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Saturday, October 17, 2026

'Não há regras': a nova estratégia de Putin que pretende impossibilitar a vida nas cidades ucranianas

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    • Author, Ilya Abishev
    • Role, BBC News Rússia
    • Author, Olesya Zhigalyuk
    • Role, ВВС News Ucrânia
    • Author, Catherine Heathwood
    • Role, Serviço Mundial da BBC
  • Published

  • Tempo de leitura: 9 min

Em uma surpreendente inversão de destinos, soldados ucranianos na linha de frente passaram a telefonar para suas casas em Kiev para perguntar se suas famílias estão em segurança — não mais o contrário.

"As pessoas, agora, comentam que Kiev é uma cidade da linha de frente", conta Peter Dickinson, morador da capital ucraniana, ao Serviço Mundial da BBC.

"Basicamente, Kiev é tão perigosa, ou talvez mais, que as cidades geograficamente próximas das linhas de frente da guerra."

Nas últimas semanas, a Rússia intensificou os ataques com mísseis e drones dirigidos à capital ucraniana e outras cidades importantes do país. Esses ataques atingiram alvos civis, como escolas, hospitais, hotéis, centros de dados, trens e pontes.

No dia 30 de setembro, por exemplo, drones danificaram duas lojas perto de Kiev. No dia seguinte, um drone atingiu uma escola no distrito de Solomianskyi, na capital ucraniana, e um centro comercial foi alvo de ataques na região de Odessa, no sudoeste do país.

E, no dia 8 de outubro, um drone russo atingiu o terreno de uma escola e jardim da infância no distrito de Bucha, na região de Kiev.

O ministro da Defesa da Rússia afirma que essas construções civis eram usadas para produzir ou armazenar armas e que seu país busca atingir apenas instalações militares e da indústria de defesa.

Mas o comissário de Direitos Humanos do Parlamento ucraniano, Dmytro Lubinets, afirma que os ataques russos mataram ou feriram 15.280 civis, entre janeiro e agosto deste ano. O número é 55% maior que o do mesmo período, no ano passado.

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Drone russo ataca a ponte Pivdennyi, em Kiev

Crédito, Reuters

Legenda da foto, A Rússia passou a atacar as pontes sobre o rio Dnipro, que corta a capital ucraniana, Kiev

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Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim da Promoção Agregador de pesquisas

Um dos ataques mais "infames" da Rússia ocorreu no início de outubro, matando pelo menos 25 pessoas, incluindo crianças, segundo o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

Dickinson edita o blog Ukraine Alert ("Alerta da Ucrânia", em inglês) do centro de estudos Conselho do Atlântico. Para ele, a natureza destes últimos ataques é diferente. Kiev, agora, sofre ataques dia e noite.

"É uma enorme ameaça à vida, mas também incrivelmente perturbador, pois significa que as escolas não podem abrir, as empresas não podem operar e existe uma sensação de incerteza permanente", explica Dickinson.

O bombardeio de cidades ucranianas tem sido uma característica da guerra, desde que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, iniciou a invasão em larga escala do país, em 2022.

"Eu não chamaria isso de mudança, mas sim de escalada", declarou ao Serviço Mundial da BBC o professor Phillips O'Brien, da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido.

Um dos sinais mais notáveis desta escalada são os ataques às pontes que cruzam o rio Dnipro, que corta a capital ucraniana. Dickinson chama as pontes de "artérias vitais da cidade".

A margem direita do rio abriga escritórios governamentais, empresas e grande parte da vida econômica da capital. Já margem direita é dominada pelas áreas residenciais.

Não há túneis sob o rio. Existem apenas as pontes, que sustentam o sistema de metrô da cidade e as rodovias. E, todos os dias, milhões de pessoas se movem entre as duas margens do Dnipro.

Imagem de satélite mostra algumas das pontes sobre o rio Dnipro, que divide a capital da Ucrânia, Kiev: Ponte Norte, Ponte Paton, Ponte do Metrô, Ponte Darnytskyi e Ponte Sul. Um mapa menor mostra a localização de Kiev.

A chegada do inverno

Os drones russos, provavelmente, não têm poder suficiente para destruir grandes estruturas como as pontes, segundo Dickinson. Por isso, seu objetivo parece ser forçar o fechamento dessas estruturas.

O horário dos ataques também é revelador.

