O outono em que a Geração Z saiu à rua também na Europa

2025 ficou conhecido como o "ano dos protestos", depois de uma onda de descontentamento ter varrido inúmeros países. Entre memes, humor e um desafio às autoridades, jovens europeus seguiram o exemplo.
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Em Paris, Smael, de 16 anos, e os colegas bloqueiam a sua escola secundária, em Montreuil, há mais de um mês. Mais a norte, em Le Havre, Hedine, de 29, saiu à rua ao lado de milhares de pessoas, incluindo famílias e crianças, até a polícia lançar gás lacrimogéneo sobre a multidão. Em Lisboa, Lou, de 23 anos, passou duas noites a dormir numa tenda no Rossio. Em Madrid, Héctor, de 28 anos, assumiu voluntariamente a responsabilidade pela segurança do acampamento na Puerta del Sol, ao fim de duas semanas a dormir no local. Em Milão, Louis, de 21 anos, viu o protesto que ajudou a organizar evoluir para um motim que terminou com 271 detidos.
Para além dos milhares de quilómetros que os separam, estes cinco jovens — os três primeiros ouvidos pelo Observador — distinguem-se pelos motivos que os levaram a sair à rua: as condições das escolas, a situação da habitação, a solidariedade face à repressão policial dos manifestantes ou o aumento incomportável do custo de vida. Todavia, as diversas reivindicações convergem num mesmo sentimento, um “basta generalizado“, como identificam os dois jovens franceses.
▲ "A Geração 67 [uma referência a um meme] volta a fazer o Maio de 68", lê-se no cartaz erguido num protesto em Paris
Hans Lucas/AFP via Getty Images
Esse mesmo sentimento tomou conta, nas últimas semanas, de vários países da Europa, mas não se limita às fronteiras do continente. Pelo contrário, 2025 já tinha sido classificado por muitos especialistas como “o ano dos protestos”, devido à onda de descontentamento que tomou conta de vários países do Sul Global e que, nos casos do Nepal ou de Madagáscar, levou à queda de governos. Em 2026, esta onda continua a varrer o globo. Ao leme dos protestos, ergue-se a Geração Z (jovens nascidos sensivelmente entre 1997 e 2010), a primeira geração nativa digital e que utiliza esses espaços para se organizar, mobilizar, partilhar ideias e transmitir a sua mensagem.
“A participação política dos jovens está longe de ser um movimento novo”, reconhece ao Observador Tiago Carvalho, professor auxiliar de sociologia no ISCTE, que aponta exemplos que vão desde as mobilizações do Maio de 1968 ao movimento climático Fridays for Future, passando pela Geração à Rasca em Portugal. Mas no caso da Geração Z, verifica-se uma “combinação particular” de fatores, aponta: “Insegurança quanto ao futuro, novas linguagens políticas e formas de mobilização cada vez mais articuladas entre espaços digitais e presenciais”.
▲ A acampada em Madrid prolonga-se há quase um mês com mais de mil tendas
BORJA SANCHEZ-TRILLO/EPA
Habitação, educação e o fantasma das sucessivas crises. As “inseguranças” de uma geração
Smael Afnaï já soma mais de um mês de protestos — diz não ter faltado a nenhum na capital — e bloqueios na sua escola secundária num “banlieue parisiense”. Ainda assim, não hesita em apontar o momento mais marcante da luta por melhores condições nas escolas e no acesso ao Ensino Superior. “Foi o 17 de outubro, porque nunca tinha visto tanta gente na rua, mobilizada — especialmente tantos jovens — como vi nesse dia”, partilha com o Observador. No passado sábado, mais de meio milhão de franceses saíram à rua com novas reivindicações: já não se gritava apenas pela Educação mas contra os “orçamentos de austeridade de Emmanuel Macron”. Mais de duas mil pessoas acabaram detidas no protesto que degenerou em motim, com centenas de lojas saqueadas.
Nesse mesmo dia, milhares de pessoas manifestaram-se em Roma, Bolonha, Milão e Turim (e noutras cidades em Itália) contra o custo de vida, os baixos salários e o preço dos combustíveis. O protesto, organizado pela intersindical CGIL e pelo movimento “Italia in Piazza“, terminou em violentos confrontos com a polícia em Bolonha e Milão. Em Lisboa, nessa mesma data, milhares de pessoas acorreram à Praça D. Pedro IV, onde montaram uma acampada pacífica. Para além de protestarem contra os custos da habitação, condenavam a violência policial contra uma manifestação semelhante no Porto, dias antes, que ficara marcada por uma carga policial que está a ser investigada pelo IGAI.
