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Saturday, October 31, 2026

Uma escola pública que acolhe

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Recentemente, enquanto membro cooptado do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas D. Maria II, em Braga, assisti à apresentação da evolução demográfica do agrupamento ao longo da última década. O gráfico era simples. Mas a realidade que revelava era de grande complexidade.

Há cerca de dez anos, o Agrupamento tinha aproximadamente 3000 alunos, maioritariamente portugueses. Hoje, o número global de estudantes mantém-se relativamente próximo, mas as suas características alteraram-se profundamente: o número de alunos portugueses diminuiu significativamente e, em paralelo, aumentou o número de alunos estrangeiros, oriundos maioritariamente do Brasil, mas também de diversos outros países.

A infografia evidencia, de forma clara, uma transformação profunda, embora quase silenciosa, da sociedade portuguesa. Os números mais recentes mostram que, no ano letivo de 2025/2026, frequentaram o Agrupamento 2530 crianças e jovens, dos quais 871 eram alunos estrangeiros, de 51 nacionalidades!

Sem imigração, muitas escolas portuguesas estariam hoje em forte declínio demográfico. Algumas perderiam turmas, outras professores e capacidade de oferecer projetos educativos diferenciados. Em muitas regiões do país, a imigração já não é um assunto a merecer atenção apenas nos planos da economia ou da política; tornou-se, também,  um fator de grande relevância na reconfiguração da escola pública e do sistema educativo. Este é um tema que deveria ser debatido com mais serenidade e menos ruído ideológico.

Enquanto alguns setores políticos insistem numa narrativa simplista sobre a imigração, as escolas vivem diariamente a realidade concreta do país. E essa realidade mostra-nos que milhares de crianças e jovens estrangeiros estão hoje integrados nas nossas salas de aula, falando português, convivendo com colegas portugueses, criando laços, construindo o seu e o nosso futuro. Muitas dessas crianças serão, dentro de poucos anos, estudantes das universidades portuguesas. Mais tarde serão profissionais, investigadores, técnicos, empresários, contribuintes. Ajudarão a sustentar a economia, a inovação e a segurança social de um país marcado por uma preocupante quebra demográfica e envelhecimento populacional. Talvez seja tempo de reconhecermos, com honestidade intelectual, que uma parte do futuro de Portugal já está sentada nas salas de aula das nossas escolas públicas.

Mas há outro aspeto deste fenómeno que raramente recebe a atenção merecida: o papel extraordinário dos professores e dos muitos outros profissionais que, nas escolas, asseguram diariamente não apenas o ensino, mas também o acompanhamento, o apoio, a inclusão e o bem-estar de crianças e jovens. Os docentes do ensino básico e secundário vivem hoje uma mudança profundamente desafiante. Para além da sobrecarga de trabalho administrativo que todos conhecemos, são muitos os que trabalham diariamente em contextos muito exigentes do ponto de vista cultural e linguístico. Têm nas suas turmas alunos que falam diferentes normas do português, que têm o português como língua segunda ou como língua estrangeira, que possuem referenciais culturais distintos e que, muitas vezes, têm percursos de vida com uma base comum limitada. E, apesar disso, fazem diariamente um trabalho de integração silencioso que o país raramente valoriza.

No ensino superior, são frequentes as críticas e a identificação de dificuldades relativamente à integração de alguns estudantes Erasmus ou internacionais. Entretanto, milhares de professores das escolas públicas portuguesas fazem, todos os dias, verdadeiro trabalho de integração multicultural em contexto real, muitas vezes sem recursos adequados, sem apoio especializado suficiente e sem reconhecimento público proporcional à complexidade da tarefa que realizam. Importa dizê-lo claramente: a escola pública portuguesa tem sido um dos principais pilares da integração social no nosso país. É na escola que se aprende línguas, as regras de convivência, o respeito pela diferença, o sentido de comunidade e cidadania. É na escola que muitos destes jovens começam verdadeiramente a tornar-se parte integrante da sociedade portuguesa. E isso exige também responsabilidade coletiva. Exige acolhimento, exigência, respeito mútuo e capacidade de construir comunidade.

Talvez aquele gráfico apresentado no Conselho Geral do Agrupamento D. Maria II não retratasse apenas a evolução de uma escola. Talvez retratasse, afinal, a transformação silenciosa de Portugal. E talvez as escolas já tenham percebido algo que o debate político ainda não conseguiu incorporar adequadamente: o futuro do país será necessariamente mais diverso e mais exigente — mas pode também ser mais rico, mais dinâmico e mais humano, se soubermos integrar bem aqueles que escolheram Portugal para viver, estudar e construir uma vida melhor.

Entretanto, em paralelo, vai-se desenhando um país educativo a duas velocidades. A escola pública acolhe a crescente diversidade social e cultural do país e assume, muitas vezes sozinha, a exigente missão da integração. Ao lado, uma parte significativa dos alunos provenientes das famílias mais favorecidas e mais informadas concentra-se em escolas privadas, socialmente mais homogéneas, onde os desafios da integração são muito menores. Não houve uma reforma, nem uma decisão política explícita. Antes, passos discretos que vão acentuando a distância entre duas escolas e, talvez, entre dois futuros para Portugal.

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