"Se o objetivo fosse simplesmente destruir a infraestrutura, eles poderiam fazê-lo facilmente tarde da noite ou nas primeiras horas da manhã... Exatamente com o mesmo impacto, mas, obviamente, sem riscos à vida humana", explica o professor.

"Mas, não, eles estão fazendo literalmente na hora do rush."

"Realmente, parece ser uma política muito, muito deliberada", prossegue ele. "Não existe forma real de explicar estes ataques dizendo que foram danos colaterais ou que, de alguma forma, eram alvos militares legítimos."

O próprio Zelensky declarou ao jornal britânico Financial Times que "os russos não conseguem nos ocupar. Por isso, agora, eles fazem ataques em massa e causam mortes em massa."

"E, é claro, eles querem atacar as nossas pontes e, pelo que entendemos, nossos data centers, internet, rede de celulares, hospitais, jardins da infância, escolas, universidades — tudo. Eles querem que as pessoas fujam das suas cidades."

"Sabemos por inteligência e de algumas pessoas próximas de Putin que, no início de setembro, ele disse: 'Agora, não há regras'", segundo Zelensky.

O presidente da Ucrânia acredita que Vladimir Putin quer "impossibilitar a vida dos civis na Ucrânia ao máximo possível, particularmente com a chegada do inverno", segundo O'Brien.

Em um país onde as temperaturas atingem -20 °C, privando as cidades de calor e água, desconectar as usinas nucleares da rede elétrica também pode tornar a vida extremamente difícil.

'Espalhar o medo'

"Somando tudo, é basicamente colocar pressão política suficiente sobre o governo ucraniano para que eles concordem com um acordo conforme os desejos da Rússia", explica O'Brien.

Kiev parece ser o alvo principal, mas as cidades de Odessa, Lviv, Dnipro e Kharkiv provavelmente também serão atingidas, "pois eles realmente querem perseguir os civis onde for possível".

Um dos principais objetivos desta ofensiva para fazer os civis "fugirem das suas cidades" é prejudicar a moral dos ucranianos, segundo Dickinson.

"Ela cria a impressão de que o governo está indefeso e não consegue proteger as pessoas", segundo ele. E a Rússia espera que este sentimento aumente os apelos pela capitulação.

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, postou no X que "a Rússia está atacando sistematicamente locais onde eles sabem que as pessoas passam tempo cuidando do seu dia a dia, buscando maximizar as vítimas, espalhar o medo e impor pressão sobre a sociedade ucraniana".

Mas existe também outro objetivo.

"Se as pessoas não se movimentarem, elas não podem trabalhar nas fábricas, nem produzir as armas necessárias para defender o país", segundo Dickinson.

Gráfico da BBC ilustra como funciona o sistema de defesa aérea Patriot, usado pela Ucrânia para interceptar os mísseis inimigos. O radar localiza as ameaças inimigas, a estação de controle guia os mísseis até o alvo e o lançador de mísseis comporta até 16 mísseis, que podem ser disparados em menos de nove segundos

Sem empresas funcionando e os impostos que elas pagam, o governo da Ucrânia terá dificuldades de financiamento.

Cada hora de fechamento das empresas, forçado pelos alertas de ataques aéreos, custa à Ucrânia cerca de US$ 45 milhões (cerca de R$ 226 milhões), segundo o ministro da Economia e do Meio Ambiente ucraniano, Oleksandr Kravchenko.

"Se as pessoas estiverem em um bunker, os negócios ficam parados", explicou ele ao jornal britânico The Guardian. E a Ucrânia já precisa pedir mais dinheiro para os seus aliados.

Outro motivo da escalada atual dos ataques russos é simplesmente "que eles podem", afirma Dickinson.

O estoque de munição dos sistemas de defesa aérea Patriot da Ucrânia caiu para níveis muito baixos. E este "é o único sistema que realmente é confiável contra ameaças por mísseis balísticos", segundo ele.

Os Estados Unidos são o único país produtor dessa munição em volumes significativos e "os americanos e seus parceiros do Oriente Médio consumiram grande quantidade dos estoques na guerra contra o Irã".

Gráfico da BBC compara um drone a jato com seu predecessor a hélice. Além do novo motor, o drone a jato conta com antenas e duto de entrada curto.

