais e rotações, segundo a fabricante. O acesso será por convite, e a própria Tesla informa que essa configuração não está aprovada para uso em vias públicas.
As manobras aéreas deram uma demonstração dessa engenharia, mas não estabeleceram o alcance de uma viagem pelo ar nem o tempo durante o qual o Roadster conseguiria permanecer nessa condição.
Musk prevê o início da produção em 2028, após sucessivos adiamentos de um projeto apresentado originalmente em 2017. Entre o teste em uma área preparada e a chegada aos compradores, a empresa ainda precisa esclarecer quais capacidades estarão disponíveis em cada configuração e em que condições poderão ser utilizadas.
O “carro voador” da Embraer

eVTOL: Embraer está de olho na certificação em 2027 (eVTOL/Divulgação)
A Eve parte de outra lógica. Seu projeto é um eVTOL, sigla em inglês para aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical, desenvolvido para levar passageiros entre locais de embarque e desembarque.
Embora seja chamado de carro voador, ele não foi concebido para circular pelas ruas: sua proposta se aproxima de um táxi aéreo, com operação e infraestrutura próprias da aviação.
A configuração anunciada prevê quatro passageiros e um piloto, com alcance de projeto de 100 quilômetros. Oito rotores são dedicados à sustentação vertical, enquanto uma hélice traseira impulsiona a aeronave para a frente e as asas sustentam o voo de cruzeiro. Assim, o equipamento separa os mecanismos necessários para levantar do solo daqueles usados para percorrer uma distância pelo ar.
O protótipo em escala real realizou seu primeiro voo, sem tripulação, em dezembro de 2025, nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior paulista. Em agosto de 2026, a Eve anunciou a primeira transição parcial, com o acionamento da hélice traseira durante o voo.
O teste durou três minutos e nove segundos e marcou o início dessa etapa da campanha de desenvolvimento.
A passagem para um serviço de transporte depende de mais do que ampliar os testes.
Em setembro, previsões apresentadas pela Eve e pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em reunião divulgada pelo Ministério de Portos e Aeroportos, apontaram a possibilidade de primeiras operações comerciais em 2028, após a conclusão da certificação.
O prazo é uma expectativa condicionada ao avanço do programa, não uma estreia garantida.
A Alef quer reunir estrada e voo no mesmo veículo
O Model A, da americana Alef Aeronautics, tenta preservar uma característica da fantasia dos Jetsons: usar o mesmo veículo em diferentes ambientes. A empresa o desenvolve para rodar pelas ruas, decolar verticalmente e seguir pelo ar, em vez de oferecer apenas uma aeronave para deslocamentos entre pontos de pouso.
O projeto da Alef já apareceu em demonstrações públicas, e a companhia divulga vídeos de testes e referências à autorização especial recebida para voos experimentais.
Esse tipo de permissão deve ser distinguido da liberação para uso cotidiano: testar um veículo sob condições específicas não autoriza automaticamente um comprador a decolar de uma rua e atravessar a cidade pelo céu.
É uma proposta diferente tanto da Tesla quanto da Eve. No Roadster, o voo aparece como uma capacidade adicional de um esportivo; na Eve, o transporte é aéreo desde a concepção; na Alef, a ambição é combinar os dois meios de deslocamento no mesmo produto.
A EHang avançou nas autorizações para serviços pagos
Na China, a EHang desenvolve aeronaves elétricas sem piloto a bordo, com rotas predefinidas e monitoramento em solo. Seu EH216-S tem alcance anunciado de 30 quilômetros e velocidade máxima de projeto de 130 km/h, segundo a fabricante. O modelo também já participou de testes experimentais no Brasil.
Em março de 2025, duas operadoras receberam certificados da autoridade chinesa de aviação civil para oferecer serviços pagos com o EH216-S. As primeiras autorizações se concentraram em turismo e experiências aéreas, inicialmente com decolagem e pouso no mesmo local. A EHang explicou que outras modalidades dependeriam da evolução gradual das operações e das aprovações.
O avanço mostra por que a expressão “operação comercial” também precisa de contexto. Uma experiência turística paga em uma rota autorizada não equivale a uma rede de táxis aéreos disponível para levar passageiros a qualquer destino. A autorização define o serviço que pode ser prestado, e não apenas se a aeronave consegue voar.
O que falta para o céu entrar na rotina das cidades?
Os obstáculos não terminam quando um protótipo deixa o chão. Para operar, uma rede de transporte aéreo precisa de locais de pouso e decolagem, fornecimento de energia, procedimentos de segurança e integração ao controle do espaço aéreo. Esses temas fizeram parte da reunião do Ministério de Portos e Aeroportos com órgãos públicos e empresas em setembro.
Em São Paulo, o planejamento envolve vertiportos, recarga de baterias, capacidade da rede elétrica, ruído e conexão com ônibus, metrô e trens. A aeronave certificada é uma parte do sistema; os passageiros também precisam conseguir chegar ao embarque e continuar o percurso depois do pouso.
Uma aplicação apresentada pela Eve ao governo é a ligação entre a Zona Sul de São Paulo e o Aeroporto Internacional de Guarulhos, estimada pela empresa em cerca de 12 minutos de voo. A projeção se refere ao trecho aéreo planejado, sem estabelecer o tempo total entre sair de casa e chegar ao aeroporto, incluindo deslocamentos em terra e procedimentos de embarque.
Perguntas frequentes
O carro voador da Tesla realmente voa?
O Roadster demonstrou capacidade de sair do chão e realizar manobras aéreas breves. A apresentação não comprovou viagens prolongadas pelo ar com passageiros.
Qual é a diferença entre o Tesla e o projeto da Eve?
O Tesla é um esportivo com recursos para manobras aéreas em determinadas configurações. A Eve desenvolve uma aeronave elétrica para transportar passageiros entre pontos de embarque e desembarque.
O “carro voador” da Embraer poderá dirigir pelas ruas?
Não é essa a proposta. O eVTOL da Eve foi concebido como aeronave, com decolagem e pouso vertical.
Quando a aeronave da Eve começa a operar?
Previsões apresentadas pela empresa e pela Anac em setembro de 2026 apontaram a possibilidade de operações comerciais em 2028, após a conclusão da certificação.
Há projetos que combinam direção terrestre e voo?
Sim. A Alef desenvolve o Model A com essa proposta. Demonstrações e autorizações experimentais não equivalem à liberação irrestrita para uso cotidiano.
Já existem autorizações para serviços pagos com eVTOLs?
Na China, operadoras do EH216-S receberam certificados em 2025, inicialmente voltados a turismo e experiências aéreas sob condições específicas.
Por que os carros voadores ainda não fazem parte da rotina?
Os projetos estão em estágios diferentes e dependem de testes, certificação, autorização operacional e infraestrutura. Conseguir voar é uma etapa; oferecer transporte regular exige outras condições.
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