Não é a casa que subiu, é o euro que caiu

Tenho uma notícia para quem acampou no Rossio: a casa está mais barata do que em 2001. Não em euros, claro. Em euros está obscenamente mais cara, e é por isso que há tendas na praça. Mas em qualquer coisa que não seja euros, ouro por exemplo, uma casa custa hoje menos de metade do que custava há vinte e cinco anos.
Em 2001, nos Estados Unidos, eram precisas umas 500 onças de ouro para comprar a casa média. Em 2020 rondavam as 200. Hoje, com o ouro a bater recordes, andam pelas 90 a 100. A casa é a mesma. Tem as mesmas paredes, o mesmo telhado, a mesma vista para o vizinho. O que mudou foi aquilo com que a pagamos.
E é aqui que a conversa toda sobre habitação em Portugal ganha um ângulo que nem os manifestantes nem os ministros nem os comentadores quiseram tocar, provavelmente porque não dá cartaz. A pergunta não é só “porque é que as casas estão tão caras?”. A pergunta é: caras em quê? Porque se o problema estiver no dinheiro e não na casa, então todos os remédios que andam a ser receitados, dos tectos às rendas aos apoios, são o equivalente a tratar uma febre partindo o termómetro. Alivia a ansiedade do médico. O doente continua a arder.
Os reis portugueses tinham um truque para quando o dinheiro não chegava. Chamavam o moedeiro, mandavam pôr menos prata em cada moeda, e cunhavam mais moedas com a mesma prata. Chamava-se “quebra da moeda”, as Cortes queixavam-se, o rei prometia não repetir, e repetia. D. Fernando fez isto tantas vezes que o povo lhe deu uma alcunha, o Formoso, que é o que se diz de alguém quando não se quer falar do resto. Durante seis séculos, isto foi considerado uma forma elegante de roubo. Hoje chama-se política monetária, tem um prédio em Frankfurt, e quem a pratica dá conferências de imprensa.
O Banco Central Europeu não precisa de moedeiro. Desde 2008 multiplicou o balanço por cinco, manteve as taxas de juro em zero ou abaixo durante quase uma década, e comprou dívida pública como quem apanha conchas numa praia onde é o único banhista. Chamou-lhe estabilidade de preços e, em rigor, cumpriu: o iogurte não disparou. O que disparou foi tudo o que não se consegue produzir numa impressora. Casas, acções, ouro, arte, vinho de 1985. A coisa é quase cómica na sua precisão: o BCE conseguiu uma inflação de 2% exactamente nas coisas de que ninguém precisa com urgência e de 200% na única coisa que uma família precisa mesmo de comprar na vida. É como um dietista que vos garante que mantiveram o peso, desde que não contem a barriga.
Não há aqui nenhuma teoria exótica. É a lei mais velha da economia, aquela que Rothbard explicava a alunos do primeiro ano antes de passar às coisas que os assustavam: quando há mais unidades de moeda, cada unidade compra menos. A casa não entra no cabaz da inflação do INE, o que é conveniente para quem fabrica a inflação e inconveniente para quem compra casas. Por isso o país inteiro olha para a casa e grita “está cara!” quando a frase correcta, menos satisfatória e impossível de pôr num cartaz, seria “o euro está barato”. Ninguém acampa contra um agregado monetário.
Façamos a conta cá dentro, com um T3 de 100 m² ao preço mediano nacional do INE e o ouro ao preço de cada época. Os preços das casas são do INE; os do ouro são médias aproximadas do período, convertidas em euros.
T3 de 100 m² ao preço mediano nacional (INE), em euros e em ouro:
2016: 103 mil euros, ou 91 onças de ouro
2024: 174 mil euros, ou 81 onças de ouro
2026: 245 mil euros, ou 70 onças de ouro
Em euros: +137%.
Em ouro: -23%.
Mesma casa. Mesmas paredes. Só mudou aquilo com que a pagamos.
Fontes: INE via Notícias ao Minuto (2016), Notícias ao Minuto (2024) e Sábado (2026); ouro actual em goldpricez.
Leiam isto duas vezes. Em dez anos, o T3 português passou de 103 mil para 244 mil euros, uma subida de 137%, e é essa a manchete, o cartaz e a razão das tendas. Medido em ouro, o mesmo T3 passou de 91 onças para 70. Caiu 23%. A casa ficou mais barata para quem guardou poupanças em qualquer coisa que o BCE não consiga imprimir, e ficou proibitiva para quem guardou poupanças em euros, ou pior, para quem recebe o salário em euros e vê o salário crescer 3% ao ano enquanto o preço da casa cresce 18%.
E isto é a mediana nacional, que inclui o interior onde o metro quadrado ainda custa 700 euros. Em Lisboa, onde o INE regista 5 292 euros por metro quadrado, a história é a mesma com mais zeros: um T2 de 80 m² custa 423 mil euros e pouco mais de 120 onças de ouro, ou seja, menos de um quilo de uma coisa que cabe numa mão. O problema não é que Lisboa esteja cara. É que o euro que o português ganha está barato, e não há lei das rendas que mude isso.
