‘Artificial’ imagina um futuro dominado pela IA. É aterrorizante

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O cineasta Luca Guadagnino revisita a ascensão da OpenAI. Você vai rir, vai chorar e vai gritar
Rolling Stone
Os historiadores que narrarão no futuro o declínio e a queda da humanidade terão inúmeros momentos-chave para apontar como o início do nosso fim. Mas alguns poderiam destacar um encontro aparentemente inofensivo na Universidade de Toronto, em 2003.
Um jovem de 17 anos chamado Ilya Sutskever — nascido na Rússia, criado em Israel e cidadão canadense — entrou no escritório do Professor Geoffrey Hinton. Geoffrey dirigia o departamento de Ciência da Computação da universidade e Ilya estava intrigado com as aulas do professor sobre redes neurais.
Impressionado com a hiperinteligência do aluno e sua rápida compreensão do conceito, Hinton se ofereceu para levar o jovem prodígio para almoçar. Eles acabariam criando uma rede conhecida como AlexNet, que levaria a dupla e seu sócio, Alex Krizhevsky, ao Vale do Silício.
Lembra daquela estrada pavimentada com boas intenções — e de onde ela pode levar?
Ou talvez seja tentador apontar para outro momento decisivo, que surge depois da participação de Sutskever em uma conferência em Montreal, quando ele começa a ser cortejado por um carismático ex-aluno de Stanford. O jovem empreendedor acredita que o cientista da computação de sotaque marcante e com uma notável dificuldade para mentir descobriu algo importante nessa história de “inteligência artificial geral”. Os dois acabariam cofundando seu próprio projeto dos sonhos no setor de tecnologia, com a ajuda de um excêntrico bilionário sul-africano. O empreendedor em questão é Sam Altman. O nome da empresa? OpenAI.
As duas cenas aparecem em Artificial, novo filme dirigido por Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome) e escrito por Simon Rich que acompanha a ascensão meteórica da inteligência artificial como uma sequência de momentos em uma espiral enlouquecedora. A primeira apresenta o anjo da guarda de Sutskever: um mentor que coloca a segurança no desenvolvimento da tecnologia e a preservação da humanidade acima de tudo. A segunda permite que o diabo se infiltre em suas mensagens privadas, usando uma estratégia de sedução e destruição que, mais tarde, levaria Sutskever a se tornar o alarmista de plantão da OpenAI e o dissidente da indústria de tecnologia.
Interpretados por Yura Borisov (Anora), pelo veterano do teatro shakespeariano Mark Rylance e por Andrew Garfield (A Rede Social), em uma rara encarnação de vilão, Sutskever, Hinton e Altman formam a trindade central dessa comédia sombria que também funciona como tragédia: o “Padrinho da IA”, seu filho e o terror sagrado. Dois deles passaram boa parte do tempo alertando sobre a necessidade de desacelerar e evitar uma catástrofe existencial. O outro agarrou o volante, pisou no acelerador e, alegremente, direcionou o carro direto para o precipício.
Este é o cinema pessimista em sua forma mais engraçada e sombria, provocando aquele tipo de risada que geralmente surge quando estamos a caminho da forca. Um verdadeiro desfile de engenheiros pioneiros, oligarcas do Vale do Silício e bajuladores corporativos passa pela tela — alguns para serem ridicularizados, outros para despertarem pena. Ike Barinholtz (The Studio), interpreta Elon Musk como uma mistura de vilão de James Bond e bufão mal-humorado; Monica Barbaro dá à diretora de tecnologia da OpenAI, Mira Murati, uma dignidade discreta que logo se esvazia como um balão furado; já a atuação de Cooper Hoffman como Greg Brockman, presidente do conselho, poderia ser resumida a um interminável: “Vem pra cima, techbro!”. Zosia Mamet, Jason Schwartzman, Chris O’Dowd, Billie Lourd e Will Price entram e saem de cena, alguns tentando representar a voz da razão, outros aplaudindo a loucura. Quem precisa pensar no longo prazo quando há tanto dinheiro a ganhar no curto prazo?
Artificial mergulha nesse mantra industrial e o amplia, apontando para uma ideia que, segundo o filme, contaminou tudo ao nosso redor: a de que os bilionários da tecnologia acreditam que merecem governar o mundo — afinal, se não fossem tão brilhantes e tão merecedores, como teriam se tornado bilionários da tecnologia? Guadagnino só ocasionalmente deixa o estilo falar mais alto, como quando reproduz uma sequência de celebração em câmera lenta inspirada em O Lobo de Wall Street (2013). Na maior parte do tempo, porém, ele deixa o roteiro e as atuações conduzirem a história, especialmente quando o filme se concentra no confronto moral entre Sutskever e Altman. Dizer que o cineasta recuperou o ritmo depois do desastre que foi Depois da Caçada, do ano passado, seria pouco.
