Fim da escala 6x1 é fruto de luta dos trabalhadores, não do governo, diz sociólogo

- Author, Rute Pina
- Role, da BBC News Brasil em São Paulo
Published
Tempo de leitura: 5 min
A aprovação do fim da escala 6x1 representa uma conquista importante para os trabalhadores, mas também indica que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia ter avançado antes e com mais ousadia na redução da jornada de trabalho.
A avaliação é do sociólogo Ricardo Antunes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O intelectual afirma que a mobilização pelo fim da escala nasceu da luta dos próprios trabalhadores, e não de uma iniciativa original do governo.
"É uma conquista muito importante da classe trabalhadora brasileira e nasceu da luta concreta do que eu denomino como novo proletariado de serviços", disse.
"Aquela parte do trabalhador que trabalha a partir da explosão da privatização do setor de serviços, que vive em condições de trabalho precarizadas."
A proposta foi aprovada no Senado em dois turnos na quarta-feira (14), 75 votos favoráveis e apenas um contra em ambas as votações.
A única negativa veio do ex-vice-presidente de Jair Bolsonaro, o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
"E essa proposta não nasceu do governo Lula", ressalta Antunes. "Ela veio de um jovem trabalhador do setor de serviços, das farmácias, que tinha uma jornada exaustiva, sem descanso, e que resolveu utilizar as redes sociais para dizer que não é possível ter uma classe trabalhadora que não tem descanso, que trabalha ilimitadamente."
Rick Azevedo: o desabafo original no TikTok
A mobilização nacional teve seu ponto de partida quando o então balconista de farmácia Rick Azevedo (PSOL), recém-eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, publicou um desabafo no TikTok.
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Era setembro de 2023, e Azevedo estava frustrado com a falta de tempo para a família, estudos, descanso e lazer com apenas um dia de folga na semana.
"Não dá para fazer as coisas. Imagina quem tem filho, quem tem marido, quem tem casa para cuidar", ele diz no vídeo.
"A pessoa tem que se doar para a empresa seis dias na semana e só um dia para folgar. Isso para ganhar salário mínimo. Gente, não dá!"
"Quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6x1? É uma escravidão moderna. Moderna, não. Ultrapassada."
O vídeo viralizou e incontáveis relatos semelhantes começaram a aparecer em comentários e reações ao vídeo original.
A mobilização gerou uma petição online pedindo revisão na escala de trabalho — ela ultrapassou 3 milhões de assinaturas.
Junto a outros trabalhadores, Azevedo lançou o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT).
Movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos de esquerda começaram a se aproximar da pauta.

Crédito, PSOL
Erika Hilton leva o debate a Brasília
Em Brasília, a ideia ganhou tração em novembro de 2024, quando a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) assumiu a articulação política do tema e decidiu transformá-lo em uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
O texto inicial era mais ambicioso do que a proposta aprovada: previa uma jornada semanal de 36 horas, sem redução salarial, abrindo espaço para um modelo de quatro dias de trabalho.
Em poucas semanas, a proposta superou o número mínimo de assinaturas necessárias para tramitar — incluindo apoios de parlamentares de centro e da direita. "Essa não é uma discussão de campo ideológico, mas de país", afirmou a deputada à época.
Apesar do grande apelo popular, a proposta enfrentou forte oposição do setor de comércio e serviços.
Empresários argumentam que a proposta pode ser prejudicial à economia do país sem investimentos anteriores em educação e aumento da produtividade da economia brasileira, além de aumentar custos trabalhistas e exigir mais contratações.
A proposta aprovada, que inclui redução a jornada de trabalho das atuais 44 para 40 horas semanais sem redução salarial, tem o apoio de 7 em cada 10 brasileiros (71%), segundo levantamento da Quaest.
Governo Lula: da cautela à campanha eleitoral

Crédito, Reuters
O sociólogo Antunes lembra que o governo Lula demorou a assumir a bandeira do fim da jornada e avalia que o cenário eleitoral contribuiu para acelerar sua adesão.
Rick Azevedo chegou a criticar publicamente a falta de apoio mais enfático do Planalto e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), argumentando que o governo "perdia tempo" ao não liderar a discussão.
"O governo já deveria ter se posicionado de forma incisiva", disse em entrevista ao UOL em março de 2025.
A cautela do petista em relação ao tema também é interpretada como preparação, já que o petista ainda não havia dialogado com o empresariado sobre o assunto.
A virada no discurso do governo veio em 2025. No 1º de Maio daquele ano, Lula sinalizou pela primeira vez apoio político à pauta.
"Nós vamos aprofundar o debate sobre a redução da jornada de trabalho vigente no país, em que o trabalhador e a trabalhadora passam seis dias no serviço e têm apenas um dia de descanso", disse em pronunciamento na TV.
"Está na hora do Brasil dar esse passo."
A partir de então, Lula se tornou o principal patrocinador da ideia no mundo político.
Flávio Bolsonaro: da crítica 'oportunista' ao voto a favor
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) votou na quarta-feira a favor do fim da escala 6x1.
"A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6x1, então eu vou votar a favor do fim da 6x1", disse Flávio na terça-feira (13/10), após deixar a residência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar.
Mas essa foi a primeira vez que o senador se posicionou a favor da proposta, que reduz a jornada semanal máxima de trabalho sem redução salarial. Até então, Flávio dizia que a ideia era "oportunista", por ser apresentada às vésperas das eleições.
O senador também defende uma "jornada flexível", na qual, segundo ele, empregador e empregado chegariam a um consenso sobre as condições de trabalho.
"Eu queria que tivesse liberdade para o trabalhador montar seu horário de trabalho. Como é que fica a pessoa que trabalha de home office? Isso não está definido na PEC", disse, nesta terça.
"Como é que fica aquela mãe que não tem como deixar o seu filho, só pode trabalhar, por exemplo, 4 horas por dia, só pode trabalhar de manhã ou só pode trabalhar de tarde? Vai continuar engessando a jornada dela."
Ao defender a redução da escala 6x1 na terça, Flávio tentou sinalizar também ao empresariado, afirmando que "quem vai pagar a conta é o governo, porque os empresários estão sufocados".
O senador não explicou, no entanto, de que maneira bancaria os custos. Ele defende, ao mesmo tempo, corte de gastos, redução da carga tributária e manutenção dos programas sociais.
Impacto para Lula
Para Antunes, a votação expressiva e aprovação da PEC "vai certamente ser um ganho da vitória do Lula nesta campanha".
Desde a votação, páginas lulistas tem exaltado incessantemente a vitória.
Em vídeo gravado no plenário do Senado, um dos maiores cabos eleitorais de Lula, o deputado federal André Janones (Rede-MG) atribuiu o resultado ao presidente.
"(Veio) Pelas mãos de um metalúrgico, de um migrante nordestino, do maior líder popular da história. Tem nome e sobrenome: Luiz Inácio Lula da Silva!".
Para Ricardo Antunes, Lula deve aproveitar a conjuntura para ir além.
"É o momento que o Lula tem pra tentar tomar outras medidas mais ousadas", declarou.
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