▲ Os protestos em Milão resultaram em centenas de detidos. Também houve confronts com a polícia em Bolonha
MATTEO CORNER/EPA
A acampada na capital lisboeta surgiu à imagem de uma outra, de dimensões bem maiores, que surgiu em Madrid, na Puerta del Sol, no dia 26 de setembro. Com mais de 1.800 tendas, uma autêntica cidade no coração da capital espanhola, os manifestantes também contestavam a situação da habitação, na sequência do despejo de Maricarmen, de 87 anos. Em todas estas cidades europeias — e muitas outras —, os manifestantes já prometeram voltar a sair à rua no próximo fim de semana.
Os exemplos mais recentes acumulam-se um pouco por toda a Europa Ocidental, mas um recuo no tempo permite ver um fenómeno muito mais alargado. Durante o verão, milhares de albaneses protestaram contra um projeto turístico promovido por Jared Kushner, genro de Donald Trump, na ilha de Sazan, Albânia. E, meses antes, a educação já tinha servido de pretexto para milhares de indianos se manifestarem contra o Governo de Narendra Modi, na Índia, onde, em maio, foi fundado o Movimento das Baratas — nome adotado pelo movimento depois de terem sido assim apelidados pelo presidente do Supremo Tribunal. Pouco mais de seis meses depois da sua fundação, este movimento foi bem-sucedido, ao ter forçado a demissão do ministro da Educação.
▲ Depois da demissão do ministro da Educação, o partido das Baratas quer ver Modi cair
VIJAY PANDEY/EPA
Todos estes exemplos são vistos pelos especialistas como uma evolução natural dos protestos do ano passado no Nepal, Madagáscar, Marrocos, Filipinas, Indonésia, Quénia, Paraguai e Peru que também foram liderados pelas camadas mais jovens. Esta proeminência, salienta Tiago Carvalho, pode ser explicada com o facto de esta ser a geração que mais é afetada pelo aumento do custo de vida: por estarem apenas a entrar no mercado de trabalho agora, acabam por ter salários mais baixos, contratos mais precários e, por isso, menos autonomia financeira.
Por outro lado, esta também é uma geração que se tornou — ou ainda se está a tornar — adulta numa altura que é desafiante, marcada por sucessivas crises, argumenta Donatella della Porta, diretora do programa de Ciência Política e Sociologia na Scuola Normale Superiore, em Florença. “[Crises] financeiras, climáticas, pandémicas e agora guerras e um genocídio”, sintetiza. “Eles veem o seu futuro em risco e sentem que não são reconhecidos, antes considerados infantis e rebeldes“, acrescenta.
▲ O protestos no Nepal em 2025 levaram à queda do Governo
AFP via Getty Images
“Baratas”, “Bismillah” e One Piece. A “linguagem política” comum na resposta às autoridades
Em julho deste ano, Manit, um estudante de engenharia de 18 anos, partilhou nas suas redes sociais um novo treino de corrida, registado na aplicação desportiva Strava. Correra 1,60 quilómetros em pouco mais de 7 minutos. A publicação parecia uma partilha comum entre os jovens da sua idade, mas o final do vídeo permitia ver que o “treino” fora gravado enquanto fugia à polícia numa manifestação organizada pelo Movimento das Baratas em Deli.
Nas redes sociais, vídeos deste tom proliferam. Na Albânia, um jovem faz um GRWM (“Get ready with me”, “Arranja-te comigo”, em português), em que mostra a sua roupa para esse dia, mas em “edição de guerra”, com uma máscara de gás, óculos de proteção e três camadas de roupa, que funcionam como proteção contra possíveis intervenções policiais. Outros jovens, em França, dançam em frente a polícias com equipamento antimotim e em frente a barricadas a arder.
