Guitarricadelafuente: ídolo pop, "full time papi"

Guitarricadelafuente. É mesmo assim, tudo junto, sem espaços, até parece uma palavra de brincar. É musical, como uma onomatopeia, soa a antiga como a letra de uma canção popular, daquelas canções que falam de uma rapariga que leva o jarro à fonte e se enamora pelo trovador de “guitarrica” ao colo, mas também é misteriosa e, como tudo o que é misterioso, desejável. É o som que Álvaro Lafuente Calvo decidiu vestir para se apresentar ao mundo e aquele que, de há uns tempos para cá, meio mundo anda a pronunciar, com maior ou menor destreza na língua, cada sílaba uma desculpa para errar e fantasiar.
Falamos do músico de 29 anos, natural de Benicàssim (Valência), que chegou a estudar arquitetura num momento em que a música lhe parecia uma opção distante, e que, de um momento para o outro, se converteu em estrela pop, ícone de moda, ídolo queer, o mais recente produto made in Spain a estourar fronteiras e pantalones. Spanish Leather, álbum lançado em 2025, foi o seu grito do Ipiranga e A Bola Negra, filme de “Los Javis”, que chega a Portugal no dia 5 de novembro, a obra que confirmou Guitarricadelafuente como artista total e universal. Não só assume o papel de um dos três protagonistas do filme, logo na sua estreia como ator, como assina o tema La Nieve, que concorre à nomeação para o Óscar de Melhor Canção Original.
[“La Nieve” ao vivo em Madrid:]
Da música à moda, passando pelo entretenimento e pela publicidade, ninguém lhe resiste: Shakira chamou-o para atuar na sua ousada digressão-residência em Madrid, Jimmy Kimmel para o seu talk-show, a NPR para o Tiny Desk, a Apple para dar voz a um anúncio realizado por Spike Jonze, a Dior para ser embaixador da sua linha masculina e a Zara para uma coleção cápsula inspirada em Spanish Leather. Guitarricadelafuente é a cena do momento e em Espanha já vaticinam: “É um artista de massas com uma proposta genuína e com ar de quem vai permanecer no topo durante muito tempo” (El País).
O folclore que se vai ouvir no futuro
Tudo começou num pequeno pueblo chamado Cuevas de Cañart, da província de Teruel, em Aragão. Era para lá que Álvaro Lafuente ia todos os verões e se reencontrava com as suas raízes familiares, por entre as cascatas e o verde da Serra de Garrocha e o conjunto histórico amuralhado daquela vila medieval. “A minha aldeia é o ponto a partir do qual quero chegar a um lugar maior”, dizia em 2022 em entrevista ao El País.
Foi nesse ano que lançou o seu álbum de estreia, La Cantera, moldando uma estética com ecos do flamenco, da copla e da canção madrigalista ibérica, mas também do folclore da américa latina, em especial da música andina e ranchera. Abraçado à guitarra, a mesma que o seu pai lhe ofereceu e com a qual aprendeu a tocar sozinho aos 15 anos, Guitarricadelafuente estabeleceu um diálogo tão íntimo como o de Silvana Estrada com o seu cuatro venezuelano, mostrando-se, tal como a artista mexicana, vulnerável, mas seguro, antigo, mas de agora.
[o álbum “Spanish Leather” na íntegra:]
A produção de Raül Refree, nome central no desenho da nova linguagem da música espanhola, bem resolvida com o seu passado e sem medo de se reescrever, ofereceu ao disco uma dimensão espiritual e sombria, entre distorções e outros experimentalismos. La Cantera ressoava à crueza de Los Ángeles (2017), o primeiro trabalho de Rosalía, no qual o produtor também teve mão, e deixava muitas possibilidades em aberto.
O despontar artístico de Guitarricadelafuente e a forma como o público tão bem o acolheu vem na senda do trabalho das novas gerações de artistas espanhóis, que têm vindo a ressuscitar muitas tradições e cantares antigos quase esquecidos (fenómeno que se espelha em Portugal e um pouco por toda a Europa). Rosalía e C. Tangana, logrando de um sucesso internacional ímpar, tornaram-se as faces mais visíveis e mainstream deste movimento, mas a eles podemos juntar nomes como o do asturiano Rodrigo Cuevas, das galegas Las Tanxugueiras, Sheila Patrícia e Baiuca, da catalã Maria Arnal, das andaluzes Judeline, La Tania e Yerai Cortéz ou de Niño de Elche, só para mencionar alguns.
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