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Wednesday, November 4, 2026

Por dentro da fábrica de R$ 70 milhões onde Tania Bulhões controla cada detalhe

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Além do cargo de CEO Global, que ocupa desde março deste ano, Virgilio Bulhões brinca que passou a ser chamado de jardineiro. À frente do Bosque Tania Bulhões, em Uberaba, cidade natal de sua mãe e fundadora da marca, o executivo acompanha o crescimento das árvores com a mesma atenção dedicada à formação dos artesãos. Entre cajueiros, jabuticabeiras e mudas do Cerrado, está tomando forma um investimento de R$ 70 milhões para mudar a maneira como a empresa produz suas porcelanas e sua perfumaria.

O complexo ocupa um terreno de 40 mil metros quadrados, com 7.500 metros quadrados de área construída e espaço para dobrar a estrutura. Reúne ateliês, laboratórios de pesquisa e desenvolvimento, loja, auditório e café. Na primeira fase, a previsão é gerar cerca de 80 empregos diretos. Por trás da paisagem, o objetivo de negócio é assumir mais etapas da produção, aproximar o desenvolvimento da execução e ampliar o controle sobre qualidade, prazos e propriedade intelectual.

“Conseguiremos crescer com maior autonomia, preservando o caráter autoral e artesanal dos nossos produtos”, diz Virgilio.

Virgilio Bulhões, CEO global da Tania Bulhões

Virgilio Bulhões, CEO global da Tania Bulhões (Divulgação/Divulgação)

A mudança alcança duas frentes com trajetórias diferentes dentro da empresa. A porcelana está ligada à origem da marca e à atuação de Tania como artista. A perfumaria cresceu a partir dos aromas para a casa, avançou sobre os perfumes pessoais e hoje representa 45% do faturamento. Virgilio projeta que essa participação se aproxime da metade do negócio no fim do ano.

Fundada em 1989, a Tania Bulhões tem hoje 52 lojas no Brasil, comércio eletrônico, showroom em Nova York e mais de 57 lojas parceiras com espaços dedicados à perfumaria e aos presentes. Em Uberaba, o investimento acrescenta produção própria e um endereço no qual o consumidor poderá acompanhar como os produtos são feitos.

Da França a Uberaba

Complexo em Uberaba reúne produção de porcelana e perfumaria

Complexo em Uberaba reúne produção de porcelana e perfumaria (Divulgação/Divulgação)

O Bosque se soma à estrutura industrial construída pela marca na França. Em 2023, a empresa adquiriu o controle da Royal Limoges, manufatura fundada em 1797, na cidade francesa de Limoges. Há ainda uma segunda unidade francesa, comprada há menos de dois anos, especializada em parte das peças brancas destinadas à decoração no Brasil e na própria Royal Limoges.

Limoges é o polo francês de produção de porcelana, do qual vêm as referências técnicas adotadas em Uberaba. A marca quer reproduzir no Brasil métodos, cuidados e materiais usados em sua operação francesa, preservando a distinção entre as coleções produzidas em cada país. As linhas desenvolvidas para Limoges continuam sendo feitas na França; parte das demais coleções passa a ganhar forma em Minas Gerais.

“Os processos feitos no Brasil estão o mais próximo possível do que fazemos na França”, diz Virgilio.

A transferência envolve matéria-prima e formação profissional. A pasta usada na fabricação brasileira é importada da França, do mesmo fornecedor que abastece a operação francesa. Duas artesãs do Bosque passaram três meses na Royal Limoges, acompanhando os profissionais da manufatura. No sentido inverso, integrantes da equipe francesa vieram a Uberaba para orientar o trabalho.

O intercâmbio deve continuar à medida que a produção brasileira avance. A intenção é formar uma equipe capaz de dominar os ofícios e desenvolver suas próprias soluções, apoiada na experiência francesa. O aprendizado também ajuda a definir quais formas, acabamentos e graus de complexidade serão executados em cada unidade.

O desenho dessa estrutura começou antes da obra. Segundo Virgilio, o projeto vem sendo trabalhado há cerca de seis anos. O resultado é uma rede na qual criação, fabricação das bases, decoração e desenvolvimento podem circular entre as operações brasileiras e francesas.

Como a porcelana ganha forma

O processo começa com os desenhos de Tania e de seu time. Referências, formas, cores e acabamentos são traduzidos em projetos e passam por protótipos, testes e ajustes antes da produção. No ateliê, a pasta de porcelana é preparada para dar origem às bases. As peças seguem pelas etapas de queima, acabamento e decoração, combinando equipamentos com intervenções manuais em diferentes ambientes construídos no Bosque.

Mas, longe dos fornos e dos grandes maquinários, é na seção de decoração que parte importante da identidade da marca aparece. O Bosque trabalha com pintura à mão e aplicação manual de decalques serigráficos, escolhidos de acordo com o desenho e o resultado pretendido para cada coleção. Os pigmentos e o ouro usados nas duas técnicas são os mesmos; muda a maneira de colocá-los sobre a superfície.

No decalque, o desenho chega em uma folha, é umedecido e transferido para a base branca. O trabalho exige ajustar a imagem às curvas da peça, centralizar os elementos e retirar a água com cuidado para evitar falhas na queima. Cada aplicação acontece individualmente, inclusive a identificação de origem das porcelanas finalizadas no Bosque.

A técnica permite reproduzir com fidelidade o desenho original, mas depende da mão de quem aplica. Um contorno mal ajustado ou uma bolha comprometem o resultado. Nas peças pintadas manualmente, entram pincéis, filetes e outros acabamentos feitos com mãos firmes diretamente sobre a porcelana.