À primeira vista, os vídeos podem ser “infantis”. Mas Shakuntala Banaji recusa a utilização do conceito de “frivolidade tática“, utilizado por alguns académicos para classificar a utilização de humor em protestos. “Não é frívolo, é profundamente sério. Eles estão a apontar os comportamentos autoritários e cruéis dos seus governos e das forças policiais”, considera a professora de cultura dos media e mudança social da London School of Economics. “O riso face aos ditadores não é um fenómeno novo — é uma forma de se manter a sanidade em tempos políticos assustadores”, remata.
A ridicularização das autoridades é particularmente visível no caso indiano, em que o nome do partido resulta de uma tentativa de insulto aos manifestantes por parte do presidente do Supremo Tribunal. Em maio deste ano, Surya Kant referia-se aos manifestantes como “baratas” e “parasitas“. Pouco tempo depois, os jovens reclamavam o insulto como título e criavam o “Movimento das Baratas”.
▲ Num cartaz colocado no Rossio lê-se "Bismillah, c'est les ténèbres"
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Nos protestos deste mês em França, verificou-se o mesmo fenómeno, depois de ter circulado nas redes sociais uma alegada tentativa da polícia de se infiltrar nos movimentos de protesto. Na suposta mensagem, enviada no Snapchat, lia-se “Bismillah, c’est le ténebres“, que combina, de forma errada e sem sentido, duas expressões coloquiais, uma francesa e outra árabe — “Bismillah” significa “em nome de Deus” e “c’est le ténebres” pode ser traduzido como “são as trevas”. A frase tornou-se lema para denunciar aquilo que os jovens veem como a incapacidade de as autoridades compreenderem ou comunicarem com eles e rapidamente saltou fronteiras — a mais de mil quilómetros, na praça do Rossio, a frase esteve legível num cartaz pendurado na estátua de D. Pedro IV.
Outros símbolos são importados de ainda mais longe, como a bandeira de piratas do desenho animado One Piece, utilizada já no ano passado em Madagáscar. O humor sempre foi utilizado como resposta política, mas, na Geração Z, os memes saltam fronteiras muito mais rapidamente, à boleia das redes sociais, e ajudam a construir um “código de comunicação” que não une apenas as pessoas presentes num mesmo protesto, mas à escala global. As piadas, lemas e imagens tornam-se símbolos comuns da resistência de uma geração, uma espécie de linguagem própria. “Partilhar um meme ou reconhecer determinada referência cultural pode reforçar a identificação entre participantes e ajudar a estabelecer uma fronteira simbólica entre um ‘nós’ [os manifestantes] e um ‘eles’ [as autoridades]”, elabora Tiago Carvalho.
▲ A bandeira de "One Piece", utilizada nos protestos em Madagáscar em 2025
Luis Tato
Métodos diferentes, as mesmas exigências. A busca por convergência intergeracional
Devido ao seu trabalho como profissional de saúde, Hedine Mouaoued só conseguiu marcar presença na mobilização do dia 17 de outubro, lamenta ao Observador. O que viu nesse dia em Le Havre foi um protesto pacífico, diz, a que a polícia respondeu com gás lacrimogéneo e violência. O fisioterapeuta de 29 anos lembra as lojas saqueadas e o fogo posto na Câmara Municipal de Limoges, mas enquadra estas ações como “uma revolta face a uma política cada vez mais autoritária que não deixa margem para diálogo”.
O professor Tiago Carvalho, ainda que olhando especificamente para o caso português, nota efetivamente uma “aposta em formas de ação mais disruptivas, como acampadas e desobediência civil” por parte das gerações mais novas. “São formas de contestação que desafiam mais diretamente as autoridades, mas não são, por si mesmas, violentas. Isto não significa que toda uma geração se tenha radicalizado ideologicamente; significa que alguns movimentos estão a mudar os seus repertórios perante a ausência de resultados”, argumenta o especialista.
▲ Na ausência de resultados, a desobediência civil tornou-se mais comum entre os manifestantes portugueses
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Olhando especificamente para a ideologia que tem levado milhares às ruas, manifestantes e especialistas concordam: as exigências de melhores salários ou habitação a preços acessíveis não são exclusivas da Geração Z, ainda que esta possa ser mais afetada por esta realidade. “É uma luta de 99% das pessoas, não é uma luta de alguns ou só estudantil ou só jovem, é uma luta literalmente para todas as pessoas porque neste momento não há ninguém que se safe destas medidas agressivas”, acusa Lou Loução, que participa na acampada em Lisboa.
