Vamos a isso!

Como mostrei no meu anterior artigo, João Moreira da Silva mentiu quando me acusou de mentir a respeito das recentes declarações do Ministro dos Estrangeiros do Gana sobre a disponibilidade do governo da AD para o ajudar na questão das reparações. Mas também referi, nesse meu artigo, que não era a primeira vez que Moreira da Silva mentia a meu respeito e prometi que revelaria onde e como, num próximo texto. É o que passo agora a fazer.
Convém lembrar que João Moreira da Silva é um jovem esquerdista woke que já no passado critiquei porque ele se empenha em negar ao Portugal de outros tempos o direito a ser classificado como a primeira nação globalizadora. Critiquei-o igualmente porque, na ânsia de censurar os autores do enunciado de exames de História por não terem referido as violências cometidas pelos portugueses nos seus domínios ultramarinos, e de considerar esse esquecimento como tendo sido deliberado, se ter ele próprio esquecido de referir as incomensuravelmente maiores violências cometidas durante o estabelecimento do mundo islâmico e do Império Mongol, processos históricos que o próprio Moreira da Silva trouxe à baila.
Todavia, em vez de tentar responder a essas minhas críticas — concedo que teria sido difícil fazê-lo — João Moreira da Silva preferiu, como é timbre da sua seita política, difundir um venenoso boato sobre mim nas redes sociais. Segundo esse boato eu teria recentemente recusado participar num debate sobre reparações em que o próprio Moreira da Silva iria estar presente e teria supostamente alegado, como justificação da recusa, “não estar confortável com um público a assistir e intervir”. O jovem esquerdista woke insinuou, assim, que eu teria receio de debater com ele e perante uma audiência. Mas isso é falso, pois não foi essa a razão pela qual recusei o convite que me foi endereçado, no dia 10 de Junho, por Leonor Caldeira, uma “advogada de activistas”, como a própria se define, que adquiriu notoriedade por ter representado a família Coxi e ter vencido um processo contra André Ventura. A razão da recusa foi outra, como fica claro do que respondi logo no dia seguinte, por escrito, à própria Leonor Caldeira — dando conhecimento dessa resposta aos outros dois organizadores do referido debate, João Marecos e José Maria Pimentel — e que aqui transcrevo:
“Cara Leonor Caldeira, começo por lhe agradecer o simpático convite que me dirigiu. O tema (das reparações) é e continuará a ser de interesse público e o contraditor proposto, João Moreira da Silva, parece-me uma pessoa adequada pelas razões que expôs no seu email. A data também é adequada e, até, bem-vinda por ser relativamente próxima de um outro debate que irei ter sobre esse tema no dia 4 de Dezembro. O que não me parece indicado é o modelo do debate. Na modalidade proposta o que se avalia não é o mérito ou demérito das ideias, das teorias e interpretações de cada um, mas sim a capacidade de as publicitar e de persuadir uma audiência. Não se avalia o nível dos conhecimentos dos debatentes, mas o seu merecimento como propagandistas. É, salvo melhor opinião, um modelo próximo de (e ajustado a) um concurso de televisão ou a uma campanha eleitoral, com vencedor e vencido a serem determinados pela variação das sondagens pré e pós-debate, e não pela contraposição de argumentos com a sua dinâmica própria e que possa ser, até em virtude dessa dinâmica, realmente esclarecedora. Para lhe falar com toda a franqueza eu não sou um militante, não estou em campanha para converter pessoas e não me revejo nem me ajusto ao modelo proposto. Por isso não posso aceitar o seu convite. Com os melhores cumprimentos, João Pedro Marques”.
Feita a transcrição integral da minha resposta, fica evidente que não há nela qualquer referência a “não estar confortável com um público a assistir e intervir” nem qualquer objecção em debater com João Moreira da Silva, pelo contrário. Ou seja, o boato sobre mim que o dito Moreira da Silva pôs a correr nas redes sociais é uma mentira. Gostaria, também, de sublinhar o seguinte: desde 2017 que assumo uma posição pública frontalmente contrária ao pagamento de indemnizações ou reparações por factos relativos ao já distante passado colonial de Portugal. Já assumi essa oposição em livros e em mais de uma dúzia de artigos de opinião, um dos quais em debate directo com João Moreira da Silva. Para além disso já debati a questão face a face com diversos opositores, inclusive na RTP África, na SIC e na RTP2. Por norma tenho estado disponível para debater este assunto e em Novembro de 2025 surgiu o projecto de organizar um debate entre mim e um outro interveniente — eu sugeri, entre outros nomes, o de Marcelo Rebelo de Sousa, mas também o de João Moreira da Silva. Por razões que me transcendem esse debate, que deveria realizar-se em Cascais perante uma audiência de 200 pessoas, não foi por diante. Porém, ainda no corrente ano, no princípio de Dezembro, como referi acima, irei participar num outro debate sobre o mesmo assunto, debate que se realizará sob a égide da Academia IDL – Instituto Adelino Amaro da Costa, perante uma audiência e em que, se não houver alterações de última hora, terei como contraditor Ascenso Simões, o ex-deputado do PS.
Ou seja, e em suma, não tenho qualquer objecção em debater os temas das reparações e da escravatura com João Moreira da Silva ou qualquer outro interlocutor. Recuso, porém, participar num debate que se estruture como espectáculo, com duas equipas concorrentes, como num concurso televisivo, e que privilegie os dotes de advocacia e de capacidade de persuadir uma audiência circunscrita, como, em minha opinião, aconteceria no caso deste convite que me foi dirigido por Leonor Caldeira. Esse tipo de debate poderá ser o terreno de eleição para a referida Leonor Caldeira, uma advogada de barra e de contencioso que gosta (ou gostava) da picardia, ou para o também advogado e coorganizador, João Marecos. Porém, eu não sou advogado, sou um historiador que dividiu a sua actividade profissional entre o ensino e a investigação. Acresce que a História não equivale a uma campanha eleitoral nem a uma sessão de tribunal, com jurados, vencedores e vencidos, nem se adequa a um julgamento.
Não obstante tudo isso ser para mim um ponto bem assente, e do qual não me afastarei, se João Moreira da Silva ou outra pessoa me quiser propor um debate de natureza e mecânica diferentes do que agora me foi proposto, organizado em moldes tradicionais, que seja moderado por alguém isento, equidestante e minimamente conhecedor da matéria, e que decorra em terreno neutro, num estúdio de um dos principais canais televisivos ou face a uma audiência equilibrada, isto é, bem dividida entre as duas posições em confronto, e se tudo isso puder ser previamente assegurado, então eu daqui lhes digo: vamos a isso!
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