“Podemos acompanhar testes, cores, acabamentos, queimas e detalhes da peça dentro do nosso próprio ateliê, aproximando a criação do trabalho dos artesãos”, afirma Virgilio.

A produção própria também reduz a distância entre uma ideia e a avaliação do resultado. Ajustes de tonalidade, acabamento ou posicionamento de um desenho podem ser acompanhados pela equipe dentro da operação. O investimento em máquinas convive, assim, com a decisão de manter etapas artesanais, sobretudo na decoração.

A perfumaria entra em casa

Na perfumaria, a mudança é assumir uma operação antes terceirizada. A marca já conduzia a criação dos produtos e das fragrâncias, mas recorria a parceiros para fabricar e envasar. A transferência para Uberaba está em andamento, com previsão de produzir ali a totalidade dos produtos dessa frente em 2027.

As fragrâncias continuam sendo desenvolvidas com perfumistas e casas internacionais, e os óleos seguem vindo de fora. O que muda é o domínio sobre a formulação final, os testes, o envase e o acabamento. Tania lidera a direção criativa e trabalha com os perfumistas para traduzir referências e intenções em composições olfativas.

Na fábrica, a marca controla todas as etapas, da análise das matérias-primas à formulação e ao envase. A estrutura reúne laboratórios para desenvolver produtos e testar sua qualidade, além de permitir o acompanhamento de cada lote produzido.

Mesmo nessa área, com tanques e equipamentos, o acabamento mantém etapas manuais. A dobra e o fechamento do celofane das embalagens são feitos à mão. Segundo Virgilio, as tentativas de mecanizar o processo não chegaram ao padrão visual desejado.

A estrutura foi dimensionada para acomodar o crescimento. A perfumaria dispõe de áreas nas quais novos equipamentos podem ser acrescentados, enquanto o terreno permite uma ampliação futura do conjunto. A proposta é aumentar a produção acompanhando a expansão comercial da empresa.

O encontro entre o objeto e o perfume

A entrada na perfumaria pessoal teve um componente de observação do consumidor. Virgilio conta que clientes usavam no corpo aromatizadores desenvolvidos para a casa, especialmente fragrâncias como Chá Branco e Lavanda. Como as formulações tinham outra finalidade, a marca passou a desenvolver produtos próprios para esse uso.

O movimento ganhou uma orientação mais estratégica com a chegada do executivo à empresa, há cerca de dez anos. Vieram investimentos, canais dedicados e lojas voltadas à categoria. Hoje, há unidades de perfumaria no BarraShopping, no Rio de Janeiro e no DiamondMall, em Belo Horizonte, e a companhia pretende abrir outras.

Para o executivo, a perfumaria pessoal de luxo cresceu quase 40% neste ano. O avanço ajuda a explicar a decisão de internalizar a fabricação e de aproximá-la da porcelana, um material já associado ao repertório da empresa. “O que o Bosque nos permite também é trazer a porcelana para a perfumaria”, afirma.

As velas serão uma das expressões dessa integração. O plano é fabricar o recipiente, decorá-lo e concluir o produto na perfumaria do complexo. Depois do uso, a embalagem poderá permanecer como objeto decorativo. A marca também trabalha em possibilidades de difusão de fragrâncias com elementos de porcelana.

A ideia de uma porcelana perfumada aproxima o aroma do objeto. Para a empresa, isso abre espaço para desenvolver produtos em que forma, decoração e fragrância sejam pensadas desde o início pelas equipes, com mais etapas sob seu controle.

Uma fábrica desenhada para receber

Fachada do Bosque, projeto do escritório Saboia Ruiz Arquitetos

Fachada do Bosque, projeto do escritório Saboia Ruiz Arquitetos (Divulgação/Divulgação)

A arquitetura procura tornar esse trabalho visível. Assinado pelo escritório Saboia Ruiz Arquitetos, o projeto foi concebido para receber visitantes e conectar os ambientes de produção à paisagem. Os prédios, com exceção da estrutura da perfumaria, adotam madeira engenheirada, em uma referência também à materialidade da manufatura francesa.

Nas fachadas e nos fechamentos dos ateliês, o policarbonato translúcido deixa a luz passar e faz alusão a uma característica valorizada na porcelana: a translucidez. A luminosidade filtrada participa do ambiente de trabalho e, à noite, inverte a relação com o exterior. Com os interiores acesos, os volumes lembram lanternas.

O paisagismo de Ricardo Cardim prevê 8 mil mudas e reúne referências do Cerrado e da Mata Atlântica, com destaque para espécies nativas do território. Cajueiros formam um dos pátios; jequitibás, jatobás e cedros integram o conjunto. Há ainda um pomar de frutíferas do Cerrado.

Paisagismo de Ricardo Cardim reúne espécies do Cerrado e da Mata Atlântica

Paisagismo de Ricardo Cardim reúne espécies do Cerrado e da Mata Atlântica (Divulgação/Divulgação)

A vegetação também deve alimentar o processo criativo. Frutos, flores e folhagens podem se tornar referências para desenhos e fragrâncias. O jardim funciona, assim, como parte do repertório da marca, além de compor o percurso de quem visita a unidade.

O Bosque terá loja com o portfólio da empresa, auditório para cerca de 60 pessoas e o Leila Café, desdobramento da proposta gastronômica do Leila Restaurante, em São Paulo. A programação prevê visitas agendadas aos ateliês e, a partir de 2027, residências artísticas e intervenções em diálogo com a arquitetura e os jardins.

Para Virgilio, o tempo necessário ao crescimento das árvores tem um paralelo com a formação dos artesãos. Os dois processos exigem acompanhamento e continuidade. Entre a tradição trazida da França e as mudas plantadas em Minas Gerais, o Bosque começa a construir sua própria experiência.

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