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Sunday, September 13, 2026

IA no ensino é o fim dos professores? —​ Ouvintes

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas que são enviadas para foradobaralho@observador.pt. E esta semana tenho comigo o Nuno Garoupa e vamos falar sobre inteligência artificial, numa semana em que um investigador da Anthropic se demitiu e deixou o mundo a pensar que o fim da humanidade pode estar próximo. Jacob Coxon, que também já tinha trabalhado para a OpenAI, acredita que as empresas de inteligência artificial estão a arriscar as nossas vidas e que nenhuma outra atividade humana representa este nível de perigo. Nuno, o Rui Valério pergunta-nos como é que devemos olhar para estas afirmações, principalmente quando este não é o primeiro ex-trabalhador destas empresas gigantes de inteligência artificial a dizer coisas do gênero quando deixam de trabalhar nestes sítios.

Olá a todos. Deixa-me começar por dizer que eu não sou especialista em inteligência artificial, eu sou um amador destes temas, mas parece-me que nós temos que pôr as várias perspectivas aqui em contexto. Repara, o que tu acabaste de dizer, citando o Jacob, eu acho que literalmente é verdade. Mas literalmente é verdade pela simples razão de que, primeiro, as empresas da AI não sabem muito bem o que é que vai acontecer nos próximos 10 anos. Nós estamos a lidar com uma tecnologia que não é muito claro o que é que vai acontecer. E em segundo lugar, quando lidas com uma tecnologia que é nova, é evidente que há sempre um conjunto de perigos, que para a atividade humana e para o futuro da humanidade, que nós não conseguimos totalmente realizar e antecipar. Agora, dito isto, literalmente, isso é verdade. Mas é verdade na mesma proporção em que foi verdade nas várias quatro revoluções industriais, porque nós agora sabemos o que é consequência de introduzir tecnologia nos transportes, o que é revolucionar a produção, o que é revolucionar a forma de organizar da humanidade e o que é revolucionar a informação e as tecnologias de informação com a internet. Mas quando começou, nós não sabíamos. E houve muita gente, na altura, no século XVIII, no século XIX, século XX, que também disse que essas tecnologias eram o fim da humanidade. Portanto, primeiro é preciso relativizar que isto é normal, que haja pessoas mais ou menos avisadas a dizer essas coisas quando se introduzem novas tecnologias. A segunda questão é lembrar a toda a gente que nós estamos a utilizar a expressão inteligência artificial para nos referir, essencialmente, a modelos LLM, Large Language Models. Há muita gente que já está a dizer que esses modelos vão estar completamente ultrapassados dentro de cinco anos e teremos outra tecnologia com outros modelos completamente distintos destes. Se isso for verdade, teremos outros problemas em 2030. Portanto, não vale a pena estar a perder muito tempo com estes problemas, quando é muito possível que estes problemas estejam desatualizados dentro de cinco anos.

Deixa eu só fazer-te uma pergunta. Estavas a falar há pouco das revoluções. O facto de esta revolução, podemos chamar-lhe assim, da inteligência artificial, não estar tão assente no nosso cérebro, ou seja, não sermos nós a desenvolver, mas ela ter capacidade de se desenvolver a si própria, não pode assustar um bocadinho as pessoas, como este ex-trabalhador da Anthropic?

Pode, mas repara, a internet quando foi introduzida, também veio introduzir elementos de inteligência artificial, só que não eram Large Language Models, e houve muita gente que disse que a internet ia dar cabo do mundo, porque ia criar problemas de informação. Aliás, nós estamos nesta discussão. Há apenas cinco anos estavam a dizer que o mundo estava a acabar com as fake news, que as fake news estão a acabar com o mundo, que já ninguém sabe o que é verdade e o que é mentira. A verdade é que estamos aqui. Portanto, eu acho que é preciso pôr isto em perspectiva. E nesse sentido, é verdade que há opiniões radicalmente negativas, mas também há muita gente a dizer o contrário, que na verdade, esta tecnologia vai ter um grande impacto positivo na humanidade. Mas também há gente que diz que isso não vai ter grande impacto. Nós temos opiniões nas mais diversas direções. Agora, é preciso também ter algum grau de cinismo e perceber que isto é um setor altamente competitivo, com empresas altamente competitivas, e que nós nunca sabemos se as pessoas estão a dar as suas opiniões ou se estão a dizer aquilo que é conveniente do ponto de vista das empresas em que serviram, estão a servir ou vão servir dentro em breve. Porque todas essas pessoas, depois, vem-se a saber que têm contratos de NDAs, Nondisclosure, que têm contratos com Covenants que não permitem essencialmente explicar o que é que essa empresa estive a fazer, têm contratos que têm a ver com a distribuição de informação a agentes privilegiados, e nós não sabemos, porque simplesmente tudo isso está dentro do espaço da privacidade das empresas.