A mesma ideia é transmitida, em palavras muito semelhantes, por Smael. “Esta convergência de lutas é fundamental para podermos levar a nossa avante”, acrescenta o adolescente, que pertence à juventude da LFI, de Jean-Luc Melénchon. A convergência não é visível apenas entre gerações, mas entre temas: educação, habitação, salários, corrupção, mas também causas de pendor mais social e não relacionadas diretamente com o custo de vida.
▲ Manifestantes erguem bandeira da Palestina num protesto em Perpignan
Hans Lucas/AFP via Getty Images
Hedine Mouaoued dá o exemplo de, “por coincidência de datas”, a mobilização nacional de 17 de outubro em França também ter sido marcada por protestos pelo reconhecimento como crime de Estado do massacre de milhares de manifestantes argelinos pela polícia francesa nessa data em 1961 — uma data importante para o jovem franco-argelino. Outro exemplo é o de os protestos contarem com inúmeras bandeiras da Palestina e apelos à libertação do povo palestiniano.
A explicação para esta convergência está no facto de todos os manifestantes olharem para estes problemas de forma intersecional e culparem uma única raiz comum: a governação à direita, guiada pelo “neoliberalismo” e o “capitalismo”.
Simultaneidade de protestos, procura por coordenação entre Espanha e Portugal e chegada à América do Norte
“Acampada” em espanhol significa apenas “acampamento”, um conjunto de tendas. Em português, a palavra tem um pendor mais político, que aponta especificamente para uma forma de protesto. A análise etimológica é irrelevante para as pessoas que dormiram esta semana no Rossio, mas o sentimento evocado pela utilização da mesma palavra não escapa a Lou, uma voz entre as dezenas que ocuparam a praça lisboeta. “É um exemplo de que estamos unidos na mesma causa, que não é uma causa exclusiva de Portugal”, ressalva.
▲ As exigências dos manifestantes distinguem-se dos seus métodos de atuação
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Contudo, os manifestantes e especialistas ouvidos pelo Observador recusam qualquer organização formal ou sequer um “efeito dominó” ou de contágio entre os diferentes países — embora admitam que o caso de Espanha e Portugal possa ser uma exceção. Reconhecendo que se partilha realmente um sentimento de solidariedade internacional, insistem que as mobilizações são fruto de uma insatisfação generalizada, que vai do Nepal a Portugal, e que vai eclodindo nos diferentes pontos do globo em alturas diferentes, com atores e exigências específicas distintas. Na Europa, a “explosão” atual pode ser explicada pela proximidade de eleições importantes em Espanha (novembro de 2026), França e Itália (em 2027).
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
Tiago Carvalho vai mais a fundo nesta internacionalização do protesto e distingue quatro fenómenos: simultaneidade, convergência, difusão e coordenação. “O que encontramos atualmente na Europa é, antes de mais, uma simultaneidade de protestos e convergência de descontentamentos sociais”, identifica. No entanto, argumenta especificamente que o caso da acampada em Portugal é um caso de difusão do exemplo espanhol. E é também na Península Ibérica que o professor do ISCTE identifica uma possível passagem à coordenação: a convocatória de uma greve geral ibérica, já marcada pelas intersindicais espanholas para o dia 11 de novembro.
▲ Os protestos em França têm sido mais violentos que nos restantes países
YOAN VALAT/EPA
“Julgo que, com a continuidade dos protestos, a sua simultaneidade e convergência, é possível que vejamos mais exemplos de coordenação“, remata o especialista. Para os jovens manifestantes, o próximo passo não é apenas o aprofundamento das redes de contactos e de solidariedade já criadas ao longo das últimas semanas, meses ou até do último ano, mas a sua expansão de uma forma global.
Depois de os jovens na Ásia terem dado o pontapé de partida e de, em África e na América do Sul, terem seguido o exemplo, os protestos da Geração Z parecem ter tomado conta de quase toda a Europa. Do outro lado do Oceano Atlântico, Shana MacDonald, professora especializada em media digitais na Universidade de Waterloo, Canadá, antecipava já no ano passado que 2025 era só o princípio dos protestos — e que a sua chegada à América do Norte era uma questão de tempo. Um ano depois da previsão, a onda de insatisfação está longe de ter morrido.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
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