A Europa enfiou a agricultura num colete de forças

Um colete de forças não mata, mas imobiliza. É precisamente este o cenário que a agricultura europeia vive nos dias de hoje, um sector cada vez mais regulado e menos livre para produzir. As exigências ambientais, muitas delas legítimas na intenção, revelam-se lesivas na execução, pela acumulação incessante e excessiva e pelo ritmo imposto, que ultrapassa a capacidade de resposta de quem está no terreno e quer continuar a trabalhar a terra.
É esse o efeito de boa parte da regulação que recai sobre os agricultores europeus, homens e mulheres tecnicamente preparados e ambientalmente conscientes, mas amarrados por uma teia de normas insaciáveis e em permanente expansão. O conceito de “agricultura verde”, em si valioso, foi mal transmitido e acabou por penalizar precisamente aqueles que dizia querer proteger. Em vez de parceiros fundamentais para a transição climática, os agricultores são as mais das vezes tratados como os maus da fita, forçados a lidar com infindáveis burocracias, a justificar cada gota de água, cada grama de fertilizante, cada tratamento fitossanitário, como se fosse possível dispensá-los, desviando o seu tempo e energia daquela que é a sua verdadeira vocação: produzir alimentos.
Sempre o disse e volto a dizer: o problema não está na ambição ambiental, está na incoerência e na utopia reinantes. A sustentabilidade e a rentabilidade podem (devem) coexistir, e há hoje por toda a Europa excelentes exemplos que o demonstram: a produção biológica, o uso de inteligência artificial na antecipação de doenças e pragas, pecuária extensiva e montados a funcionarem como sumidouros de carbono, projetos de conservação de espécies ameaçadas e sistemas de gestão de água altamente eficientes que respondem positivamente para mitigar os impactos das alterações climáticas, um maná de tecnologias avançadas que permitem optimizar recursos e processos. Mas isso não é notícia, porque é positivo. Parece de propósito.
A agricultura não é incompatível com o rigor ecológico, destacando-se, pelo contrário, na nossa sociedade, como o setor que melhor concilia as duas dimensões. O problema está na incoerência de escala da mensagem deturpadora dirigida ao público em geral, que consome, mas receia.
Quando na Europa se impõem padrões que o resto do mundo não segue, o resultado não é um planeta mais limpo, mas um continente menos competitivo e mais dependente de importações de origens sem as mesmas normas de qualidade. É como se nos impuséssemos jogar descalços, tolerando que os adversários continuem a usar sapatilhas.
O que assistimos actualmente é um fenómeno de prejuízo para a própria Europa, que se especializou em exportar a sua boa produção, mas a importar o problema.
Não podemos pactuar com a hipocrisia de exigir aos nossos produtores o cumprimento rigoroso de cadernos de encargos sobre bem-estar animal ou neutralidade carbónica, enquanto se abrem as portas a bens oriundos de países onde essas exigências são inexistentes ou incipientes. Esta concorrência desleal esmaga a rentabilidade e a competitividade dos nossos agricultores e ilude o consumidor europeu. Pelo caminho, perde-se a segurança alimentar única que criámos, em nome de uma virtude que, no cômputo global, se desvanece.
O momento actual, fruto da crise criada pelas guerras com repercussões ao nível do planeta, um ambiente explosivo na política interna no velho continente e a falta de objectividade na defesa de um modelo verdadeiramente defensor do agricultor europeu, não é sustentável e arrasta o sector para uma situação de falência sem retorno.
A este quadro somam-se dificuldades económicas concretas, com os preços dos combustíveis e fertilizantes a atingirem níveis absurdos, em nada compatíveis com os preços pagos aos agricultores, demasiado baixos.
A perda de rentabilidade vai corroer as margens de exploração. O esgotamento das parcas reservas financeiras dos agricultores e o aumento dos juros farão o resto, ameaçando de novo a Europa com o vislumbre de um novo défice agroalimentar, obrigando à importação cada vez mais acentuada de alimentos produzidos onde a Europa em nada conseguirá impor os seus critérios de segurança.
A um cenário em si já frágil somamos a regulação e a sufocante burocracia. O colete de forças aperta.
Daqui resulta e acresce um desafio inadiável que corrói silenciosamente o setor: a falta de renovação geracional. Que jovem desejará investir o seu capital, tempo e talento numa área onde a asfixia supera, tantas vezes, a prática no campo, e onde a constante incerteza dita as regras do negócio? Sem sangue novo, sem o ímpeto e a literacia tecnológica das novas gerações, a vitalidade e a indispensável modernização do nosso mundo rural estarão inevitavelmente condenadas.
Neste cenário, já exigente, há ainda no curto prazo o risco de a Política Agrícola Comum perder a sua especificidade, independência e até aplicabilidade, caso venha a ser diluída junto de outros fundos comunitários, deixando o sector ainda mais vulnerável.
A agricultura não pode ser sacrificada, a agricultura deve ser sempre uma prioridade europeia porque a segurança alimentar é fundamental para a defesa, para a soberania e para a coesão da Europa. É cá dentro que temos de encontrar a solução.
A agricultura, como a pandemia demonstrou, não pára, mas precisa de rentabilidade. Caso contrário deixa de ser uma atividade económica e reduz-se à mera sobrevivência, com mais abandono do território e avanço da desertificação.
Proteger o ambiente não pode sufocar quem trabalha a terra. É um absurdo, mas é o que está a acontecer. Reconhecê-lo é o primeiro passo para rasgar, finalmente, o colete de forças que cada vez mais desafia a agricultura europeia, devolvendo a quem nos alimenta a verdadeira liberdade de semear o futuro.
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