É fácil imaginar o consenso se formando em torno de Borisov não apenas como o coração e a alma do filme, mas também como seu grande destaque no elenco. Assim como em Anora e no igualmente excelente Vagão nº 6 (2021), ele sabe explorar sua capacidade de transmitir vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, uma sensibilidade firme. Seu Sutskever é socialmente desajeitado e infantil em seu literalismo, mas moralmente íntegro — o último farol de esperança para a moderação em meio ao fervor do “Sinta a IA!”. “Prometeu não tinha medo do fogo”, diz um personagem a ele. “Ele não precisou fazer um acordo com a Microsoft para entregá-lo à humanidade”, responde o cientista da computação.
Não faço ideia de como o público vai reagir à interpretação de Garfield como Sam Altman, uma figura hoje onipresente que, na vida real, muitas vezes parece uma caricatura do nerd que virou soberano do Vale do Silício. É uma atuação ousada, que transforma Altman em uma espécie de conspirador maquiavélico escondido sob uma superfície invariavelmente educada — e, em outros momentos, em alguém que poderia ser chamado de “Sam Excêntrico”. Ousado, sem dúvida. Condenável? A interpretação chega perto de ultrapassar o limite do exagero, mas ainda corre o risco de cair no estereótipo. A avaliação, naturalmente, fica a cargo de cada espectador.
É fácil entender, porém, como o charme de Altman e sua relação escorregadia com a verdade, características que marcaram a ascensão da empresa, poderiam ser tão sedutores para colaboradores e investidores — e como essa mesma habilidade poderia ser transformada em arma depois do golpe corporativo articulado por Sutskever. Toda essa história é apresentada em detalhes, como um pequeno drama de bastidores que transforma a novela corporativa na última tentativa de manter a caixa de Pandora fechada. Altman acaba reconduzido ao cargo de CEO. Sutskever é expulso do paraíso. Corte para: aquele desabafo desesperado de menos de um mês atrás.
Falando em drama de bastidores: você deve se lembrar de que Artificial deveria ter sido lançado sob o patrocínio de outro Borgia e de que seus apoiadores originais decidiram ajudar Guadagnino e sua equipe a encontrar uma nova casa para o filme. Felizmente, a Neon entrou em cena, o longa conseguiu uma estreia mundial de última hora no Festival de Cinema de Nova York e, desde então, já começou a circular o burburinho em torno de uma merecida campanha para a temporada de premiações.
Havia um senso de urgência por trás de toda a gratidão quando o diretor e o elenco se reuniram para uma sessão de perguntas e respostas após a exibição. Guadagnino lembrou ao público que a inteligência artificial é uma história tão humana quanto uma parábola tecnológica, enquanto Rich explicou que sua intenção ao escrever o roteiro era fazer um alerta. Ele só espera que alguém preste atenção.
O medo de termos ultrapassado o ponto sem retorno dá ao filme uma urgência particular — e explica sua recusa em amenizar nossas ansiedades. Artificial parece perfeitamente sintonizado com o nosso desespero, a ponto de ser quase impossível não querer compartilhá-lo. Você vai rir, vai chorar, vai gritar para o nada.
Guadagnino e o festival, porém, reservaram um presente extra para os sortudos que estavam presentes na primeira exibição pública do filme. Um piano e um vibrafone estavam discretamente posicionados no palco. Depois de apresentar o elenco e a equipe antes da sessão, o diretor chamou o compositor Damon Albarn. O ex-vocalista do Blur e atual vocalista do Gorillaz permaneceu no palco depois que todos deixaram o local e se sentou ao piano. Um colega músico assumiu o vibrafone, enquanto um coral infantil entrou em cena. Juntos, eles apresentaram “The Saddest Song”, uma belíssima canção sobre mares desconhecidos e “submarinos na escuridão”, composta por Albarn especialmente para o filme.
Estávamos prestes a assistir a um filme sobre pessoas empenhadas em tornar realidade máquinas totalmente autônomas e dotadas de inteligência artificial — e sobre o que isso pode significar para o nosso futuro, que não está tão distante assim. Mas esse aperitivo de música ao vivo, executada por pessoas reais, em tempo real e em um espaço real, diante de uma plateia real, foi profundamente reconfortante.
É isso que os seres humanos são capazes de fazer. Podemos arquitetar nossa própria extinção. Mas também podemos criar magia do nada.
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