Paralelamente, o analista militar ucraniano Oleksandr Kovalenko afirma que "o inimigo não reduziu a produção de nenhum tipo de míssil, nem esgotou seus estoques. Pelo contrário, ele está aumentando sua quantidade."

Além disso, desde meados de agosto, a Rússia vem usando uma nova classe de drone movido a jato, "para o qual a Ucrânia simplesmente não detém resposta no momento".

Estes drones viajam ao dobro da velocidade anterior, em altitude muito maior, com ferramentas de navegação e direcionamento muito mais sofisticadas. Sua interceptação é muito mais difícil do que a de seus predecessores, movidos a hélice.

A Rússia enviou 2.850 desses drones para atacar a Ucrânia em agosto, segundo o porta-voz da Força Aérea Ucraniana, Yuriy Ihnat. E, até 29 de setembro, outros 3.177 haviam sido enviados.

O ex-diretor da Google, Eric Schmidt (um dos maiores investidores externos do setor de defesa da Ucrânia), reconhece que eles subestimaram a rapidez com que a Rússia ampliaria o lançamento desses novos drones.

"A Rússia conseguiu orientar um drone diretamente para a janela central da sede do SBU", o Serviço de Segurança da Ucrânia, contou ele à revista The Economist. "É um alerta do que estes sistemas são capazes."

Zelensky declarou que "o índice de interceptação dos drones a jato, atualmente, é de cerca de 50 a 55%, às vezes de 60%, graças à força aérea ucraniana".

Mapa mostra áreas de controle militar russo no leste e sul da Ucrânia, nas regiões de Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson, além da Crimeia (anexada pela Rússia em 2014). Um mapa menor mostra a localização da Ucrânia.

A Ucrânia vem desenvolvendo novas formas de interceptar estes drones. E parece estar fazendo progressos, segundo O'Brien.

Mas a quantidade lançada pela Rússia é tão grande que, mesmo se 80% deles forem derrubados, "muitos conseguirão chegar todas as noites".

Dickinson é da mesma opinião. Para ele, "realisticamente, levará um mês ou dois, no melhor cenário, para que a Ucrânia esteja em posição de realmente combater esta ameaça".

Mas Schmidt destaca que "pelo menos cinco empresas ucranianas desenvolveram soluções que estão em testes".

Esta guerra, desde o princípio, é uma corrida armamentista tecnológica, na qual ninguém parece ser capaz de estabelecer uma vantagem decisiva, segundo Dickinson.

O desafio não é apenas desenvolver a tecnologia, mas produzi-la em grandes quantidades e treinar pessoas para utilizá-la. E o ataque a civis pela Rússia também "tem correlação direta" com sua falta de progresso em terra.

Moscou esperava uma guerra rápida, explica Dickinson. Mas a luta prossegue, quatro anos e meio depois, por aldeias que podem ser atingidas a pé do ponto de partida da invasão de fevereiro de 2022.

Blogueiros militares russos comparam com um pântano e dizem que estão ficando presos. "Enormes quantidades de pessoas estão morrendo todos os dias", afirma Dickinson.

'Tática de terror'

Putin quer criar a impressão de que a Rússia está fazendo progressos, afirma o general australiano aposentado Mick Ryan, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, do Instituto Lowy e do Instituto da Guerra Moderna, da Academia Militar dos Estados Unidos.

Phillips O'Brien concorda.

Com a Rússia não fazendo avanços e sua própria economia em dificuldades, os ataques aéreos são "a área onde eles acreditam poder aplicar pressão", segundo o professor. Mas esta "não é a estratégia de um Estado que tem confiança de que a guerra está seguindo a seu favor".

Putin irá "até onde for necessário" para vencer a guerra, segundo O'Brien, com duas ressalvas.

Ele não espera que Putin use armas nucleares e destaca que a China, parceira próxima da Rússia, não quer que isso aconteça. O país asiático também não acredita que a Rússia ataque uma cidade inteira com armas químicas ou biológicas.

Até o momento, não houve êxodo em massa de Kiev, segundo Peter Dickinson, mas as famílias discutem a possibilidade de deixar a cidade no inverno.

A palavra "terrorismo" o deixa cauteloso, "mas acho que não há outra forma de descrever a situação".

"É pura tática de terror... manter as pessoas apreensivas, abaladas e no limite. E está funcionando."

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