Ala mais moderada dentro do Partido Democrata amplia bancada e influência após eleições nos EUA
Durante boa parte da campanha para as eleições de meio de mandato, democratas mais à esquerda que desafiavam a cúpula do partido dominaram os holofotes na disputa para tomar o controle do Congresso, derrotando parlamentares experientes nas primárias e atraindo multidões, com promessas de reorganizar as prioridades do partido e transformar a política americana assim que chegarem a Washington.
Mas o caminho para a vitória avassaladora dos democratas foi pavimentado pelos moderados que passaram meses convencendo moradores de estados de tendência republicana de que eram dignos de confiança para governar, oferecendo aos insatisfeitos uma alternativa pragmática a Donald Trump.
O sucesso deles alterou o equilíbrio de forças no Congresso, dando ao deputado Hakeem Jeffries, provável próximo presidente da Câmara, e ao senador Chuck Schumer, potencial líder da maioria, —ambos moderados de Nova York vistos com desdém pela ala mais à esquerda— maiorias formadas em torno de parlamentares que fizeram campanha não como heróis esquerdistas, mas como populistas pragmáticos.
Eles prometem reduzir custos, melhorar a assistência à saúde e restaurar a confiança no governo, não necessariamente promover as amplas transformações defendidas pela ala liberal em ascensão no partido.
Para Jeffries, ele próprio um centrista que há muito equilibra as diferentes vertentes de sua bancada, a chegada de mais democratas moderados pode fortalecer sua posição para definir uma agenda voltada ao alívio econômico e a vitórias legislativas viáveis.
Mas também prepara o terreno para um possível confronto com a ala radical, que ajudou a mobilizar a base do partido e agora espera ver suas próprias prioridades refletidas na agenda da nova maioria.
"Está claro que foram os moderados desses distritos disputados que viraram a Câmara, que colocaram o martelo nas mãos de cada presidente de comissão e do presidente da Casa", disse em entrevista Elaine Luria, uma dessas democratas, que recuperou uma cadeira da Câmara na Virgínia perdida por ela quatro anos atrás.
A dimensão dos avanços dos moderados ficou evidente no crescimento dos grupos centristas no Capitólio. Muitos recém-eleitos desses grupos já deixaram claro que esperam que os democratas busquem resultados viáveis, em vez de grandes ambições ideológicas. E, diante da dimensão da maioria democrata na Câmara, o bloco relativamente menor de parlamentares de esquerda pode ter sua capacidade limitada de exigir que suas prioridades sejam atendidas.
Lá Fora
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"Precisamos fazer as coisas gradualmente", afirmou Rebecca Cooke, que se define como moderada e derrotou o deputado Derrick Van Orden em um distrito até então republicano no oeste de Wisconsin.
Em vez de buscar um "Medicare para Todos", ela defende uma expansão mais modesta para cobrir serviços oftalmológicos, odontológicos e auditivos, além da retomada dos subsídios da Lei de Assistência Acessível que os republicanos deixaram expirar no fim do ano passado.
"Temos de mostrar que, quando as pessoas votam nos democratas, elas conseguem sentir nos ossos e no bolso que as coisas mudaram", disse Cooke em entrevista. Ela também defendeu que o alívio do custo de vida tenha prioridade sobre investigações agressivas contra o presidente e sua equipe.
"A responsabilização deste governo pode vir depois", afirmou. "Precisamos nos concentrar imediatamente em entregar resultados ao povo americano."
No Senado, onde o destino de Schumer tem sido uma questão em aberto, ele continuará enfrentando pressão da ala mais à esquerda do partido que exige mudanças abrangentes nas políticas públicas e obteve vitórias importantes com a eleição de Abdul El-Sayed no Michigan e Troy Jackson no Maine.
Mas a chegada de democratas recém-eleitos por estados solidamente conservadores —entre eles Adam Hamilton, do Kansas; Josh Turek, de Iowa; Annie Andrews, da Carolina do Sul; e James Talarico, do Texas — reforçará a influência de uma bancada democrata que já tende ao centro.
Enquanto os principais líderes democratas alertavam que os republicanos deveriam se preparar para uma enxurrada de investigações, Talarico advertia que os eleitores não estavam necessariamente em busca desse tipo de iniciativa. "Eles não nos enviaram a Washington em busca de retaliação política", disse à CNN.
Schumer minimizou as perguntas sobre as divisões dentro do partido, afirmando que eram apenas uma questão de comunicação. "Se vocês ouviram nossos candidatos, fossem eles progressistas ou mais moderados —e tínhamos alguns de cada, porque somos um partido amplo—, todos diziam as mesmas coisas", afirmou Schumer. "No Maine, fala-se sobre isso de maneira diferente da adotada no Kansas, mas a mensagem era a mesma, e estaremos unidos como bancada, concentrados nessas questões."
Ainda assim, transitar entre uma esquerda fortalecida e um centro mais robusto provavelmente será um dos desafios definidores da presidência de Jeffries na Câmara.
Depois de avançarem em territórios de todo o país —revertendo cadeiras da Câmara no Kentucky, na Carolina do Norte e em Wisconsin, ao mesmo tempo que conquistavam assentos até então republicanos em estados como Carolina do Norte, Ohio, Iowa, Kansas e Carolina do Sul—, os democratas recém-eleitos terão agora de prestar contas a eleitores de distritos que continuam fundamentalmente conservadores.
Mesmo controlando as duas Casas, os democratas precisarão do apoio republicano no Senado para aprovar boa parte de sua agenda. Isso também tende a fortalecer os centristas, que preferem propostas graduais a projetos abrangentes que provavelmente seriam bloqueados no Senado ou vetados por Trump.
Luria sugeriu que os democratas deveriam estar preparados para trabalhar com o presidente, argumentando que o desejo dele de se recuperar politicamente após a eleição poderia criar oportunidades de acordo.
"Estou realmente convencida de que Trump se importa mais com seu legado do que com qualquer outra coisa, e ele precisa se recuperar dessa enorme derrota à noite", afirmou. "Eu simplesmente não ficaria tão surpresa se ele aceitasse as propostas que os democratas colocarem em sua mesa."
Ainda assim, quando Jeffries se reuniu em particular neste ano com Jared Kushner, genro de Trump, sofreu uma reação feroz da ala radical do partido por fazer isso. Ele afirmou na quarta-feira que ainda não havia conversado com o presidente e foi cauteloso ao responder se trabalharia com ele ou sequer se reuniria com ele no Salão Oval.
Os democratas estão abertos ao diálogo entre os partidos, disse Jeffries, se isso puder produzir mudanças significativas na vida dos americanos que enfrentam dificuldades e estão "estressados pra caramba" com o custo de vida.
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