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Tuesday, September 22, 2026

Tarcísio exalta fim da cracolândia enquanto registro de dependentes de alta complexidade dobra no centro de SP

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Apesar do anúncio do fim da cracolândia, explorado pela campanha à reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o fluxo de usuários de drogas no centro de São Paulo teve aumento expressivo neste ano no registro de casos graves monitorados.

Segundo dados do relatório do programa municipal anticrack, o número de dependentes químicos classificados como de alta complexidade, sob acompanhamento intensivo das equipes de saúde, chegou a 447 no centro no primeiro semestre de 2026. Trata-se de mais que o dobro do registrado nos primeiros cinco meses de 2025, quando havia 222 usuários mapeados nessa categoria.

Classificados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como casos Mais Vulneráveis (MV), esses usuários acumulam a dependência severa de drogas com comorbidades clínicas graves, como tuberculose, HIV e transtornos psiquiátricos, além de apresentarem extenso histórico de recusa a tratamentos.

Entre janeiro e junho de 2026, as equipes municipais de saúde efetuaram 3.965 abordagens direcionadas exclusivamente a esse público na região central, o que resulta em uma média de nove atendimentos individuais por pessoa no semestre.

O fim da cracolândia, tema também pela campanha de Guilherme Derrite (PP), que disputa uma das duas vagas ao Senado por São Paulo, foi decretado pelas gestões municipal e estadual em maio do ano passado.

Na ocasião, a aglomeração de dependentes químicos que ocupava parte da rua dos Protestantes, no Campos Elíseos, se desfez. Apesar da desmobilização, pequenos grupos de usuários continuaram a se formar pelo centro.

Na campanha eleitoral de Tarcísio, são exibidas imagens da transformação do ponto de concentração de usuários em uma praça com quadra e parquinho.

No início de julho, Nunes e Tarcísio compareceram à inauguração do local revitalizado, batizado de Praça do Triunfo. Posaram para fotos chutando bola de futebol e fazendo arremessos na cesta de basquete. O deputado estadual André do Prado (PL), candidato ao Senado por São Paulo, também participou.

Clarice Madruga, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do Lecuca (Levantamento de Cenas de Uso em Capitais), diz que o fim de um ponto central de aglomeração faz com que os usuários se reúnam em pequenos grupos para usar o crack.

Seus estudos apontam que, até 2024, houve aumento anual de 20% de novos dependentes químicos nas ruas da capital paulista. "A torneira nunca fechou", diz. "Existe uma prevalência alta de pessoas com transtornos no Brasil de forma geral e uma carência muito grande de equipamentos que cuidem dessas pessoas antes que cheguem nesse grau tão grave de abandonar a família e ir para uma cena de uso."

Publicado anualmente desde 2016, o Lecuca norteia atualmente o critério usado pelas gestões municipal e estadual para definir fluxo de usuários: é necessário o mínimo de 15 usuários aglomerados por três dias consecutivos em um mesmo ponto.

Procurada, a gestão Nunes afirmou que as abordagens feitas por equipes de Assistência Social diminuíram 24,5% com o esvaziamento da rua dos Protestantes, "de 26.077 no primeiro semestre de 2025 para 19.694 no primeiro semestre de 2026".

A gestão também disse que as abordagens foram intensificadas em outros pontos da região central desde a dispersão. "A dependência de álcool e drogas é um problema que afeta grandes cidades em todo o mundo", diz a municipalidade ao reiterar que o atendimento à população em situação de rua e uso de álcool e drogas é contínuo na cidade.

As apreensões de drogas e prisões de acusados de tráfico de drogas na região central também se mantiveram, apesar da desmobilização do fluxo de usuários em maio do ano passado.

A Secretaria de Segurança Pública informou que apreendeu 550 quilos de drogas na região central entre janeiro e julho deste ano. A GCM (Guarda Civil Metropolitana) afirmou ter tirado de circulação 814 no primeiro semestre deste ano, quase a metade do registrado em 2025 – 1,8 mil quilos –, quando a aglomeração na rua dos Protestantes ainda estava ativa.

Em relação às conduções, 206 suspeitos foram levados a delegacias pela GCM entre janeiro e junho de 2026, contra 234 no mesmo período de 2025.

Em nota, a gestão do governador Tarcísio afirmou que, com a desmobilização do que chamou de "antiga cracolândia", a atuação das forças de segurança e das equipes sociais foi ampliada. Cerca de 2.000 policiais militares monitoram pontos de uso de drogas, segundo o governo estadual.

A permanência de usuários de drogas pelo centro, embora em grupos menores, tem sido relatado por moradores, que registram em vídeo a atuação de pequenos traficantes e a formação de pequenos grupos de usuários.

À frente do programa municipal anticrack da prefeitura entre 2017 e 2022, o psiquiatra Artur Guerra enaltece o fim da aglomeração conhecida por décadas como cracolândia, mas reconhece que a dependência de drogas é um problema de difícil solução definitiva.

"É um problema crônico e enraizado. Houve uma migração da cena de uso para outros locais onde, de uma certa forma, a abordagem deveria ser mais eficiente", diz o psiquiatra, que atua hoje como diretor do Instituto Perdizes do Hospital das Clínicas, voltado ao tratamento de doenças relacionadas ao uso de álcool e drogas.

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