E na verdade, este ex-trabalhador agora, até trabalhou em duas gigantes de inteligência artificial, e não só numa.

Eu não quero pôr em causa o testemunho dele. Só te estou a dizer que é preciso contextualizar. Eu acho que o grande problema, do meu ponto de vista, nem é este. O grande problema, do meu ponto de vista, é que pode haver até um consenso, e eu penso que há, mas enfim, não vou dizer que todos estamos de acordo, que seria adequado regular estas empresas, ou seja, que estas empresas deviam estar sujeitas a regulação. O problema é que esta tecnologia é introduzida no momento em que os governos, quer nos Estados Unidos, quer na União Europeia, estão completamente descredibilizados. E portanto, há um problema do lado dos governos, que é: há uma enorme desconfiança neste momento em relação aos atores políticos Em relação àquilo que o governo federal norte-americano faz, em relação à Comissão Europeia, em relação obviamente ao governo chinês e aos governos mais relevantes na regulação da inteligência artificial. E isso é que pra mim vem criar um problema, porque nós precisaríamos de regulação, mas quem tem que regular, neste momento não tem nem credibilidade, nem reputação, nem reconhecimento técnico pra fazer essa regulação. E isso é que eu acho que é o grande problema que nós vamos ter nos próximos cinco anos.

Ainda dentro deste tópico, deixa eu colocar aqui em cima da mesa uma pergunta da Marinalva Souza, que questiona se a inteligência artificial no ensino universitário, dá pra todos, na verdade, porque já começa a ser aplicada em muitos tipos de ensino, mas se esta tecnologia será o fim dos professores.

Eu vou dizer que sim e que não, e vou explicar porque é que acho que é um sim e acho que é um não. Se por professores entendemos o que é o professor hoje, o papel do professor hoje, que é dar aulas e fazer investigação, esse papel vai desaparecer e ser completamente alterado. Não acho que seja dramático, porque aquilo que é um professor de uma universidade do século XVI, não é aquilo que é no século XVIII, não é aquilo que é no século XX e no século XXI. E continuamos a chamar isso professor e àquela estrutura, instituição, universidade, mas eles não são a mesma coisa nos últimos quatro séculos.

Pode haver uma modernização da função.

Obviamente. Por isso, dizia sim e não. Se por professor entendemos a pessoa que transmite conhecimento e se por professor entendemos a universidade como instituição onde se vai adquirir não só o conhecimento, mas mais importante em muitas profissões, um canudo, um certificado de conhecimento, que é isso que neste momento a universidade faz em muitas áreas, emite certificados de conhecimento, isso vai continuar. E, portanto, isso não vai ser alterado. E, portanto, quando se diz: "Vão acabar os professores universitários, vão acabar os advogados, vão acabar os tradutores, vão acabar os médicos". Isso não vai acontecer. O que vai acontecer é que essas profissões todas, dentro de 20 ou 30 anos, são completamente diferentes das profissões a que nós chamamos neste momento professor, advogado, médico, tradutor no dia de hoje. Elas já são muito diferentes do que eram, obviamente, há 150 anos.

Deixa-me só uma pergunta para 30 segundos. Sei que é difícil imaginar, mas como é que imaginas que será uma sala de aula quando a inteligência artificial estiver no seu auge?

Quando a inteligência artificial estiver no seu auge, eu acho que grande parte da aquisição de conhecimento vai ser feita a partir da inteligência artificial e a sala de aula vai ser fundamentalmente em aspectos de socialização, discussão e no fundo, humanização do espaço. Portanto, a universidade vai se transformar numa instituição que é muito mais de contacto humano e muito menos de aquisição de conhecimento. E nesse sentido, vai ser uma transformação em relação àquilo que foi a universidade, pelo menos desde a Revolução Industrial até os dias de hoje.

Muito obrigada, Nuno. Este "Fora do Baralho" especial termina assim. É muito fácil enviar perguntas ou comentários para que os nossos ases respondam. Basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Inês André Figueiredo e pode sempre ouvir-nos na Rádio Observador e em podcast nas plataformas habituais.

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