Nova rota do PCC e CV usa Amapá para mandar cocaína para a Europa


O estudo cita que traficantes passaram a explorar com maior intensidade, na última década, a região de Macapá, na foz do rio Amazonas, e o porto internacional de Santana, além de ilhas e áreas fluviais próximas à região.
Entre 2023 e 2025, a PF (Polícia Federal) apreendeu 637 kg de cocaína no Amapá. Segundo o órgão, o volume é considerado alto para o estado. As drogas apreendidas tinham a Europa como destino.
Medo surge no Amapá
Uma moradora do Bailique, arquipélago de Macapá, que preferiu não se identificar por medo das facções, contou que, em 2023, uma casa na Vila Progresso, uma das ilhas da região, era ocupada por um grupo de estrangeiros.
Segundo ela, o imóvel era utilizado como ponto de apoio para receber e despachar cocaína, aproveitando a localização estratégica da ilha para a movimentação da droga. "Passava um navio em frente à casa com drogas. Era esse o movimento. As pessoas viam e ficavam com medo", diz.
Hoje, a casa está abandonada depois que os vizinhos passaram a desconfiar da movimentação. Embora o grupo tenha deixado aquele imóvel específico, o transporte de drogas na região continua intenso, utilizando barcos de madeira tanto para abastecer o mercado interno quanto para alimentar as rotas internacionais.
O receio dos moradores ocorre em um estado marcado por altos índices de violência. O Amapá registrou a maior taxa proporcional de homicídios do país, com 45,7 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2026. Do total, 35% das mortes decorreram de intervenções policiais.
O estudo também aponta limitações na estrutura de investigação do tráfico de drogas no estado. A Divisão de Combate a Narcóticos da Polícia Civil do Amapá conta com 10 agentes e cinco viaturas para atuar em todo o território estadual, que tem cerca de 142 mil km².
Por que a mudança
Durante anos, a região de Belém, no Pará, especialmente o Porto de Vila do Conde, concentrou parte importante das exportações internacionais de cocaína. Mas o aumento da fiscalização, com a instalação de scanners e o reforço do efetivo de segurança, somado à predominância do CV na região portuária, contribuiu para o deslocamento de parte das operações em direção ao Amapá, segundo Funari.
Ele cita que o estado também oferece características que interessam às facções. "É isolado do restante do país por rodovias, tem grande parte do território coberta por floresta e possui acesso direto ao Atlântico", explica Funari.
Segundo Funari, o quilo de cocaína, comprado por cerca de R$ 5.200 nas regiões produtoras da Colômbia e do Peru, chega a valer entre R$ 13 mil e R$ 18.100 ao entrar na Amazônia brasileira e pode alcançar R$ 25.900 antes de seguir para a Europa. No varejo europeu, o valor varia entre R$ 293,5 mil e R$ 410,9 mil.
Além do tráfico de cocaína, o relatório aponta que, mais recentemente, integrantes do CV diversificaram suas atividades e passaram a atuar também na mineração ilegal de ouro na Guiana Francesa, como forma de reinvestir os lucros do tráfico.
Confirmação
De acordo com Aiala Colares, pesquisador das dinâmicas do narcotráfico na região amazônica, o Amapá sempre esteve inserido em uma rede de contrabando e tráfico de drogas. "Só que nos últimos anos uma articulação que envolve as Guianas e parte do Suriname passou a se direcionar também para o estado, tendo como ponto estratégico o Porto de Santana", explica.
O relatório também corrobora a afirmação de Colares ao apontar que surgiu uma nova rota internacional que conecta Colômbia, Suriname, Guiana Francesa e Amapá.
A rota começa no norte da Colômbia, de onde a cocaína é enviada ao Suriname por pequenas aeronaves ou lanchas. De lá, a droga segue diretamente para a Europa ou chega ao Amapá por via aérea ou fluvial, passando pela Guiana Francesa. Ainda pouco utilizada em comparação com a rota pelo rio Amazonas, essa conexão surgiu nos últimos cinco anos e reforça a importância crescente do Amapá no tráfico internacional de cocaína. Trecho do estudo
Segundo Colares, o interesse das organizações criminosas não está necessariamente no Amapá como um todo, mas principalmente na estrutura portuária de Santana.
Metodologia usada pelas facções
Uma das modalidades é conhecida como rip-on, na qual carregamentos de cocaína são introduzidos clandestinamente em embarcações antes da partida para o exterior.
A operação pode envolver mergulhadores especializados, que escondem a droga em compartimentos submersos dos navios. Em 2024, a Polícia Federal apreendeu 150 kg de cocaína escondidos na chamada caixa de mar de uma embarcação atracada no Porto de Santana.
Os navios que passam pelo porto têm como destino a Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Portugal, Rússia, Espanha e Reino Unido, além do Sudeste Asiático e do Japão. As embarcações com destino a Portugal são os alvos mais frequentes dos traficantes para o transbordo de cocaína no Porto de Santana.
O documento também registra o surgimento do uso de embarcações submersíveis. Em março de 2025, autoridades portuguesas apreenderam 6,6 toneladas de cocaína em uma operação relacionada a esse tipo de transporte.
Segundo policiais citados no levantamento, submersíveis vêm sendo empregados com frequência crescente no tráfico pela região, embora ainda sejam menos comuns do que operações de rip-on e o transporte por embarcações menores.
A maior apreensão de cocaína no estado ocorreu no início de junho de 2025, quando as polícias Federal e Civil encontraram 400 kg de cocaína em uma área rural de Macapá. O relatório aponta que a carga pertencia ao CV e aguardava uma operação para ser colocada em navios que seguiriam para Portugal.
Em resposta ao UOL, o Governo do Amapá disse ter realizado os maiores investimentos contra o crime organizado e no enfrentamento ao tráfico de drogas no estado. "O trabalho na fronteira, especialmente, no município de Oiapoque conta com entrega de drones, viaturas, notebooks, Glocks, fuzis e obras. Em todo o estado, o combate ao crime organizado possui investimento de mais de R$ 19 milhões", enfatizou em nota.
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.