Sociedade

Quando se fala dos problemas de Portugal, a conversa segue quase sempre o mesmo guião: falta de produtividade, carga fiscal elevada, salários baixos, pobreza, dificuldades na habitação ou listas de espera no SNS.
Todos estes problemas são reais. Mas há um outro tipo de pobreza que cresce silenciosamente e que raramente entra no debate político: a pobreza relacional.
Vivemos numa época em que é possível comunicar instantaneamente com qualquer pessoa do mundo e, paradoxalmente, cada vez mais pessoas se sentem sozinhas. Temos mais meios de contacto do que em qualquer outro momento da História, mas menos comunidade. Mais ligações digitais, mas menos relações humanas significativas.
A pobreza relacional manifesta-se de muitas formas: no jovem que “vive” no mundo digital, no profissional que muda de cidade e não consegue criar um círculo social, no idoso que passa dias sem alguém com quem conversar, nos pais que vivem isolados da família alargada, nos cidadãos que deixaram de participar em associações, clubes, coletividades ou projetos comunitários.
É uma pobreza difícil de medir, mas fácil de reconhecer.
Durante décadas, a política habituou-se a olhar quase exclusivamente para indicadores económicos. O crescimento do PIB, o rendimento disponível ou a taxa de desemprego são importantes, mas não contam toda a história. Uma sociedade pode enriquecer materialmente e empobrecer humanamente.
Talvez por isso tantas pessoas sintam uma estranha sensação de vazio numa época que, apesar de alguns problemas que persistem, oferece mais do que aquilo que a maioria das gerações anteriores alguma vez conheceu.
Uma sociedade forte não é aquela que apenas produz riqueza económica. É aquela que produz confiança. Confiança nas instituições. Confiança entre vizinhos, entre cidadãos, entre gerações. É uma sociedade em que existem instituições intermédias robustas entre o indivíduo e o Estado: associações culturais, grupos desportivos, organizações cívicas, projetos comunitários, movimentos voluntários e espaços de encontro.
Quando essas estruturas enfraquecem, o cidadão fica cada vez mais isolado. E um indivíduo isolado torna-se mais dependente. Mais dependente do Estado para resolver problemas que anteriormente eram resolvidos por redes familiares, comunitárias ou associativas. E mais vulnerável ao sentimento de desenraizamento, à desconfiança e aos discursos extremados.
Um liberal não olha para esta realidade com indiferença. Existe muitas vezes a caricatura de que o liberalismo se preocupa apenas com mercados e indicadores económicos. Pelo contrário, uma sociedade livre depende de comunidades fortes. A liberdade individual não floresce no isolamento, floresce em ambientes onde existem relações de confiança, cooperação voluntária e participação cívica. E não existe felicidade, se não tivermos com quem a partilhar.
Por isso, a discussão política não deveria limitar-se à pergunta “como produzimos mais riqueza?”. Deveria incluir também outra questão: “como criamos condições para uma vida mais rica em relações humanas?”.
Isso implica cidades mais habitáveis e menos dependentes do automóvel. Implica espaços públicos seguros e convidativos. Implica valorizar o associativismo, o voluntariado, a cultura, o desporto e todas as organizações que aproximam as pessoas.
Implica também reconhecer que nem todos os problemas sociais se resolvem com mais legislação, mais despesa pública ou mais burocracia. Alguns resolvem-se fortalecendo aquilo que nenhuma administração central consegue criar por decreto: laços humanos.
No final, a verdadeira prosperidade não se mede apenas pelo que temos. Mede-se também por quem temos ao nosso lado.
Portugal precisa de crescer economicamente, com políticas que já provaram criar riqueza. Mas precisa igualmente de recuperar algo que está a perder: a capacidade de criar comunidade.
Porque uma sociedade pode recuperar da falta de riqueza material. Mas dificilmente terá cidadãos prósperos e felizes quando começa a faltar a conexão humana.
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