Se o euro perde valor, perde-o para toda a gente, e portanto a coisa devia ser neutra. Não é, e o motivo tem trezentos anos e um nome francês. Richard Cantillon reparou, em 1730, que o dinheiro novo não cai do céu em partes iguais. Entra no sistema por um sítio e espalha-se a partir daí, e quem está perto da torneira bebe primeiro, a preços velhos. Quem está no fim da mangueira recebe o dinheiro quando os preços já subiram.
Quem está perto da torneira do BCE? Os bancos, que recebem liquidez a zero. Os fundos, que pedem emprestado a zero para comprar activos. Os grandes promotores, que financiam torres inteiras a 1%. Quem já tinha casa, que a viu duplicar sem fazer nada. Quem está no fim da mangueira? O jovem de 28 anos com um contrato a prazo, que recebe o salário em euros já desvalorizados e tenta comprar uma casa que foi reavaliada em euros fortes há cinco anos. Ele não perdeu a corrida. Começou-a quando os outros já tinham chegado.
Aqui está a ironia que mais me diverte neste episódio todo. Os manifestantes gritam contra a especulação, contra os fundos, contra os senhorios, contra o capitalismo. Têm razão quanto aos beneficiários: foram esses que ganharam. Mas erram no mecanismo. Nenhum fundo imprime euros. Nenhum senhorio decide as taxas de juro. O capitalismo não tem um balanço de 7 biliões em Frankfurt. Quem desenhou a máquina que transfere riqueza de quem trabalha para quem já tem activos foi o Estado, através do banco central, e com a melhor das intenções: estimular a economia, salvar o euro, evitar a deflação. Conseguiu. A economia dos que já tinham casa foi estimuladíssima.
E agora a mesma esquerda que aplaudiu cada estímulo, cada compra de dívida e cada década de juros a zero vem para a rua exigir que o Estado corrija os efeitos. A solução proposta: mais Estado. A solução nunca proposta: que o Estado pare de fazer aquilo que causou o problema. É como ir queixar-se ao senhor que vos furou o pneu e pedir-lhe que empurre o carro. Ele empurra, com um sorriso, e cobra pelo serviço. E no fim ainda fica com a chave de rodas, para a próxima.
O advogado do diabo tem razão em três coisas.
Primeira: o ouro não é uma régua perfeita. Também sobe e desce por razões próprias, e parte da subida recente é medo, bancos centrais a comprar, e a China a vender dólares. Medir casas em ouro num pico do ouro é tão enganador como medir em euros num pico do euro. Verdade. Mas façam a mesma conta em acções, em petróleo, em bitcoin, em qualquer activo escasso, e a direcção é a mesma: a casa não ficou mais cara em relação a coisas; ficou mais cara em relação a dinheiro. Quando tudo o que é escasso sobe em conjunto, o suspeito não é o que subiu. É o que todos têm em comum: a moeda em que são medidos.
Segunda: a oferta também conta. Portugal constrói metade do que construía em 2000, o licenciamento demora o tempo de uma gravidez de elefante, e o solo urbanizável está sentado nas câmaras à espera de um plano director que chega sempre no mandato seguinte. Se a oferta fosse elástica, a liquidez do BCE teria produzido mais casas em vez de casas mais caras. É verdade, e é verdade importante: a crise tem duas pernas, a monetária e a regulatória, e o país coxeia das duas. A diferença é que da segunda fala-se para pedir mais regulação, e da primeira não se fala de todo, como de um tio que fez fortuna de forma pouco clara e paga o jantar de Natal.
Terceira: dizer a um jovem que a casa está mais barata em ouro não lhe paga a renda. Ele não tem ouro, tem euros, e cada vez menos. Exactamente. É esse o crime. O sistema monetário europeu pune quem poupa em moeda e premeia quem já tem activos, e depois oferece ao punido um apoio à renda de 200 euros, em moeda, para o manter no fim da mangueira. A resposta honesta não é “compra ouro”. É “deixem de desvalorizar aquilo em que te pagam”. Mas essa resposta não dá cartaz, não dá ministério e não dá emprego a ninguém.
No Rossio havia cartazes contra a especulação, contra os fundos, contra os senhorios, contra o Moedas, pela Palestina e pelo planeta. Não vi um único que dissesse “parem de imprimir”.
Compreende-se. Não rima, não se percebe à primeira, e aponta para um edifício em Frankfurt que ninguém sabe desenhar.
Mas é o único cartaz que acerta no alvo. Porque a casa de 2016 e a casa de 2026 são a mesma casa. Mesmas paredes, mesmo telhado, mesma vista para a roupa do vizinho. Entre uma e outra não aconteceu nada ao betão. Aconteceu ao euro. E enquanto se discutir o preço da casa sem discutir o valor da moeda, vamos continuar a assistir ao espectáculo de um país que se espanta por as casas subirem todos os anos, como quem se espanta por o barco se afastar do cais sem reparar que é o cais que se está a afundar.
Um rothbardiano diria que a solução é dinheiro que não se possa imprimir. Eu digo menos: digo que ao menos se faça a pergunta. A próxima vez que alguém vos disser que a habitação está cara, perguntem: cara em quê? Se a resposta for “em euros”, já têm metade do diagnóstico. A outra metade está no Rossio, em tendas, a gritar pela cura errada.
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